Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
09
Jun 18
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

...mas também se pensa, como está o mundo - cheio de Trumps, Brunos, Carlões e outros aldrabões, como Marias Joões - pessoas que censuram e impedem os trabalhos dos outros, só porque os ditos, quando acabados e validados lhes retirariam o tapete*.

Screenshot-2018-6-14 Gloria Azevedo Coutinho.png

E assim pensando também se deduz que não foi mau (tanto como desejavam), o caminho, que por isso se passou a fazer, contornando.

Cascais-de-longe.jpg

Legenda1

Cascais-de-longe-transformed.jpg

Legenda2

DAPRAIAdaRAINHA-CASCAIS.jpg

Legenda3

E contornar é também preparar as próximas fases, pois a vida é feita de transformações e novas adaptações que precisam de tempo antecedente (de preparação). Ter ido à FL-UL, arranjar temas e espaço para 10 (ou 20?) anos depois é um privilégio das longas vidas que hoje se podem viver...

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*Fazendo (lhes) cair as fantasias e as irrealidades a que as suas mentes se agarraram: sem oportunidade de as aferirem e corrigirem!


22
Mai 18
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

... como sabemos alguns Historiadores «adoraram», verdadeiramente, esta expressão.

 

É mesmo, e por tudo e por nada lá vinham eles com as "Viagens das Formas".

Não sabiam onde as formas tinham nascido, nem como, nem porquê? E se, nem de onde vinham nem para onde foram, algum dia - ou já agora há que lhes perguntar se se terão interrogado sobre esta questão? É que o certo, é que lá vinham eles, sempre, repetindo essa expressão que veio, pensamos nós, dos autores franceses?

Terá sido de Focillon...?

Não sabemos, mas achamos divertido ver como as coisas vão «funcionando», e continuam. Só que, actualmente, a poder pôr a dita expressão num motor de busca, e é mesmo muito engraçado ver os resultados que aparecem.

Pois lá estão os títulos de alguns livros, já que por aqui, em Portugal, tudo se absorve muito (acriticamente) e assim se repete, e repete, e repete, até à náusea...

Sobretudo se vier de fora! Sem um questionamento, sem uma pergunta, sem nada! Porque a realidade é imutável (pensam eles!)..., e repetem, e repetem, e repetem...

Como se, atavicamente agarrados ao seu próprio inconsciente (muito próprio e muito individual mas que se torna colectivo), eles se dissessem: "...deram-nos assim, é a Ogiva! Porque havemos de contestar, questionar ou perguntar alguma coisa, se assim está tão benzinho?..."

focillon-o GÓTICO.jpg(índice de H. Focillon, A Arte do Ocidente)

 

Mais, completando a ideia, é sabido que aqui, em Portugal, é proibido inovar!

Sobretudo se for numa escola de design...

Sobretudo se for um arquitecto a explicar como se combinaram e compuseram imagens que depois foram ideogramas;

Sobretudo se for uma professora a leccionar há mais de 40 anos nessa mesma escola...!

 

Sabemo-lo bem, já que os nossos esforços para difundir e interessar outros por uma questão que é interessantíssima - e precisa de ser estudada com mais recursos e mais pessoas (investigadores) -, têm tido zero frutos.

E se começou nos estudos de um mestrado, continuou na Faculdade de Belas-Artes, com Fernando António Baptista Pereira a considerar que todos os seus assuntos eram sempre mais importantes do que os temas dos nossos estudos, ou do que o apoio que era suposto ele como orientador dar a uma orientanda... (porém, gabando-se que tinha dezenas de orientandos...)

Dizem-nos: "que é da Inveja..." - talvez? (é o que temos que responder)

Só que agora o Casamento Real trouxe para as redes sociais, de novo, algumas Tiaras. Sendo que há uma que a Rainha de Inglaterra tem usado em várias ocasiões, e que tem a mesma iconografia que se pode ver na Arquitectura e na Tumulária*:

Imagem de génese Iconoteológica, que foi sinal de união ao divino; ou, dito por outras palavras: a tradução em imagens (e numa época) do direito divino do poder real**.

Imagem que se transformou em padrão a partir do fim do século XI e início do século XII, tendo depois dado origem ao arco quebrado como bem explicou Juan Caramuel de Lobkowitz.

Imagem que nos foi essencial para perceber a origem da Mandorla, e como esta surgiu para traduzir o conceito cristão do Filioque.  Conceito que por exemplo a separação, ou o Cisma Luterano, não fez mais do que reforçar, na senda de uma defesa que já Carlos Magno fizera, impondo o Filioque à própria Igreja, ele que foi «mais papista que o papa»***. 

A peça que é conhecida como The Grand Duchess Vladimir Tiara  terá sido comprada pela Queen Mary em 1921. Isabel II herdou-a.Rainha Inglaterra- Andy Wharol-FS-II_334.jpg

Tem exactamente a mesma iconografia que o túmulo de Egas Moniz, a qual seguindo Owen Jones e a sua Grammar of Ornament, essa Iconografia é de origem bizantina. Será?

tombe-EgasMoniz.jpg

(desenho do túmulo de Egas Moniz, in António Feliciano de Castilho, Quadros Históricos de Portugal, Lisboa 1838)

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*Desde a casa de Marques da Silva no Porto, a várias antigas "mansões" da Av. da Liberdade, e recuando até ao Túmulo de Egas Moniz onde vimos a imagem pela primeira vez.

**É uma questão antropológica claríssima...

***Se Carlos Magno se impôs ao Império como Protector da Igreja (principal instituição do Império), ele próprio foi, como repetidamente é lembrado, descendente dos antigos invasores. Mas também por isso, criador de uma nova realidade, em que o eixo de Poder, na Europa, se deslocou para Norte; uma «nova geografia» que a divisão luterana veio mais tarde reforçar e dar-lhe continuidade. Enfim, depois do Concílio de Trento vê-se a Europa dividida, o que teve a maior expressão na Arte. Concretamente na arquitectura e no chamado revivalismo do Estilo Gótico.  O estilo que se fez renascer para marcar, o máximo possível, as diferenças entre os apoiantes (e os não-apoiantes) da Reforma. Com os Protestantes a reclamarem serem os verdadeiros cristãos (dada a sua postura de exigência, como fez Lutero, e por exemplo o Pe  Carreira das Neves evidenciou...). Contra os apoiantes da Contra-Reforma de Roma, a quererem evidenciar que continuavam a usar o Estilo dos primeiros Imperadores cristãos (os que levaram à oficialização do cristianismo): i. e., o estilo que é por isso chamado Paleocristão.


14
Mar 18
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... a mais comprida chama-se "Corridor".

 

O qual, por várias vezes, já nos inspirou.

