Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
19
Abr 19
publicado por primaluce, às 14:00link do post | comentar

Há cerca de um mês, em casa que não era a minha*, pude comparar versões diferentes de tradução da Bíblia:

 

Era o Novo Testamento, o Evangelho de João, sendo curiosíssimo que onde na tradução dos Capuchinhos consta a palavra Alegoria, para essa palavra Frederico Lourenço tenha explicado (e assim usado) que no original consta a palavra grega é paroimía que significa "Pensar-para-além-de".

Ou seja, uma Alegoria, tal como um Símbolo - visual ou outro - é uma substituição metafórica, ou uma correspondência (que pode ter sido pré-estabelecida, convencionada, e ser até conhecida de todos) , em que uma das realidades é mais do que aquilo - o tal "pensar-para além-de" - que se refere no discurso que tenha sido feito. Ou, do que aquilo que simplesmente aparenta ser, no caso de ser um texto ou uma imagem que se vê.

Até à Páscoa achei que ia desligar: portanto adeus blogs e facebook, porque há muito mais!

E há, só que também esse tempo gera reflexões, que então podem vir para aqui, porque afinal depois do incêndio de Paris, Notre-Dame aparece-nos como o verdadeiro "Pensar-para-além-de":

Ou seja, por um lado, quase directamente, está a ser usada como alegoria e metáfora. Mas é ainda, por outro lado, muitíssimo mais do que isso. É algo que, explicitamente, poderia não aparecer, mas que, ao lembrarmo-nos do sucedido - de maneira recorrente (como é típico de tudo o que entristece) -, e por se tratar de uma das mais importantes referências da Cultura Cristã e do Ocidente; ao pensar em Notre-Dame, pensa-se para além dela. Já que a esse propósito alguns vão reagindo, e a pouco e pouco, uns e outros vão-se lembrando (e portanto nós somos lembrados por eles) do muito mais que sempre esteve interligado. Thanks God!  

Do Expresso de hoje alguns excertos da crónica de Henrique Raposo. E apesar de não estarmos de acordo com tudo o que escreveu, a tónica que põe ao alertar para o valor da arquitectura, dos monumentos e do cristianismo - como "uma abóbada (celeste - dizemos nós) por cima dos vinte e sete solos...", na verdade este é exactamente o mesmo assunto que nos move desde 2004**, quando estudámos Monserrate, e nos apercebemos de uma «historiografia de pernas para o ar»!

doEXPRESSO-19.04.2019.jpg

E porque desde então se tenta divulgar o que essa historiografia mainstream - na sua acção deturpadora da Cultura (geral ou particular a que temos todos direito) - continua, activamente, a preferir esconder. Pelo que se pergunta, não haveria uma outra maneira, mais positiva, de actuarem?

Ajudando a que saiba bastante mais e melhor, em vez de quererem esconder, debaixo do tapete? 

Só que, pelos vistos, é o que há! Fazendo com que uma crónica num jornal semanal (nos) possa aparecer, e ao grande público também, com um texto inovador. Como se nas universidades (e noutros locais próprios para a divulgação do Conhecimento) isto não passasse***:

"(...)

As invasões que destruíram o império romano re­presentaram mesmo a destruição apocalíptica da civilização. Quem é que levantou o Ocidente das cin­zas? Ou seja, quem é que inventou a "Europa"? O clero gótico da igreja representada pela Notre-Dame. Esta realidade histórica transformou-se num tabu, porque os séculos XIX e XX foram dominados por duas correntes intelectuais que (ainda) fazem gala do seu anticatolicismo vulgar: o racionalismo ateu e francês à Voltaire, o protestantismo anglo­-saxónico à Milton. Mas, lamento informar as almas mais sensíveis, as bases da civilização ocidental foram mesmo lançadas pela igreja medieval: as universidades, a tensão cria­dora entre direito natural e direito positivo, a divisão de poderes entre o espiritual e o político, a caridade enquanto princípio social e político. Dante representa o pináculo desta civilização que reconstruiu o nosso mundo, que seria novamente ameaçado pelos bárbaros modernos dos séculos XIX e XX.

Conscientes desta realidade, escritores "modernos" como T. S. Eliot, Chesterton ou Tolkien defenderam um regresso da Europa à cristandade. Mais do que nunca, urge ouvir esse apelo. A Europa de, hoje é de uma beleza arquitectónica notável. No entanto, à semelhança de tantos edifícios belos, a UE é oca no campo espiritual e narrativo. A sua beleza é só racional, falta o resto, falta o essencial: o sentimento de pertença histórico e metafísico. E esse sentimento só pode ser dado pelo cristianismo. Sem o chão comum de São Paulo, a Europa cairá no pesadelo pagão, secular e relativista (...)

Olhando para cima, para a transcendência, a cristandade é a única metafísica capaz de criar uma abóbada por cima dos vinte e sete solos.

(...) Em 2019, a lamentação já não chega. Ser europeu não pode ser só a negação de um mal absoluto praticado pelos nossos bisavós. A identidade europeia precisa de uma substância concreta, de uma meta, de um ethos. Como tem dito a nova e jovem direita francesa (emparedada: entre o pragmatismo libertário e secularista de Macron e o nacionalismo igualmente secularista de Le Pen), esse ethos é o cristianismo.