Primeiro para aceder às instalações provisórias de uma farmácia nas Fontaínhas (em Cascais, projecto e obra anterior a 1997).

Claro que sendo provisório foi demolido, mas enquanto durou foi bem giro, com a ilusão de conseguir parecer mais largo do que de facto era.

(Ou seja o mesmo que está em Monserrate e até agora «a papagaia-mor» ainda não piou!)

Depois para o projecto de uma Academia renascentista, à maneira de Marsílio Ficino e de Cosimo - o seu patrono

Ou ainda para legendar uma foto


12
Mar 18
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Comece-se pela frase abaixo (ver nota*1), referindo-se uma Professora da Faculdade de Letras - que por acaso é Maria João Baptista Neto, que foi nossa orientadora de Mestrado:

"Esta professora da Faculdade de Letras está há sete anos a estudar o palacete no tempo da família Cook, encabeçada por um homem de negócios “recatado, pacato”, que só em 1886 recebeu um título no Reino Unido, o de baronete (D. Luís I deu-lhe o de visconde de Monserrate)."

Pena que o jornal O Público não tenha querido informar-se melhor para fazer um trabalho de mais qualidade (como também não fez a RTP): concretamente da «originalidade» que pode ser crime, e tem nome: Plágio. Que é os Professores da Faculdade fazerem-se donos dos trabalhos dos seus (ex-)alunos. E se nalguns casos pode vir a haver avanços científicos úteis, noutros, também há recuos e incompreensões, do que eles supõem estar a desenvolver (?).

Ou, também porque deliberadamente, passaram a querer marcar como propriedade intelectual sua - o que, em parte, ou no todo, nem sequer compreenderam! Sobretudo, e enfim, o que eles conseguem é baralhar, porque «no seu copiar», apenas estão a desvirtuar e a degradar o trabalho original...

Mas, passemos ao que de facto aconteceu, e há muito mais do que os "7 anos" do jornal O Público:  

Na verdade desde 2001 que Maria João Baptista Neto acompanhou o nosso trabalho, que, sempre quisemos fosse sobre Monserrate. Apesar do que também começámos a descobrir, quer sobre "As Origens do Gótico", sob a «sua batuta», evidentemente, de um tema que era seu e nos impingiu*2: matérias que ficaram no Capítulo I (mas a um nível já razoavelmente desenvolvido, e sem dúvidas sobre o que foram de facto as tão badaladas Origens do Gótico - que M.J.N. não largava!).

Quer depois, no Capítulo II - continuando a aparecer ligações e ideias de que não se tinha desconfiado. Capítulo que por isso também se desenvolveu com razoável originalidade (face ao que até então existia), relativamente à importância e a influência do Aqueduto das Águas Livres sobre a Arquitectura Inglesa.

[E aqui também, foi este capitulo motivo para Vítor Serrão incomodar e pressionar, para que escrevêssemos e estudássemos «de preferência» o Aqueduto, como registámos no nosso trabalho. Chegando a querer que o seu Barroco,  de um dos «guias da Presença», fosse a nossa bíblia; mas onde aí, vários «errozitos» serviram apenas para nos desinspirar do referido tema. Pois o Aqueduto, comparado com a riqueza da composição (sintagmática)  dos Knowles, é apenas colossal. O que, para jóia arquitectónica, comparando com a delicadeza da casa de Monserrate, achámos curto!]

Finalmente no Capítulo III do nosso estudo - que está publicado -, também abrimos caminho e colocámos questões inovadoras (principalmente para Portugal e não para os ingleses que há muito tempo sabem disso*3): sobre a influência, claríssima, da Arquitectura Italiana que os ingleses viajantes do Grand Tour, e depois os amateurs (arquitectos), romanticamente importaram para o seu país. Designando até essas obras com a palavra Italianates.

Porém, PARA NÓS, no artigo do Público são igualmente muito curiosas outras frases (assim como os seus autores):

“A nossa ideia é reconstituir, tanto quanto possível, o interior da casa quando os Cook aqui passavam férias. Queremos fazer deste palácio um museu, à imagem da Pena”, diz ao PÚBLICO António Nunes Pereira, que acumula a direcção de Monserrate com a do palácio sonhado pelo rei D. Fernando II, marido de D. Maria II.

CasaDeJantar-Monserrate-cadeiras.jpg

(excerto da casa de Jantar de Monserrate*4)

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*1 - Como chegar às informações vindas do Público: 

https://www.publico.pt/2017/12/01/culturaipsilon/noticia/monserrate-a-casa-de-um-milionario-ingles-que-quis-ganhar-ao-rei-de-portugal-1794585

*2 - Só que depois, ficando verdadeiramente aflita com o que se descobriu «mandou-nos» esconder e pôr para trás, no próprio trabalho. E assim aliás, ficou na publicação - tirando nós partido da lógica da sequência de imagens (que em Arte é a melhor forma de abordar as questões). Bem diferente do que sempre se faz na Faculdade de Letras, mesmo em História da Arte! Porque, o conhecimento e a disciplina mais básica, em Arte, e para todas as imagens, chama-se Geometria. Assunto que na Fac. de Letras de Lisboa corresponde à brancura total das mentes (ou a uma completa ignorância no tema....)

*3 - Curioso é que Maria João Baptista Neto que acompanhou o nosso trabalho, como mais ninguém, de 2001 a 2005 (podendo até dizer-se que esteve quase «dentro da nossa cabeça»...). Como é que alguém que teve esse «espectáculo», até o privilégio de assistir de perto e por dentro, tendo visto a maioria das ideias a nascer..., vem dizer agora que provámos - "será pelo mérito de ter dois olhos treinados no ver"...? - que a cúpula de Monserrate provém do Duomo de Florença? De facto é verdade. Sim pusemos as duas cúpulas lado a lado (talvez em 2003-4?). Mas, anedoticamente, ficámos agora a ter que saber (porque o escreveu) que pouco conhecia da influência da Itália romântica sobre a Arquitectura victorian. Como também não sabe, o muito mais que continuámos a encontrar: De onde vêm (num trabalho quase arcaico), os  vãos bífores que são agora as janelas deste palácio sintrense...

*4 - Imagem que em 2004, na FLUL, nos fez ouvir um tão estranho remoque (mas que actualmente está explicado): "Porque é que ainda antes, ninguém tinha visto isto?" E desvalorizando o trabalho da aluna (do qual, formalmente é co-autora, embora se comporte como quem nada tem a ver com essa autoria), lá foi à procura de quem, muito mais antigo - e não a aluna que destacou esse pormenor, para não ter que lhe dar razão... -, explicasse o motivo de os Cook terem suspenso, sobre a mesa de refeições, um enorme pano?! Porém, o pano é mera e a mais simples solução para um problema acústico Como no IADE durante 30 anos adorei ensinar (para o bom design ambiental de um espaço de refeições, de modo a que não «virasse cantina»!). 

Por fim, o que se pode aconselhar, que é ensinar: Leiam e informem-se, para com algum esforço e menos plágio conferirem consistência ao que «lhes aparece feito»...

 

T. HUNT-Primaluce.jpg

de Tristram Hunt - Building Jerusalem, The Rise and Fall of the Victorian City


01
Mar 18
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De tudo um pouco, nós percorremos...

 

Quem visita o edifício principal da Quinta de Sintra apercebe-se que tem aí de tudo um pouco. Desde a base Georgian (ao Victorian que veio a constituir), foi muito o que se somou à edificação pré-existente. Melhor ou pior, ou seja com mais ou menos articulação*, e integração de diferentes partes (i. e., os elementos visuais constituintes) ficou criado pelos arquitectos Knowles, o que é o verdadeiro sintagma**.

Assim, o que nos aconteceu, frequentemente, de cada vez que nos aproximámos dessa casa (até antes de começar a estudar arquitectura), foi sempre uma sensação de enorme estranheza.

Tal e qual como o blend de um chá, onde aqui e ali se identificam sabores e aromas, mas em que a mistura final é ainda, e quase sempre, uma surpresa: porque dificilmente nos habituámos a ela: à junção muito especifica que ficou feita.

No chá são plantas com diferentes sabores, na arquitectura a junção e colecção de excertos (arquitectónicos) em geral vindos de outras obras, já existentes. 

No entanto, foi sobretudo quando em 1987, a convite do IPPC***, recebemos a incumbência de registar as Patologias, já então de razoável gravidade existentes na construção; foi nessa altura, que nos apercebemos do enorme valor da obra.

Percepção que não deixou de ser acompanhada por uma imensa raiva, relativamente ao estado de abandono a que se tinha deixado chegar o que nos parecia ser valiosíssimo. E as obras (escritas) de J.-A. França, Francisco Costa, José Alfredo Da Costa Azevedo, o Guia de Portugal (Lisboa e Arredores), mais outras tantas, incluindo enciclopédias..., em geral foram-nos dando informações. E talvez à excepção das primeiras (França e Costa?) tudo era incrivelmente lendário. Sendo apresentado sempre sem uma noção relativa da distância temporal (pelo menos é disto que recordamos): como se fossem histórias e acontecimentos dos confins dos tempos, ou das brumas da memória, e não de setecentos, e depois de meados do século XIX. Aquilo que era afinal só um pouco mais antigo do que bisavós e avós que tínhamos conhecido...

Mas, muito curiosamente, o álbum recém-publicado (Monserrate Revisitado) já põe todos estes assuntos «nos antípodas»: como se, ao contrário, de tudo houvesse grande proximidade e as maiores certezas: sem brumas e sem quaisquer dúvidas, posto transparente e assim (obviamente) explicado.

Só que, por sorte ou por azar, connosco não foi isso. E a partir de Maio de 1987, na sequência de uma especialização feita um ou dois anos antes no IST, apercebemo-nos que  (todas) as edificações foram sempre, principalmente, suportes de ideias. Sim: é que por muito que se fale e se pense, que são preponderantes as características de resistência dos materiais e das suas formas, e ainda as características de funcionalidade; que se diga que são estas que «desenham» as edificações, não estamos de acordo!

Mais: a frase de Louis Sullivan - a forma segue a função - é retórica pura! Uma frase «bem gira», engraçada, utilíssima até, mas mais uma das muitas blagues deste mundo (de teorias blablabla, e pouco sérias) em que vamos vivendo...  

Para nós, desde que absorvemos melhor as «regras» do desenho arquitectónico/projectual, o que as justificou, e as justificava (às formas), foram razões. E por isso dizemos - motivos memoriais... Em que a palavra motivo já é a que usou Robert Smith para se referir aos ornamentos: ou seja, à linguagem das edificações.

Claro que todos sabemos que o «programa ideológico» de Monserrate foi riquíssimo, e demasiado vasto. Não cabe aqui. Mas talvez caiba (?) que no final dos anos 80, na nossa raiva contra a incultura dos poderes instituídos (vinda, quiçá dos "quase mais de 50 anos de fascismo"?), e incluindo nesses poderes as universidades, que ainda mantêm as mesmas posturas: caladas, como ratos, a não transmitirem para fora o Conhecimento que algumas vezes produzem...

Nessa sensação, e num sentimento crescente, que passava a ser de pena, e lamento pela imensa perca cultural a que se tinha que assistir (tanta pobreza, tanta falta de visão); então teve-se também a noção que era essencial «demolir» toda uma grande série de preconceitos, incrivelmente estabelecidos, e redutores, que persistiam à volta de Monserrate. 

Percebeu-se que teria que ser a lógica - mais do que o hábito de contar as Lendas do Padre Gaspar Preto e de um Cavaleiro Moçárabe... -, que deveria passar a integrar, e a prevalecer, nas futuras histórias de Monserrate. É que podem (devem até) essas histórias ser plurais, com todos os heróis que se queiram incluir e chamar para os elencos, mas que se compreendam, de vez, pelo menos as duas diferentes fases de Monserrate.

Desde o Chateau de M. De Visme - ou a Casa, que seguiu o paradigma francês tradicional. Isto é a  regra/modelo para as mansões nobres, que deveriam ter telhados altos e torreões, ainda com raiz no modelo de Philibert De l'Orme (que por sua vez nasceu na longínqua Arche de Hugo de Saint-Victor). À segunda fase, com o novo paradigma que Francis Cook quis ter: uma imagem da Europa continental, antiga e classicista. Note-se que em Inglaterra algumas casas foram chamadas Italianates, de uma Europa com berço em Itália, a exaltar os seus «fazedores» como Jacob Burckhardt começou a fazer. E que, simultaneamente, ao não esquecer W. Beckford e G. Byron, consolidou a expressão romântica.

Seria um palacete exótico "ma non tropo". Pois bastava a «loucura» do Pavilion de George IV, em Brighton!