(...)

~~~~~~~~~~~~~~~~

*Temos livros a mais, mas a tradução de Frederico Lourenço, pelo espaço e pelo custo, ainda não consta... Vai ficar para o Dia Mundial do Livro.

**Depois de estudar Monserrate e de ter percebido como o cristianismo (todo) ficou plasmado na arquitectura antiga e tradicional do mundo dito ocidental. O que aconteceu por várias razões, quer as religiosas quer porque os políticos (reis, príncipes ou até os doges das repúblicas de Itália) quiseram mostrar onde residia a fonte do seu poder (de origem divina).

Um dos pontos em que discordo de Henrique Raposo é exactamente a primeira frase, pois são várias as obras, e os ideogramas nelas empregues (ou os ornamentos plasmados nessas mesmas edificações) que demonstram a vontade de adesão ao cristianismo dos designados bárbaros invasores: Que chegaram, por que quiseram, a um vasto território onde iriam permanecer, adoptando muitos dos valores aí existentes. Por isso existem - embora pouco divulgadas - algumas designações (supostas meramente artísticas/decorativas) como são as bandas lombardas, as arcadas normando-góticas, etc., etc. Ou seja, esses ornamentos foram sinais de povos que quiseram ficar nos territórios do antigo império romano, mas que, em simultâneo também quiseram marcar, distinguir de algum modo, a identidade das obras feitas.

***Sim passa, mas há quem esconda. Porque escondem? Seria a pergunta. Mas a resposta eles não a dão, obrigando-nos a interpretar o que os motiva. Será porque os mais poderosos, os chefes, os catedráticos... têm que ter lugares cimeiros, mesmo que não os mereçam? 

A tal da cultura de mérito que por cá, ainda, não é moda...


15
Abr 19
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

E penso , e penso, muitas vezes no mesmo.


Obsessão?

RE: Sem problema… Thanks God!
Hoje penso em padrões decorativos que usamos nos nossos trabalhos (manuais, artesanato, design) mas que nasceram de Ideias que os Filósofos e os Teólogos - por um sistema de correspondências directas de que tanto tenho escrito (e querido ensinar…, mas há quem não deixe!*).
Portanto penso, e repenso, felizmente, em obras de arquitectura contemporânea que usam, como vemos, alguns dos padrões que temos estudado, e nalguns casos têm milhares de anos.

Este é um desses exemplos, o caso da fachada da Biblioteca de Birmingham de onde retirámos as imagens seguintes, via wikipedia:

fachadaBirmingham.jpg

fachadaBirmingham-2.jpg

Um padrão que a que chamamos Quadrifolios ou também Culots. Embora se deva dizer, que o fazemos sem uma regra (totalmente) rigorosa. A depender, em geral, da forma como se lê: Isto é, se predomina a visão da forma, ou se é mais marcante a visão do fundo em que existe

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* Não deixe ou não queira, porque, quem sabe (?), tal revelação, a saber-se, o há-de apoucar, diminuir, reduzir, menorizar...?

Um post nosso do facebook, de ontem, e que aqui foi ampliado, mas que é um assunto que tem «imenso pano para mangas», pois já várias vezes desenhei quadrifolios e culots - um ideograma que os cistercienses tanto usaram (para uma tradução visual, muito específica, da estrutura divina). E que podem ver também num folio de Villard De Honnecourt, a que já nos referimos


27
Nov 18
publicado por primaluce, às 10:00link do post | comentar

... podemos portanto sistematizar o que vemos. Já que isso pode ser, ou originar, Ciência.

emblemata.jpg

Neste caso o primeiro círculo vem de Eduardo Nery.

O segundo de um livro: How to Build a Cathedral, por Malcolm Hislop, ed. Bloomsbury, London 2012.

E o terceiro de uma gravura inglesa, onde se representa o Infante D. Henrique, aí designado - Prince Henry of Portugal.

É que em «ambiente de brexit», há dados para não esquecer ou escamotear:

Neste caso como aquilo que agora vemos, exclusivamente, no plano da Política, sempre teve uma expressão visual-artística, sendo hoje chamado, de imediato, e simplesmente, Arte.

Depois, porque não é a primeira vez que abordamos estes Ideogramas, cujo significado (no contexto de uma imensa polissemia, característica da arte mais antiga) se supõe ser ainda sinónimo de outros ideogramas:

Sendo que alguns desses (ideogramas) são mais complexos; e outros - por razões de uma certa economia de meios -, procuraram ser mais expressivos, e com formas bastante mais simplificadas*

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*Por isso ficam alguns links, de infos e outras imagens:

https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/circulos-e-poligonos-regulares-e-ainda-79339; https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/imagens-da-trindade-as-insignias-reais-86904; https://fotos.web.sapo.io/i/od913e7d3/18973488_B2pai.jpeg; https://fotos.web.sapo.io/i/obc04f27e/19155794_5DUzS.bmp; https://fotos.web.sapo.io/i/o1c04514c/19155791_tfuSA.bmp

Não esquecendo Rudolph Arnheim e a sua noção de que os conceitos foram traduzidos por formas:

https://primaluce.blogs.sapo.pt/do-not-forget-261854


14
Out 18
publicado por primaluce, às 15:00link do post | comentar

Porque desta vez pensei - há que ler, nem que seja de relance, a newsletter da Fundação António Quadros*

E foi o que aconteceu, há horas, logo de manhã:

 

Um texto a contar como habitualmente decorriam as tertúlias começadas na Mimosa (seria na Rua das Flores?), e continuadas no que foram os Salões de festa e de baile, dos Quintela-Farrobo. Os mesmos em que, e por muito estranho que possa parecer (ou perturbantes que esses espaços fossem?), durante várias décadas do século XX, decorreram as aulas do IADE: os espaços onde leccionávamos.

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Assim, aqui está - como citação - um copy/paste feito a partir da Newsletter Nº 140 / 14 de Outubro de 2018 chegada hoje:

01 António Quadros – Grupo da Filosofia Portuguesa – Memórias Vivas,
por Pedro Manuel Machado de Sousa Furtado Correia.