Francis Cook, ao contrário do seu rei preferiu uma obra que apesar de hoje ser vista como pouco convencional (e a de Brighton, essa não tem nada de «conveniente» para a casa de um rei...) tinha pelo menos a lógica da religiosidade protestante, e ainda a da última moda: Ruskin acabara de escrever The Stones of Venice. E se os seus arquitectos, nos vãos exteriores (dos alpendres), prolongaram e «estrangularam» os arcos trilobados, conferindo-lhes um cunho mais orientalizante; diferente do que está no Palácio dos Doges, ou na Ca d'Oro (mais gótico, cristão). No entanto note-se que John Ruskin  desenhou uma tabela com cerca de 40 arcos/vãos diferentes, que tentou organizar por famílias em função da sua base-geométrica (ver vol. 2, p. 248, PL. XIV - THE ORDERS OF VENETIAN ARCHES)          

As duas fases de Monserrate são absolutamente compreensíveis e integráveis no que aconteceu (também) noutros países. E embora artisticamente haja variantes regionais - cuja importância é fundamental sublinhar, e não esquecer que existiram! - algumas obras podem no entanto ser mais únicas, ou mais raras e valiosas; mas também (mais) pioneiras no criar dos chamados sintagmas. Que um dia mais tarde, eventualmente, se podem ter tornado em novos modelos - paradigmas -, que geraram outros, e assim sucessivamente (se vão tornando «epígonos arquitectónicos»).

Para a demolição que referimos, a dos muitos preconceitos instalados (ainda em 2004, quando uma nova fase se iniciou em Monserrate - PSML), e para separar imagens e  temas visuais que na casa de Sintra foram como que «concatenados» pelos arquitectos Knowles (seguidores de J. Ruskin, segundo escreveu Henri-Russel Hitchcock) tivemos que ler imensos livros. E entre esses há 2 que não esquecemos. Porque o primeiro (e foi mesmo o primeiro a alertar-nos de modo sistemático, repleto de bons exemplos) é de 1979, edição da Thames & Hudson, Londres.

Apresenta o Orientalismo - "um gosto nada convencional" como referido pelo autor Patrick Conner no prefácio de:

conner 001.jpg

E o segundo livro é da Taschen. Escrito por Marianne Barrucand, especialista na arquitectura do centro-sul da Península Ibérica (que às vezes raia as fronteiras do interior português). Nele, mas também noutros estudos da mesma autora, é dado algum enfoque à questão da geometria/desenho dos diferentes arcos. Um pouco na linha de Ruskin, com óptimos contributos, mas ainda sem perceberem (ambos) o cerne da questão. Razão - dizemos nós, para ler ainda André Grabar e Oleg Grabar, pois houve uma linha condutora entre o trabalho de André (pai) e o de Oleg (filho de André Grabar, sendo o mais novo um reputado especialista na Arte Islâmica).

Mais, só na actualidade é que se diz, assim superficialmente (e assunto encerrado), que é oriental. Sem o mínimo esforço de compreensão, ou de localização do dito Oriente? Aliás, Christopher Wren terá sabido mais do que se passou em Toledo - já que esta é a questão de Maria João Neto e das Origens do Gótico (que nos colocou em Out./Nov. de 2001):

Em suma: todo o contexto religioso gerador de ICONOGRAFIA para as Artes Decorativas, como estão no edifício de Monserrate - e que sobram depois para os vitrais, ourivesaria, cerâmica, tapeçarias..., etc., etc. A verdadeira obra primeira (que teve depois vários filhotes e descendentes), é a questão que Monserrate, mais uma vez, coloca!

marianne-barrucand-02 001.jpg

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*Lembre-se o Essai de Christopher Alexander - o meu livro é em francês - De la Synthèse de la Forme, Dunod, Paris, 1971.

**Na verdade não nos referimos a Beleza. Estamos simplesmente a falar de ideias (que foram traduzidas em formas, e em detalhes arquitectónicos). Por isso, quando se fala do «estilo Knowlesiano» de Monserrate é muito o que nos ocorre. Primeiro (uma gargalhada!) sobretudo a começar por Saussure e pela Linguística, as aulas de Semiologia de Tomás Taveira, na ESBAL 1973-74. E se há obras ou edifícios alguns melhores para explicar Símbolo, Paradigma e Sintagma (estes 3 elementos que nos «moeram a cabeça», e deixaram sementes para o futuro) de certeza que uma dessas obras é o palacete de Monserrate! Diria até que é uma das óptimas provas da aplicabilidade/transposição de análises linguísticas e semiológicas à linguagem visual da arquitectura.

***Assim se chamava, foi depois IPPAR, IGESPAR, e agora (talvez?) DGPC


21
Fev 18
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

Ou seja, uns dias depois do "Rewarding Disobedience", e tendo nas mãos mais um álbum dedicado a Monserrate - que nos lembra os vários álbuns que foram feitos no meio-fim do século XX (enquanto lá em Sintra o edifício se ia desfazendo...). Por aqui vamos vendo, cada vez melhor, o que os desenhos e as imagens sempre ensinam*:

 

"Drawings that were (& still are) a reward"

E decidimos brincar com elas. Que é como quem diz, vê-las ainda melhor, estabelecendo métricas e marcas (o traço verde) para ajudar na comparação dos desenhos.

owen 002-blog.jpg

Acima imagem vinda da versão francesa do trabalho de Owen Jones - arquitecto e decorador inglês (na actualidade seria o verdadeiro designer) que reuniu ornamentos dos principais monumentos da Europas Ocidental, mais especificamente, daqueles que eram visitados no Grand Tour. Imagem (vinda da versão francesa La Grammaire de l'Ornement, ed. L'Aventurine, com os textos da tradução de 1865) que parece estar na origem do desenho que foi aplicado em grandes áreas do Palácio de Sintra.

Abaixo a imagem das paredes de Monserrate (fotografada em 1987 e passada agora a desenho) deixando para os leitores a curiosidade de procurarem as diferenças e as semelhanças**.Padrões-estuquesMonserrate-blog.jpg

Por fim, e apesar de se saber que Owen Jones fez este trabalho aproveitando os conhecimentos que vinha a adquirir, entusiasmado com as possibilidades da cromolitografia (que então estava a nascer). Na verdade, e apesar desse seu interesse - mais técnico - por um processo de reprodução que permitia imprimir a cores, é forçoso destacar que este trabalho de Owen Jones é também de uma enorme qualidade literária (histórica e informativa***):

Assim, na Grammar of Ornament encontram-se óptimas informações que completam outras - em geral mais conhecidas, ou mais acessíveis, vindas de autores mais recentes, e da bibliografia contemporânea (mas não tão rigorosa). Como são exemplo as dos Dicionários de Símbolos, ou de trabalhos valiosíssimos, como é o caso do Dictionnaire Critique D'Iconographie Occidentale 

owen 003-C.jpg

Por isso a escolha do excerto acima (de Owen Jones), relativo às imagens que designa "Mauresques". Como se pode ler é incrivelmente preciso e informativo, fazendo lembrar o que vemos (e lemos) em sinais tão diferentes, mas que são igualmente, muito falantes. Ou seja, nos sinais nascidos no contexto da Arte Cristã, e que se destinavam a exprimir ideias do cristianismo.