"A tertúlia começava ao jantar, na Mimosa do Chiado, às quintas-feiras. Chegávamos, íamo-nos acercando das mesas já dispostas para nós, e de cumprimentos calorosos eram recebidos os que iam surgindo, mas pouco esperávamos. Quem não pudera vir previamente fazia saber de sua ausência. As novidades editoriais, especialmente as que diziam respeito à cultura portuguesa e à lusofonia, eram geralmente a peça de abertura. A leitura de quem já se havia aproximado de sua análise era logo partilhada. Outras novidades, futuros eventos ou participações dos membros do grupo, notícias do foro político relativas à cultura, também eram de permanente interesse, assunto este em que António Quadros mostrava particular interesse. E conversava-se variamente, evocando memórias de que a geração mais nova, da década de 60, absorvia e indagava. Por vezes liam-se ou davam-se a ler poemas inéditos, ou alguns rememorados, que haviam resultado especialmente interessantes para a vida circunstancial de alguém entre os participantes. O Elísio e o João liam singularmente bem, mas também me deliciei com Barrilaro Ruas, apesar dele muito dar a ler. Depois, inevitavelmente, vinham as experiências de vida partilhadas com esses e outros autores, que haviam sido do conhecimento ou da amizade dos convivas mais idosos. Era um privilégio ouvir essas experiências de vida não registadas por escrito. Quanta riqueza de vida foi deste modo partilhada além de uma geração e aquém das obras escritas!

Foi através de um colega estudante de Filosofia na UCP, o Elísio Gala, que encontrei esta tertúlia, que nascera no Porto, com Leonardo Coimbra, em 1926. Assim, convivi com um grupo muito diversificado de pessoas com interesse filosófico. Encontrei aí um passado, uma história, referências, pessoas com obra que desde o início do século XX realizaram contribuições culturais relevantes, na sua obra teórica, ensaística e política, mas também na didáctica, na poética e no romance. Todavia, deste plural conjunto de pessoas emergia constantemente a memória da Pátria, nos filósofos, cientistas, historiadores, artistas, literatos, vozes teóricas que amassavam passado, presente e futuro; vozes que proporcionavam uma perspectiva histórica alargada, os princípios e as lutas em seus cenários epocais, as constantes humanas e as singularidades pessoais, dispondo-se em obras para nossa reinterpretação.
Se é sempre função das gerações mais adiantadas um nexo de unidade, a equação do passado ao presente para o futuro, ao modo como era praticada, era por si mesma constituída de valor, na funda experiência de pessoa a pessoa, na sensibilidade ao outro, na inteligência com profundidades e abordagens diferenciadas, na sua dedicação objectivada em obra. Estas competências, que se estimulam e são próprias numa Academia, formavam uma Escola no seu sentido mais amplo, espaço para a dedicação reflexiva e interactiva, mais do que esteio ou projecção para alguma específica e pessoal ambição, política ou de cariz filosófico, em parte devido à variedade de personagens, percursos e incidências que a compunham, em parte devido a serem estas reuniões um estímulo para a obra a desenvolver, pessoal e literária, e não um fim. A diversidade pessoal era coisa sagrada, mas também o era a partilha e a exigência de fundamentação, perante uma pluralidade de ideias e abordagens, na polidez do tratamento, na elevação das nossas responsabilidades como agentes culturais e, também, no amor a Portugal.
O gosto e filosofia desse Grupo incidia especialmente na cultura portuguesa, do passado e do presente, no sentido de ela ser, mais do que um importante recurso para a erudição, elemento imprescindível ao auto-conhecimento e motivo de reinterpretação da realidade social, económica e política; pois não há outro portal para aceder ao presente, pela sua diferença ou semelhança, senão a memória, nos arquivos, nos livros, na experiência de vida das gerações passadas.
Contudo, não ficávamos pela tertúlia. Depois de jantar passávamos ao IADE para o colóquio aprazado. António Quadros, também presente na tertúlia do Grupo da Filosofia Portuguesa, acolhia-nos numa sala ampla. Um convidado, ou um dos que estivera na tertúlia, iria desenvolver uma interpretação filosófica. Por vezes, além de um público frequente e quase permanente, chegavam a estes colóquios várias pessoas, também eles dedicados à cultura portuguesa e à filosofia que se haviam deslocado, por exemplo, de Estremoz e do Porto
O orador ia para o estrado, sem mesa, e de pé dissertava, ou melhor, como nessa tradição se manteve, orava. Mas quando começava o diálogo logo a sala se ia tornando elítica, activada a conversação entre uns e outros e com o orador. Não eram esses colóquios fáceis, com um público meramente expectante, mas sempre se constituía em estímulo, para que o intérprete e orador fizessem o seu caminho, tendo por início e não como ponto de chegada a sua mesma exposição, pois a relação com a actividade interrogativa, reflexiva e crítica dos participantes era intensa, viva e muito participada, vigorosa a questionação, mas não necessariamente severa.
Era este espaço de acolhimento, também um espaço de construção e de afirmação num pensamento exigente, na questionação à terminologia aplicada, quanto ao limite de sentido proposto na interpretação de um autor ou de uma obra em análise, quanto à pertinência das referências aduzidas em justaposição ou contiguidade com outros autores e quanto ao esclarecimento de pressupostos teóricos.
A sociedade portuguesa vivenciava uma intensa mudança cultural nessa época, com as diligências políticas de conformação normativa com a então CEE. Uma mudança que pode também representar-se pela construção de um discurso económico renovado, pela independência dos meios de comunicação social, que se tornaram mais apelativos, pela crescente oferta e participação do público em eventos culturais. A oportunidade de intervir politicamente, do ponto de vista de um jovem nos anos oitenta, estava na adesão a um partido político, na participação em associações de carácter solidário ou na participação em várias instituições culturais, onde inseri algumas contribuições, nas associações académicas, numa revista elaborada com o Elísio Gala, os “Cadernos de Filosofia”, para difusão na Universidade, e na participação activa em colóquios e conferências públicas.
Numa dessas conferências, algures na baixa de Lisboa, o tema era a política cultural portuguesa. Um dos palestrantes fora Secretário de Estado para a Cultura, de quem positivamente não me recordo o nome, e António Quadros. O primeiro advogava como meio de apoio às actividades culturais criar-se uma expectativa melhorada às receitas do Orçamento de Estado, por sua vez, mais incisivo no assunto e menos optimista perante aquela tese, António Quadros dissertou acerca da quase ausência dos autores portugueses nos compêndios escolares, fossem eles de História ou de Ciências, um problema político e de interdisciplinaridade. Importa salientar que esta sua intenção viria a objectivar-se, se bem que ainda ficasse muito longe do que poderia ser. Intervim após as conferências, durante o debate, na perspectiva de António Quadros, especificando no que dizia respeito à disciplina de Filosofia.
Salientando o facto de que os manuais escolares de filosofia eram escassos ou omissos em relação aos autores portugueses, quer anteriormente à Europa humanista, na Europa humanista e daí em diante. Entendia como ainda entendo, expondo agora com maior clareza, que com cientistas, literatos e artistas dar-se-ia a pensar filosofia em melhor modo do que ao género a que nos temos habituado, malogradamente. Pois em toda a nossa literatura portuguesa e lusófona se encontram peças de extraordinário interesse filosófico, do passado e do presente, como estímulo à reflexão e à acção cívica, para uma reflexão situada e universalizante, para o pensamento aplicado na questionação ética, estética, social, económica e política. Não se tratava apenas de substituir a aridez dos esquemas cronológicos, das doutrinas e textos apenas para iniciados, que usualmente expunham os manuais, mas de amplificar as virtudes pedagógicas do registo literário das fontes, científicas, políticas, jurídicas, poéticas. Estou lembrado de um manual de filosofia que, logo na sua primeira frase, longa e recurva, continha termos rigorosamente inultrapassáveis para o aluno, supostamente o seu mais directo leitor. Quanto não ganharia a cultura lusófona se, com os seus autores, os aplicássemos à iniciação de pensamento filosófico. Assim iniciaríamos os jovens ao discurso filosófico reconhecendo-o na elaboração vívida da língua, e não com textos quase herméticos ao estudante, obras sumariadas e doutrinas esquematizadas. Não querendo com isto dizer que nos desviemos completamente do paradigma entretanto praticado, isto é, da pedagógica predominância da escrita sobre a oralidade para efeitos de avaliação, da cronologia e da historiografia, do questionamento das temáticas antropológicas e epistemológico-hermenêuticas. Mas incluindo sobretudo os métodos colaborativos de aprendizagem, integrando com intensidade a produção cultural em língua portuguesa, e com ecletismo, na iniciação à filosofia e às ciências. Quem leu as palavras claríssimas de um Delfim Santos acerca da filosofia prefere-a naturalmente a outras versões, igualmente interessantes, mas, em traduções. A introdução ao estudo da história, e ao facto científico, proporcionada na introdução de Fernão Lopes na Crónica de D. João I, é ímpar. A poesia, como cenário de um contexto histórico e expressão acerca da condição humana, pode ser pedagogicamente mais estimulante e grave do que algumas dissertações que mais parecem saídas de uma máquina de propaganda ocidental do que de um laboratório pedagógico, interdisciplinar e ecléctico.
Ao terminar esse debate, à saída, tenho o gratíssimo prazer de António Quadros se me dirigir, com total surpresa minha, e convidar-me para os colóquios no IADE. É verdade que já para eles havia entrado na semana anterior pela mão do Elísio Gala, mas foi esse um episódio que nunca esquecerei, pois por ele dou a conhecer alguém que do púlpito dos conferencistas vem convidar uma pessoa que participara, para lhe proporcionar o estímulo, a continuidade e o aprofundamento dessa participação. Porém, estou reconhecido a António Quadros por outros e vários motivos, não apenas pelo seu acolhimento, mas também pela sua promoção da cultura portuguesa e lusófona, pelo seu trato e pela sua presença."

Mas entretanto nós - os profs. do IADE - a maioria, quer pela nossa idade, quer pelos temas que naturalmente interessavam «às nossas vidas», em geral não estávamos nestas andanças.  

No entanto ouvíamos as historietas, muitas delas sobrantes (por alguma graça ou notoriedade maior) dessas tertúlias e desses encontros. Acontecia até, que nas reuniões de professores que eram frequentíssimas (bastante diferente do que veio a acontecer mais tarde), era o próprio Dr. A. Quadros que as trazia, e as contava.

E delas, pelos relatos, poderíamos retirar algumas «panorâmicas», retratos, alguns talvez mais amplos (ou até por vezes muito especificos?) relativamente às temáticas que na sua vida o iam fascinando.  

Era um outro mundo, imenso, mas imenso mesmo! Como aliás prova a sua bibliografia (de que temos apenas um ou dois títulos...); mas que, nessa data - desde 1976 ao início dos anos 90, era ainda literatura que não nos interessava, particularmente.

Também porque estava ali ao lado, sabíamo-lo. Era um mundo que ia girando, paralelamente ao nosso, tendo nós a noção desse facto, que não fugia. Ou, continuando com a metáfora, tendo nós a noção dessa «rotação» (?), mesmo que, tantas vezes, a estranhássemos muito!

Mas, porque algumas vezes esses dois mundos se encontravam, e nem sempre esses «encontros», ou, digamos, eram mais intersecções (por vezes até tipo choque); digamos pois que nem sempre as ditas intersecções nos deixavam marcas de nota... Pelo menos que o saibamos, ou que nos lembremos?

Apesar de ser sabido que aquilo que cada um de nós passa, ou passou ao seu inconsciente, nem sempre foi o que decidiu pôr «na gaveta de baixo» (da memória); mas sim aquilo que, para lá, involuntariamente, terá caído...?