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*Isto é, há (ou devia haver, e praticar-se) um carácter muito mais experimental adequado para a investigação em artes visuais. Já que, sempre que se põe a mão num qualquer desenho, pode receber-se em troca «um dilúvio de informação»!

**Não me esquecendo nunca da  Visita Guiada a Monserrate, da RTP, e da grande lata da Maria João Neto a dizer que tinha sido facílimo encontrar nos desenhos de Owen Jones os padrões do Alhambra que foram transpostos para os estuques de Monserrate. Percebe-se! Ela lá sabe (aliás melhor que todos!), como plagiar é mesmo facílimo...

***Porque, lá atrás (no tempo), mais perto dos acontecimentos, há autores que transmitem informações muitíssimo mais completas. Bem diferente daquilo que hoje os nossos contemporâneos, andam tão longe de (as) perceber, quanto mais consegui-las nas investigações que fazem. Passa-lhes ao lado...


09
Fev 18
publicado por primaluce, às 10:00link do post | comentar

... sobre como se estuda em Portugal, e não se deixa inovar. Aliás típico da FLUL*

 

Como as instituições e os seus caminhos são inconsistentes, aleatórios ou à vontade de cada novo freguês - arrivista -, ou acabado de chegar. Sempre indiferentes aos passos já dados, às novas explorações e às novas hipóteses colocadas.

Diz a OCDE

E por aqui seguimo-los, aos relatores, não deixando que nos silenciem!

 

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*Não aceitando que se retirem todas as conclusões, sobretudo as melhores e os avanços feitos nas áreas científicas em que eles próprios impingiram temas e ideias que obrigaram os alunos a investigar. Mas em que no fim, esclarecidos os enigmas, à boca cheia, os próprios responsáveis repetem: "Esconda, esconda, esconda, ponha para trás!"


04
Fev 18
publicado por primaluce, às 11:00link do post | comentar

Estamos de acordo, ainda bem que há quem coloque a questão - cientificamente muito útil - que é a da desobediência.

Outros chamam-lhe pensar «fora da caixa». Ver os links 1 e 2 (também no fim deste post)

 

Não me esqueço, e já aqui escrevi várias vezes, sobre a escolinha da FLUL onde aos 50 fui fazer um mestrado para progredir na CD (i.e. na carreira docente - algo que tem estatuto legal*).

Até à publicação do livro (sobre Monserrate) fui vendo, predominantemente, e quase só os aspectos positivos; mas nunca deixaram de estar, e de existirem ao mesmo tempo, vários aspectos negativos.

Com o tempo a progressão passou a estagnação, e a regressão. E hoje até já falamos que afinal vim de lá, dos estudos do Mestrado na FLUL, roubada, e com um imenso atraso de vida! Qual progressão? A da Maria João Baptista Neto?

Mas o foco deste post é a desobediência. O que pode ser uma alegria (?), e ter até aspectos muito positivos. Gratificantes!

Não me esqueço de uma colega, mais nova, que também ela tinha ambições profissionais, normais, mas cuja família, apesar dela ser solteira, ainda pesou mais (do que a minha), limitando-a na sua situação, e nas decisões pessoais que os cursos e outras vertentes das nossas vidas profissionais sempre implicam,  É que mesmo que não haja leis escritas, há todo um peso que funciona como lei, e regras inerentes aos hábitos de vida de família tradicional, a que é preciso desobedecer...

Então, ficou já aqui registada uma 1ª desobediência (a protagonizar).

Depois, e em estudos de mestrado (iniciados em 2001, ainda não «de Bolonha») que não correspondem apenas a uma aprendizagem de nível científico, daquilo que já é sabido, e onde é preciso aplicar o Saber que é conhecido a casos ainda não estudados. Então, nesses estudos pode acontecer que na recolha de elementos, normalmente considerada investigação, surjam novos dados que vêm acrescentar Saber, àquilo que até então era conhecido.

É nessa fase que os novos dados são submetidos às regras e às leis da Ciência existente. Já que a imaginação de quem está a compilar dados, a estudar situações semelhantes, e a conhecer as regras a que normalmente cada caso obedece... É nessa fase que o estudioso começa a desobedecer, quando na sua cabeça, ao admitir (outras hipóteses), começa, curiosíssimo, a questionar e a imaginar que sejam outras as leis de funcionamento, ou as que regem, por exemplo a Vida, o Universo.

Ou até as questões muito mais pequenas, como actualmente sucede - e se estudam nos mini-mestrados e mini-doutoramentos, de Bolonha - para enfim o país apresentar melhores rankings a nível internacional. Acrescentado em 9.02.2018

Ora voltando às ditas desobediências, vê-se que vão funcionando, talvez não de repente (?), mas etapa a etapa. Sendo a segunda desobediência - a de uma mulher da sociedade tradicional portuguesa (pior ainda se tiver emprego, e chefes muito mais novos, mas com imensa ambição, e pressa a mais...) - o facto de ter começado a Imaginar**. 

Depois, se entender que está certa nas hipóteses que vai colocando, tenderá a formular e a propor novas regras: Começando a inventá-las, por vezes cada uma das novas ideias, depois as excepções à regra, também as palavras em que se exprimem, etc., etc. E desta maneira, prodigiosamente, ou de prodígio em prodígio e de sorte em sorte, novas desobediências, do, ou aqui da dita estudiosa, não vão parar de crescer.

Connosco passou-se, na dita escolinha (dos meus 50 - na FLUL), estando um dia toda a gente da aula a pensar nas «Ogivas das Origens do Gótico»; as mesmas que então tanto ocupavam e preocupavam a Maria João Baptista Neto - imagine-se só o que me saiu boca fora, nesse dia, a dado momento: "Mas afinal digam lá o que é uma ogiva, onde começa e onde acaba?"

Foi o disparate completo, momentâneo, um silêncio total. E logo me apeteceu ter um buraco para me enfiar! Vendo o que podia parecer asneira, e muito ilógico, acrescentei: "Mas a ogiva começa no chão, na base da coluna, ou no capitel?"

Para quem não percebe nada de cargas das estruturas - cujos pesos têm que chegar ao solo, e que este deve responder resistindo (e não deixando que o edifício vá descendo, e se vá enterrando) - a nova pergunta que se acrescentou, foi técnica, e foi pertinente. De quem considerando que ao tratar-se de uma peça estrutural, queria saber da correspondência entre essa peça e a designação que lhe é dada. A que elementos visíveis corresponde a palavra Ogiva? O objecto que naquele momento pairava na mente de todos, e que, tão aflitivamente, estava a alimentar uma discussão que parecia imparável***.