Isto é, e tentando ser mais clara, estamos a pensar em assuntos e temas que viveram ao nosso lado durante anos, e anos, e anos, mas que, e porque então pouco nos interessavam, eles devem ter caído (sem se dar por isso) para outros níveis da consciência; ou seja passado para o subconsciente e para o inconsciente?

Por isto, a questão do Filioque, que nos apercebemos ter estado na origem da representação do Espírito Santo - e que, como, veementemente defendemos, passou, dando forma ao que o caracteriza,ao Estilo Gótico; esta questão quando surge deixa-nos muitas vezes num estranho estado de questionamento interior: ou seja, meio-perdida, e à procura de episódios que possam ter acontecido, ou ainda à procura de memórias muito vagas.

Sobretudo porque ainda dentro do grupo de que António Quadros, também fazia parte, como está descrito acima, grupo dedicado à cultura e à Filosofia Portuguesa (sendo aliás autor de uma obra com o título A Patrologia Lusitana), nesse grupo esteve também João Pinharanda Gomes - a quem A. Quadros, nas ditas reuniões de profs., várias vezes (porque disso eu lembro-me) ele fazia referência**.

Seja como for - e se este é um dos assuntos que pode vir a acompanhar-me sempre: ou seja, o tentar perceber aquilo que (eu) já poderia ter conhecido da problemática do Filioque, antes de 2001 (?), e dos meus estudos dedicados a Monserrate, quando Maria João Baptista Neto me pôs à procura das (suas, dela!) Origens do Gótico?

Depois, também é verdade, pelo que se lê, que foi Pinharanda Gomes que fez referência a esta questão teológica - articulada com o Priscilianismo (uma heresia surgida aqui na Iberia) -, e a associou, i. e., o surgir desta problemática teológica, ao I Concílio de Toledo, realizado no ano 400.

Na verdade, e repetindo-me, há que dizer que mais tarde li imenso sobre esta questão, mas foi em Pinharanda Gomes (e talvez também em A. Quadros?), como provam as imagens seguintes***, que fiz as primeiras leituras sobre o assunto.

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Por fim, e porque um doutoramento são estudos complexos que não dependem de um padrinho - que numa única data leva alguém (o seu próprio «afilhadito» - um incapaz de pensar pela sua cabeça e de ter vontade própria) à Universidade e vem de lá doutor. Não é assim, como infelizmente tivemos que conhecer vários casos de doutores (que também decidiram aliás interferir com, e mandar na nossa vida, sem que pudéssemos, até agora ter outra alternativa...). Mas - continuando depois deste parêntesis mais do que inevitável - e porque um PhD tem um Ph que vem de Filosofia, queremos ainda destacar que nas tertúlias de António Quadros também estava Elísio Gala (como se diz no texto).

É alguém (um autor) a quem devemos algumas leituras «fornecedoras» de informações fantásticas.

República-Elísio Gala.jpg

Vindas das notas sobre a sua tradução da República - que era a POLITEIA dos gregos.

Sobretudo a passagem que está na imagem seguinte, a qual - em nossa opinião - qualquer doutorado, preocupado em ensinar Arte e Design  deveria conhecer.

IDEAR.jpg

Por isso, Elísio Gala é um outro nome que não estranhei na Newsletter de hoje, com a descrição das tertúlias que começavam com o jantar na Mimosa. Sobretudo pelos seus textos que nos permitiram compreender as imagens da Arte, ao explicar que em grego o verbo "IDEAR" se refere a imagem essencial, ou à essência das coisas visíveis.

Assim, caros leitores fica hoje este post enorme, que é também o testemunho de quem em pleno século XXI está proibido de contactar os alunos:

Ou seja, de quem está posta na prateleira (dourada ou indigna? - escolham a cor e o décor...) e sem serviço docente atribuído por - Thanks God - ter memórias a mais!

Ou, porque talvez, e como António Quadros - cujos textos tantas vezes nos pareceram incríveis fantasias... -, talvez porque como ele nós também vimos interligações entre temas muito diferentes, e estabelecemos relações entre eles! 

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*Pois se ando a dizer que «descobri» o que ele e alguns dos seus amigos tanto questionaram, enfim pode haver algo que me interesse, por isso hoje - manhã de 14 de Outubro - li. São também memórias da escola em que fui prof. até 2008, já que depois disso, e exactamente depois desse dia, tudo mudou. No entanto, ao lançar o meu estudo sobre Monserrate no Palácio Quintela, em 2 de Junho 2008, também ficou registada uma ligação (mais real, concreta - pelo preâmbulo de Fernando António Baptista Pereira - à obra de António Quadros). Uma ligação de que me apercebera, mais claramente, em 2002. Quando comecei a encontrar aquilo que a minha orientadora dos estudos na FLUL - Maria João Baptista Neto - queria fosse a base teórica (ou o briefing que então ela inventou!), para ser o fio condutor da pesquisa.   

**Referências feitas por A. Quadros, que - o sobre, e o por que eram? -, claro que não sei...

Mas lembro do nome, por ser um apelido invulgar, razão para mais tarde não ser estranho, por ter ficado na memória.

***Porém, hoje não sei dizer se li para o mestrado (e portanto antes de 2004), ou se foi só depois de 2006 para os estudos do Doutoramento (que nessa data iniciei)? Sei que cheguei depois a uma vastíssima (é mesmo sem fim...ver abaixo) bibliografia sobre este tema (o Filioque). Tema que, do ponto de vista das imagens - a iconografia (ou uma ICONOTEOLOGIA) que passou para a Arquitectura - é abordado por André Grabar e mais tarde por Oleg Grabar. O pai (André) ocupado com as imagens da Iconografia Cristã, e o filho (Oleg) que se tornou especialista na Arte Islâmica. Mais uma vez, e agora aqui, também outros «dois mundos culturais» que estiveram presentes (ou muito próximos) em Toledo, a partir do ano 711: quando a Pens. Ibérica foi invadida pelos Árabes vindos do Norte de África. 

Sobre este assunto, regista-se para os leitores muito curiosos que o melhor que lemos foi em Aldama. E procurando encontram-no: assim ver por exemplo na Internet uma versão (só) com 27 pp. que pode interessar-vos. Tem como título:  “The Insertion of the Filioque Into the Nicene Creed and a Letter of Isidore of Sevil” 