Assim, também «meio-aflita», no fim saí da aula a pedir desculpa pelo atrevimento: ou seja, pela desobediência mental. O que tinha sido o ultrapassar de uma linha (a do senso comum, quiçá, para todos os outros já perto da loucura?), como acabara de fazer.

Mas a sra. profª. (a dita e redita Maria João Baptista Neto) respondeu nessa altura com verdadeira sageza: "Não peça desculpa. Porque a sua pergunta, quando a faz, vem mais informada, é feita com mais conhecimento..." 

Então lá fui à vida, mas o assunto durante uns bons anos continuou muito vivo na minha cabeça.

Hoje sei que tudo isto nasce de um imenso disparate, em parte ancorado nas ideias de Viollet-Le-Duc, mas também nas dos historiadores que viram semelhanças a mais (exageradamente), por exemplo com a Biologia e os organismos vivos. E se a Arte, neste caso particular a Arquitectura das Igrejas e das Catedrais, foi vista como um ser (quase vivo) e constituído, organicamente, por partes, no entanto há um ponto em que as analogias terminam.

Claro que as analogias são óptimas para ajudar a pensar e para compreender. Todos os profs. as fazem ao ensinar. Mas o âmago, ou a essência, de alguns objectos é essa: São objectos e não são seres vivos! Porque uma igreja ou catedral, tal como uma cadeira ou o ambão de onde se fazem as leituras da liturgia, são objectos. E como tal, essas enormes edificações, estruturalmente precisaram, como uma cadeira também precisa (sempre), de peças onde se concentram as linhas de força: isto é, peças onde o peso próprio (da cadeira), mais o peso de quem se senta, e a resposta resistente (vinda do pavimento), se vão «localizar».  

Portanto quando perguntei o que é uma Ogiva, estava a reviver, plenamente, e a pensar de acordo com a lógica errada que tinha aprendido, e que todos temos usado; sem ninguém desobedecer ou denunciar, com voz forte, este erro imenso que todos fazemos. Eu estava a querer saber, como se fosse no corpo humano, por exemplo do fémur: "Digam lá desse osso da perna, onde é que começa e onde é que acaba"?

Prova-se aliás como são várias as lógicas que temos que passar a colocar, exactamente ao contrário. Porque a Ogiva ganhou o nome na palavra Auge, vinda do latim, em que o verbo augere significa ir mais alto, ou subir. Chamou-se Augive.  E a ideia de chegar ao Auge está bem explicitada em desenhos (muito) esquemáticos dos tratados De archa de Hugo de S. Victor que já colocámos em Iconoteologia.

Como está a seguir ampliado, em que a Ogiva foi desenhada como se fosse uma escada. Vendo-se que as pequenas figuras humanas estão a subir degraus; mesmo que muito altos e a custo. Numa ascensão feita vista de baixo, com o olhar, que era contemplativa, ou mística (designada augere).

E em que a cada degrau, ou pedra - na «faixa da ogiva» no desenho (ver abaixo) - surge também indicada a correspondência com um livro da Bíblia: concretamente do Antigo Testamento 

fotos.sapo.pt-ogivasHSV-1.02.2018.jpg

(Pelo link acima ampliem, rodem o écrã e leiam: está lá muito. Vindo de um tratado que tem sido considerado apenas de Teologia )

Notem por fim, que Ogivas e Arcos Quebrados (ou Arco Ogival, como erroneamente tem sido designado), são diferentes. Mesmo que nos tenham ensinado de outro modo, ou que as imagens de uns e outros se aproximem (mas é raro serem semelhantes). Portanto insistimos, porque esta é, já há muito tempo, uma regra a que muitos têm desobedecido: notem, definitivamente, que Ogivas e Arcos Quebrados  são realidades, ou objectos, bastante diferentes!

As designadas Ogivas (e repete-se, não estamos a referir os arcos quebrados) foram o equivalente a Ornamentos, tendo uma forma em geral próxima da que é chamada Cruz em Aspa. Têm uma extensão considerável, parecendo nervuras (de pedra) sob a face inferior (dos tramos) das abóbadas...

E muito mais diremos algum dia, próximo, em Iconoteologia.

Lembrando que sobre esta questão - em que há uma imensa avidez de conhecimentos e de informação, como aconteceu na tal «aulinha da FLUL» (algures entre Outubro de 2001 e o fim de 2002?) - já escrevemos várias vezes. Só que o assunto é imenso: dir-se-ía de uma grandeza que é proporcional, ao desinteresse que é também geral. 

Assim, se estiverem interessados, para já ver os links: 3 , 45. e neste último, ler nas notas uma ideia de S. Paulo que influenciou, como nos parece, a História da Arquitectura (antiga). Porque o edificado - como G. Hersey referiu -, "...foi esgotado da sua capacidade significante, em prol da Filologia". 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Enquanto que se saiba, apesar de até agora as mulheres serem comummente «empurradas» por todos, nas mais variadas situações (a começar na família), e postas em segundo ou terceiro lugar. Porque está «sempre à perna», um qualquer homem cuja vontade tem que passar à frente.  E isto se tem estatuto legal (?) é ao contrário. Porque a tradição privilegia o masculino, mas o «estatuto da igualdade de género», legal ou formalmente, estipula isso mesmo: A Igualdade.

**Não é por acaso que um romance (alusivo à imaginação) de uma autora madrilena - de uma cidade e país onde as semelhanças com a sociedade portuguesa não são pequenas - se intitula A Louca da Casa   Apesar de não o termos lido, o título e as sinopses são elucidativas.

***Claro que hoje considero impressionante, é mesmo aflitivo, ver as pessoas a quererem ultrapassar barreiras, que não têm lógica nenhuma (ou são absolutamente ilógicas), mas que estão lá. Continuam, postas há anos ou há séculos, nas mentes de todos, e são como verdadeiros bloqueadores dos raciocínios...

1. https://www.media.mit.edu/posts/disobedience-award/

 2. http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/isabel-stilwell/detalhe/premio-da-desobediencia

3. http://iconoteologia.blogs.sapo.pt/vindo-de-primaluce-43991

4. http://primaluce.blogs.sapo.pt/coragem-portugueses-so-vos-faltam-364467

5. http://primaluce.blogs.sapo.pt/muitos-factos-recentes-229704


publicado por primaluce, às 11:00link do post | comentar

Estamos de acordo, ainda bem que há quem coloque a questão - cientificamente muito útil - que é a da desobediência.

Outros chamam-lhe pensar «fora da caixa». Ver os links 1 e 2 (também no fim deste post)

 

Não me esqueço, e já aqui escrevi várias vezes, sobre a escolinha da FLUL onde aos 50 fui fazer um mestrado para progredir na CD (i.e. na carreira docente - algo que tem estatuto legal*).

Até à publicação do livro (sobre Monserrate) fui vendo, predominantemente, e quase só os aspectos positivos; mas nunca deixaram de estar, e de existirem ao mesmo tempo, vários aspectos negativos.

Com o tempo a progressão passou a estagnação, e a regressão. E hoje até já falamos que afinal vim de lá, dos estudos do Mestrado na FLUL, roubada, e com um imenso atraso de vida! Qual progressão? A da Maria João Baptista Neto?

Mas o foco deste post é a desobediência. O que pode ser uma alegria (?), e ter até aspectos muito positivos. Gratificantes!

Não me esqueço de uma colega, mais nova, que também ela tinha ambições profissionais, normais, mas cuja família, apesar dela ser solteira, ainda pesou mais (do que a minha), limitando-a na sua situação, e nas decisões pessoais que os cursos e outras vertentes das nossas vidas profissionais sempre implicam,  É que mesmo que não haja leis escritas, há todo um peso que funciona como lei, e regras inerentes aos hábitos de vida de família tradicional, a que é preciso desobedecer...

Então, ficou já aqui registada uma 1ª desobediência (a protagonizar).

Depois, e em estudos de mestrado (iniciados em 2001, ainda não «de Bolonha») que não correspondem apenas a uma aprendizagem de nível científico, daquilo que já é sabido, e onde é preciso aplicar o Saber que é conhecido a casos ainda não estudados. Então, nesses estudos pode acontecer que na recolha de elementos, normalmente considerada investigação, surjam novos dados que vêm acrescentar Saber, àquilo que até então era conhecido.

É nessa fase que os novos dados são submetidos às regras e às leis da Ciência existente. Já que a imaginação de quem está a compilar dados, a estudar situações semelhantes, e a conhecer as regras a que normalmente cada caso obedece... É nessa fase que o estudioso começa a desobedecer, quando na sua cabeça, ao admitir (outras hipóteses), começa, curiosíssimo, a questionar e a imaginar que sejam outras as leis de funcionamento, ou as que regem, por exemplo a Vida, o Universo.

Ou até as questões muito mais pequenas, como actualmente sucede - e se estudam nos mini-mestrados e mini-doutoramentos, de Bolonha - para enfim o país apresentar melhores rankings a nível internacional. Acrescentado em 9.02.2018

Ora voltando às ditas desobediências, vê-se que vão funcionando, talvez não de repente (?), mas etapa a etapa. Sendo a segunda desobediência - a de uma mulher da sociedade tradicional portuguesa (pior ainda se tiver emprego, e chefes muito mais novos, mas com imensa ambição, e pressa a mais...) - o facto de ter começado a Imaginar**. 

Depois, se entender que está certa nas hipóteses que vai colocando, tenderá a formular e a propor novas regras: Começando a inventá-las, por vezes cada uma das novas ideias, depois as excepções à regra, também as palavras em que se exprimem, etc., etc. E desta maneira, prodigiosamente, ou de prodígio em prodígio e de sorte em sorte, novas desobediências, do, ou aqui da dita estudiosa, não vão parar de crescer.

Connosco passou-se, na dita escolinha (dos meus 50 - na FLUL), estando um dia toda a gente da aula a pensar nas «Ogivas das Origens do Gótico»; as mesmas que então tanto ocupavam e preocupavam a Maria João Baptista Neto - imagine-se só o que me saiu boca fora, nesse dia, a dado momento: "Mas afinal digam lá o que é uma ogiva, onde começa e onde acaba?"

Foi o disparate completo, momentâneo, um silêncio total. E logo me apeteceu ter um buraco para me enfiar! Vendo o que podia parecer asneira, e muito ilógico, acrescentei: "Mas a ogiva começa no chão, na base da coluna, ou no capitel?"

Para quem não percebe nada de cargas das estruturas - cujos pesos têm que chegar ao solo, e que este deve responder resistindo (e não deixando que o edifício vá descendo, e se vá enterrando) - a nova pergunta que se acrescentou, foi técnica, e foi pertinente. De quem considerando que ao tratar-se de uma peça estrutural, queria saber da correspondência entre essa peça e a designação que lhe é dada. A que elementos visíveis corresponde a palavra Ogiva? O objecto que naquele momento pairava na mente de todos, e que, tão aflitivamente, estava a alimentar uma discussão que parecia imparável***.

Assim, também «meio-aflita», no fim saí da aula a pedir desculpa pelo atrevimento: ou seja, pela desobediência mental. O que tinha sido o ultrapassar de uma linha (a do senso comum, quiçá, para todos os outros já perto da loucura?), como acabara de fazer.

Mas a sra. profª. (a dita e redita Maria João Baptista Neto) respondeu nessa altura com verdadeira sageza: "Não peça desculpa. Porque a sua pergunta, quando a faz, vem mais informada, é feita com mais conhecimento..." 

Então lá fui à vida, mas o assunto durante uns bons anos continuou muito vivo na minha cabeça.

Hoje sei que tudo isto nasce de um imenso disparate, em parte ancorado nas ideias de Viollet-Le-Duc, mas também nas dos historiadores que viram semelhanças a mais (exageradamente), por exemplo com a Biologia e os organismos vivos. E se a Arte, neste caso particular a Arquitectura das Igrejas e das Catedrais, foi vista como um ser (quase vivo) e constituído, organicamente, por partes, no entanto há um ponto em que as analogias terminam.

Claro que as analogias são óptimas para ajudar a pensar e para compreender. Todos os profs. as fazem ao ensinar. Mas o âmago, ou a essência, de alguns objectos é essa: São objectos e não são seres vivos! Porque uma igreja ou catedral, tal como uma cadeira ou o ambão de onde se fazem as leituras da liturgia, são objectos. E como tal, essas enormes edificações, estruturalmente precisaram, como uma cadeira também precisa (sempre), de peças onde se concentram as linhas de força: isto é, peças onde o peso próprio (da cadeira), mais o peso de quem se senta, e a resposta resistente (vinda do pavimento), se vão «localizar».  

Portanto quando perguntei o que é uma Ogiva, estava a reviver, plenamente, e a pensar de acordo com a lógica errada que tinha aprendido, e que todos temos usado; sem ninguém desobedecer ou denunciar, com voz forte, este erro imenso que todos fazemos. Eu estava a querer saber, como se fosse no corpo humano, por exemplo do fémur: "Digam lá desse osso da perna, onde é que começa e onde é que acaba"?