Ir por aqui.


30
Set 18
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Império dos Altares - Açores

Império dos Altares-Açores.jpg

 
Imagem (acima) vinda de 'Em Louvor do Divino Espírito Santo', por Francisco Ernesto Oliveira Martins. INCM Lisboa 1983.
Quando nos apercebemos que muitas obras da Arquitectura Religiosa, mas sobretudo alguns Solares, vários edifícios Públicos, como os Tribunais e locais de Administração da Justiça (Prisões). E as Sedes dos Municípios (edifício da Câmara Municipal), e os fontanários; ou também outras obras edificadas para o serviço público (ainda jazigos familiares e as capelas cemiteriais públicas), todos tinham formas semelhantes às do Palácio de Monserrate...
Então foi toda uma «outra estória» que pudemos perceber!
Ou seja, os «Revivalismos» - dos séculos XVIII e XIX - como ainda agora são explicados pelos Historiadores de Arte, caíram por terra.
Mais, como José Manuel Carneiro explicou, sobre o Palácio da Pena (durante a defesa da sua Tese de Mestrado na FLUL - a que assistimos), para si, nesse antigo Convento que D. Fernando II remodelou para Palácio/Casa de Vilegiatura Real, aí foram incluídas soluções e fórmulas que o levaram a falar de Teosofia.
Mais uma vez o assunto é imenso e complexo, mas, em nossa opinião, não houve apenas o espírito romântico. Nem a ser esta postura/ideologia a única capaz de explicar muitas das soluções arquitectónicas que, são afinal uma adopção, nítida, das «fórmulas mais tradicionais» da arquitectura cristã (em especial as medievais).

E se isto é menos visível em Lisboa - marcada pela reconstrução pombalina (onde mesmo assim se encontram alguns exemplos tipicamente do formulário cristão); já no Porto é muitíssimo mais marcado, e notório, em especial na zona que a UNESCO incluiu na Lista do Património Mundial.

LivroA.Quadros.jpg

Neste último caso, a imagem é a capa de um livro de António Quadros, rodada, para que se leia/veja bem a atenção que dedicou aos chamados Impérios do Espírito Santo.

Um culto - ao Espírito Santo - que perdurou em Portugal, em especial na Ilha Terceira, dos Açores. E cuja designação (a da Ilha açoriana), pretendeu desde o inicio ser referência à Terceira Pessoa trinitária.

Talvez muitos lamentem que tenhamos encontrado aquilo que em toda a sua vida A. Quadros procurou, porém, as nossas desculpas: pois nunca andámos atrás de arquétipos, muito menos do oculto ou de «secretismos»...

Foi um grande azar nosso, ter tido uma orientadora ( Maria João Baptista Neto) «tão curiosa» que, não largou, até (2002) a sua questão das "Origens do Gótico".

Apenas desistiu do assunto quando lhe demos a solução para aquilo que era "a sua demanda"!

Enfim, pode-se dizer, demanda que era afinal a mesma de António Quadros, só que, começou a caminhada e o questionamento por um ponto de partida diferente. Ele pelos «arquétipos e mistérios», ela por essa coisa hiper-longínqua que foram as Origens do Gótico*

O mesmo ponto (ou o questionamento) que depois nos impôs, e que, por conhecermos um pouco da obra e das ideias de António Quadros - e através dele de algumas questões da Filosofia Portuguesa colocadas por Pinharanda Gomes, concretamente a questão do Filioque -, logo em 2002 lhe transmitimos uma série de informações.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Um Património (cultural/religioso) dos Godos, que foram cristianizados, nas fronteiras do Império Romano, por Ário - como está explicado desde desde 2004 no nosso trabalho (publicado) dedicado a Monserrate.


18
Set 18
publicado por primaluce, às 10:00link do post | comentar

Novo Ano, Novinho em Folha, promessa de vida

e de venda!!!

 

Depois, há UMA NOVA HISTÓRIA DO MUNDO - de PETER FRANKOPAN, THE SILK ROADS, publicado em 2015* - e em que o nosso Monserrate “avant la letter” já se inscreveu:

"Drawing on a rich series of sources in Greek, Latin, French, Italian, German, Dutch, Spanish, Portuguese, Swedish, Russian,Arabic, Turkish, Persian, Hebrew, Syriac and Chinese, The Silk Roads provides a major re-assessment of world history from antiquity to the modern day."

E sobre esta obra de P. Frankopan o Le Point escreveu:  

"We have been dreaming of a history of the world'. Here it finally is."

Ora aqui, e pela nossa parte particularmente, estamos no mesmo ponto (exacto): Pois finalmente foi feita e passou a existir uma  Nova História do Mundo.

Image0043.JPG

Que contempla vários factos, pouco conhecidos - mas de que nos apercebemos -, sobretudo da sua importância, ao estudar Monserrate

 

Por isso escrevemos avant la letter”, sobre o nosso estudo dedicado a Monserrate - que as universidades lisboetas escondem, mas que a Google analisou metódica e sistematicamente; por isso o inscrevemos, já que, sabíamos, haveria de acontecer um dia uma reviravolta mais do que inevitável...

E ainda porque, como temos dito, o tempo joga a nosso favor:

Sendo claro que seria impossível continuar-se a viver nesta podridão - de ignorantes e para ignorantes**.

Aliás, é por esta mesma razão, que este (nosso) Blog se intitula

Primaluce: Nova História da Arquitectura

Para trazer/levar aos que nos lêem, novas visões, mais actualizadas, do Mundo

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Vejam por aqui https://www.peterfrankopan.com/the-silk-roads.html os elogios que este trabalho tem tido, e as referências que lhe são feitas. No nosso caso foi Monserrate, apenas esse exemplo, que nos mostrou como a historiografia (portuguesa) anda especialmente equivocada.

Isto é, foi a extraordinária obra de Sintra - que muitos não têm entendido (desde meados do século XIX) - que nos mostrou como a História Geral (e depois a História da Arte) tem andado a ser tão exageradamente mal-contada.

**De Universidades e Ensino Superior que esconde os melhores trabalhos...


14
Set 18
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

Assim aqui andamos nós. E hoje a perguntar:

 

É de atar e pôr ao fumeiro? Será?

Esta coisa de achar que o Ensino Superior é como fazer chouriços, naturalmente é para (e, felizmente, dirigida a) muito poucos. Mas há quem o tenha feito, e se julgue no direito de, arrogantemente, prejudicar todos os outros que foram honestos...

Os que paulatinamente foram construindo os seus saberes e as suas práticas ao longo de anos.

Há 2 ou 3 dias, na apresentação de um Programa da Fundação Francisco Manuel dos Santos foi dito:

(...) O mercado procura cada vez mais jovens licenciados com pensamento crítico, boas capacidades de comunicação e negociação, que se adaptem rapidamente a diferentes desafios e com ideias “fora da caixa”.

Portanto pergunta-se nesses mesmos termos (i. e., no calão que é o «fora da caixa», em vez de referirem, positivamente, que existe uma necessidade, premente, de haver saberes interdisciplinares):

Será ou não «fora da caixa»:

Perceber a importância da Geometria, que a teve, como linguagem visual?

Será ou não «fora da caixa»:

Propor que se valorize e aprofunde o que já se descobriu, de uma relação directa entre a Teologia e o formulário da Arquitectura Religiosa (Cristã)?

Será ou não «fora da caixa»:

Perceber como as Crenças, e o enunciado, primeiro do Símbolo dos Apóstolos, depois, do «atravessamento» que houve, enorme de várias Heresias, e por fim - tendo tido o contributo de Carlos Magno que impôs o Filioque no Símbolo de Niceia-Constantinopla proclamado nas missas*; será ou não «fora da caixa»: perceber como o Credo originou uma série de fórmulas desenhadas da Arquitectura, antiga, tradicional europeia?

Enfim, esta nossa luta desde 2001-2002-2008, não é exactamente muito do que se falou no último Programa Fronteiras XXI

Ver em https://fronteirasxxi.pt/ensinosuperior/

~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Desde Clóvis, toda uma tradição que fez de França a grande apoiante de Roma e do Papado, por vezes considerada a Nação mais Católica (como, numa metáfora, João Paulo II chegou a referir). Questão que esteve na origem do Estilo Gótico, foi (e é ainda) diferenciadora da «postura» dos países do Norte da Europa, relativamente aos do Sul. Questão da Reforma e da Contra-Reforma, do surgir, também, do chamado Gótico internacional; dos Góticos Tardios, dos Revivalismos dos séculos XVIII e XIX, etc., etc., etc. Questão que a Arquitectura do Palácio de Monserrate em Sintra (e um enorme empurrão da FLUL) nos obrigou a detectar. 

Em suma, uma questão grande demais, para uma (só) mulher, num país onde a Ciência não consegue ter um estatuto que a eleve: mais alto do que a inveja...

POR ISSO - e como diz o outro - "ESTOU CHEEINHO DE MÊDO!»


03
Set 18
publicado por primaluce, às 16:00link do post | comentar

É verdade, a procura de conhecimento e informações sobre Deus - Uno e Trino - por Joaquim de Flora; essas suas buscas foram transformadas por outros, depois da sua morte,  em «Milenarismos» e vários outros ismos, como são os "secretismos"...*

Tratam-se de materiais que, como se sabe (pois vêem-se, tão claros e tão nítidos) chegaram ao século XX, de várias maneiras.

 

Acontece que ainda muito antes de Joaquim de Flora ter nascido já se empregavam imagens com inúmeros entrelaçamentos e entrecruzamentos, de faixas, de arcos ou de filacteras. Como também se mostrou em post anterior, por exemplo nos mosaicos da Villa Romana do Rabaçal.

Inclusivamente (antes de Joaquim de Flora), os entrelaçados já estavam na arquitectura, das mais variadas formas: fossem elas arquitecturas gráficas ou tridimensionais/monumentais

England-11th_century300ppp.jpg

Como está na imagem acima, vinda do capítulo 9 - intitulado The Language of Architecture** - de Early Medieval Architecture, da autoria de Roger Stalley, publicado por Oxford University Press, 1999.

E se os entrelaçados invadiram a Europa e as suas artes como escreveu H.-I. Marrou - em Décadence romaine ou Antiquité tardive? IIIe-VIe siècle -, na verdade pode-se verificar que depois dessa invasão houve uma caminhada infindável.

É que os Entrelaçados ou Entrelacs como escreveu Marrou vieram para ficar:

"A  partir du IIIe ou du IVe siècle il se fait plus envahissant et devient parfois le motif principal d'un décor.". (Ver op. cit., último capítulo).

Na imagem seguinte, de novo os Entrelaçados. Estes na Sacristia da Capela que foi do Marquês de Abrantes (Palácio de Santos, actual Embaixada de França***)

Le Palais de Santos.jpg

Por tudo isto (e muito mais que se encontra sem «escavar» muito), a obra a seguir - que é um trabalho gráfico de M. C. Escher - esta não deve ser vista apenas e só por ela, como uma imagem bonita, gira, divertida; ou simplesmente chamada Casca (como está no catálogo), qual casca de laranja, ou de algum outro fruto, e tudo mais o que se quiser... 

Porque esta imagem, pode ter sido feita em 1955 para ser também «uma piscadela de olho», um jogo de irreverências, ou até um imenso atrevimento (?) - como fez Almada Negreiros na grande maioria dos seus trabalhos gráficos e desenhos.

Enfim, este desenho, e muitos outros mais, de Escher - basta olhá-los (nem é preciso ver muito, ou sequer parar e ver com atenção...) -, por tudo o que já havia para trás, desde há séculos ou até no mínimo há cerca 1500 anos, é de certeza uma alusão a realidades do passado.

Será um "Secret Knowledge" como escrevemos no título?

Será alusão ao Milenarismo? Será a Joaquim de Flora, ou à Maçonaria...? As várias (muitas das) imagens que compôs, seriam elas reminiscências de que tinha conhecimentos e supunha secretos...?  Eram desafios?

Desafiantes de exigência e muita habilidade gráfica/técnica, foram de certeza! Porém, é ainda muito certo que a maioria já não sabia o seu significado ancestral.

E ainda agora continua a não saber...

Perdem o melhor! Que é como quem diz: as ligações, as associações mentais e várias outras intenções com que as obras foram feitas

Deixá-los, pois por aqui se pode dizer: Quem empobrece por gosto... é porque gosta!

Catálogo-Escher.jpg

Imagem do Catálogo da Exposição de M.C. Escher, Lisboa Museu de Arte Popular (2017/2018), ver op. cit., p. 116