Prova-se aliás como são várias as lógicas que temos que passar a colocar, exactamente ao contrário. Porque a Ogiva ganhou o nome na palavra Auge, vinda do latim, em que o verbo augere significa ir mais alto, ou subir. Chamou-se Augive.  E a ideia de chegar ao Auge está bem explicitada em desenhos (muito) esquemáticos dos tratados De archa de Hugo de S. Victor que já colocámos em Iconoteologia.

Como está a seguir ampliado, em que a Ogiva foi desenhada como se fosse uma escada. Vendo-se que as pequenas figuras humanas estão a subir degraus; mesmo que muito altos e a custo. Numa ascensão feita vista de baixo, com o olhar, que era contemplativa, ou mística (designada augere).

E em que a cada degrau, ou pedra - na «faixa da ogiva» no desenho (ver abaixo) - surge também indicada a correspondência com um livro da Bíblia: concretamente do Antigo Testamento 

fotos.sapo.pt-ogivasHSV-1.02.2018.jpg

(Pelo link acima ampliem, rodem o écrã e leiam: está lá muito. Vindo de um tratado que tem sido considerado apenas de Teologia )

Notem por fim, que Ogivas e Arcos Quebrados (ou Arco Ogival, como erroneamente tem sido designado), são diferentes. Mesmo que nos tenham ensinado de outro modo, ou que as imagens de uns e outros se aproximem (mas é raro serem semelhantes). Portanto insistimos, porque esta é, já há muito tempo, uma regra a que muitos têm desobedecido: notem, definitivamente, que Ogivas e Arcos Quebrados  são realidades, ou objectos, bastante diferentes!

As designadas Ogivas (e repete-se, não estamos a referir os arcos quebrados) foram o equivalente a Ornamentos, tendo uma forma em geral próxima da que é chamada Cruz em Aspa. Têm uma extensão considerável, parecendo nervuras (de pedra) sob a face inferior (dos tramos) das abóbadas...

E muito mais diremos algum dia, próximo, em Iconoteologia.

Lembrando que sobre esta questão - em que há uma imensa avidez de conhecimentos e de informação, como aconteceu na tal «aulinha da FLUL» (algures entre Outubro de 2001 e o fim de 2002?) - já escrevemos várias vezes. Só que o assunto é imenso: dir-se-ía de uma grandeza que é proporcional, ao desinteresse que é também geral. 

Assim, se estiverem interessados, para já ver os links: 3 , 45. e neste último, ler nas notas uma ideia de S. Paulo que influenciou, como nos parece, a História da Arquitectura (antiga). Porque o edificado - como G. Hersey referiu -, "...foi esgotado da sua capacidade significante, em prol da Filologia". 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Enquanto que se saiba, apesar de até agora as mulheres serem comummente «empurradas» por todos, nas mais variadas situações (a começar na família), e postas em segundo ou terceiro lugar. Porque está «sempre à perna», um qualquer homem cuja vontade tem que passar à frente.  E isto se tem estatuto legal (?) é ao contrário. Porque a tradição privilegia o masculino, mas o «estatuto da igualdade de género», legal ou formalmente, estipula isso mesmo: A Igualdade.

**Não é por acaso que um romance (alusivo à imaginação) de uma autora madrilena - de uma cidade e país onde as semelhanças com a sociedade portuguesa não são pequenas - se intitula A Louca da Casa   Apesar de não o termos lido, o título e as sinopses são elucidativas.

***Claro que hoje considero impressionante, é mesmo aflitivo, ver as pessoas a quererem ultrapassar barreiras, que não têm lógica nenhuma (ou são absolutamente ilógicas), mas que estão lá. Continuam, postas há anos ou há séculos, nas mentes de todos, e são como verdadeiros bloqueadores dos raciocínios...

1. https://www.media.mit.edu/posts/disobedience-award/

 2. http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/isabel-stilwell/detalhe/premio-da-desobediencia

3. http://iconoteologia.blogs.sapo.pt/vindo-de-primaluce-43991

4. http://primaluce.blogs.sapo.pt/coragem-portugueses-so-vos-faltam-364467

5. http://primaluce.blogs.sapo.pt/muitos-factos-recentes-229704


02
Fev 18
publicado por primaluce, às 10:00link do post | comentar

Ou demasiado «barroco»?

 

Por nós ficamos nessa, sem dúvida também pitoresco (mas sem ofensa!). Já que andamos a pensar em "ornementum", em latim e como este foi explicado por Mary Carruthers, com base numa frase vinda de S. Paulo.

Ou ainda como exposto por George Hersey, que escreveu The Lost Meaning of Classical Architecture - Speculations on Ornament from Vitruvius to Venturi*.

É Arte? Achamos que sim, sem qualquer dúvida.

Pois há espaço para diferentes leituras (exegeses ou interpretações), na medida em que cada um tem, previamente, na sua mente, uma série de informações que lhe permitem ler (enriquecendo-a) a obra que está a ver**.

Só que as obras de Joana Vasconcelos (e em geral toda a Arte Contemporânea), que no Verão de 2013 estiveram no Palácio da Ajuda, e nos permitiram fazer uma grande série de fotografias dos interiores do edifício real; as suas obras, como dizemos, estão muito longe do antigo ornamento, e como o mesmo «funcionava» (falando) nas obras em que era incluído.

DSCN2867.jpg

E enquanto nesta fotografia, o parquet, por ser da casa do rei é dito realengo - dirão alguns (mas nestes casos nós preferimos, em francês, a palavra "régalien"). 

[O que obriga a um grande parêntesis:

Note-se que o referido pavimento ainda tem vários desenhos, ou vários emblemas, que obedecem às lógicas antigas: isto é «ornamentar falando»; e neste caso, vê-se, está repleto de sinais que são os mesmos da 1ª Arte Cristã, chamada Paleocristã].

Já o carangueijo, com o «seu pijaminha» de crochet - e até ao contrário do que aconteceu nos padrões de algumas rendas antigas - ele não nos parece que se tenha vestido com a conveniência mais própria e a mais adequada, para entrar na casa do rei***?!

~~~~~~~~~~~~~~~~~~ 

*The Mit Press, 1988.

**Quase como uma "Obra Aberta", segundo Umberto Eco, e geralmente com prazer. Quando ver é um deleite...

***A conveniência preconizada por Vitrúvio: a mesma que levou a que a Iconografia própria das Vestes Reais, fosse igual à que era normalmente empregue na Arquitectura. Como sucedeu durante muitos séculos.


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