~~~~~~~~~~~~

*Ver o que desenvolvemos e está em https://iconoteologia.blogs.sapo.pt/claro-que-sabemos-todos-que-a-112758

**Na verdade, nos melhores trabalhos feitos ao longo dos tempos (da História da Arte), percorrendo-os, comparando e compilando a sua imagética; usando ainda (de modo complementar) algumas informações dos (bons) Dicionários de Símbolos, percebe-se que, permanentemente, estamos perante obras que eram muito mais falantes do que as descrições ou as explicações que hoje são dadas das mesmas. Esquecem-se, como consta no Dicionário de Xavier Barral i Altet, da ideia de Joaquim de Flora sobre as imagens:  "Il affirme de façon explicite que les mystères du divin peuvent être compris mieux en figurae qu'en paroles." Esquecem-se - e hoje é dia de S. Gregório Magno - da ideia que este Papa tinha relativamente ao valor das imagens para catequizarem: "Painting can do for the illiterate what writing does for those who can read"  (como explicado pr E. H. Gombrich). Esquecem-se dos «preceitos» saídos de (em 787) Niceia II, e do século XVI esquecem-se do que foi dimanado do Con. de Trento.

***No livro de Hélder Carita intitulado Le Palais de Santos (1995, ed. Chandeigne)


09
Jun 18
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

...mas também se pensa, como está o mundo - cheio de Trumps, Brunos, Carlões e outros aldrabões, como Marias Joões - pessoas que censuram e impedem os trabalhos dos outros, só porque os ditos, quando acabados e validados lhes retirariam o tapete*.

Screenshot-2018-6-14 Gloria Azevedo Coutinho.png

E assim pensando também se deduz que não foi mau (tanto como desejavam), o caminho, que por isso se passou a fazer, contornando.

Cascais-de-longe.jpg

Legenda1

Cascais-de-longe-transformed.jpg

Legenda2

DAPRAIAdaRAINHA-CASCAIS.jpg

Legenda3

E contornar é também preparar as próximas fases, pois a vida é feita de transformações e novas adaptações que precisam de tempo antecedente (de preparação). Ter ido à FL-UL, arranjar temas e espaço para 10 (ou 20?) anos depois é um privilégio das longas vidas que hoje se podem viver...

~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Fazendo (lhes) cair as fantasias e as irrealidades a que as suas mentes se agarraram: sem oportunidade de as aferirem e corrigirem!


22
Mai 18
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

... como sabemos alguns Historiadores «adoraram», verdadeiramente, esta expressão.

 

É mesmo, e por tudo e por nada lá vinham eles com as "Viagens das Formas".

Não sabiam onde as formas tinham nascido, nem como, nem porquê? E se, nem de onde vinham nem para onde foram, algum dia - ou já agora há que lhes perguntar se se terão interrogado sobre esta questão? É que o certo, é que lá vinham eles, sempre, repetindo essa expressão que veio, pensamos nós, dos autores franceses?

Terá sido de Focillon...?

Não sabemos, mas achamos divertido ver como as coisas vão «funcionando», e continuam. Só que, actualmente, a poder pôr a dita expressão num motor de busca, e é mesmo muito engraçado ver os resultados que aparecem.

Pois lá estão os títulos de alguns livros, já que por aqui, em Portugal, tudo se absorve muito (acriticamente) e assim se repete, e repete, e repete, até à náusea...

Sobretudo se vier de fora! Sem um questionamento, sem uma pergunta, sem nada! Porque a realidade é imutável (pensam eles!)..., e repetem, e repetem, e repetem...

Como se, atavicamente agarrados ao seu próprio inconsciente (muito próprio e muito individual mas que se torna colectivo), eles se dissessem: "...deram-nos assim, é a Ogiva! Porque havemos de contestar, questionar ou perguntar alguma coisa, se assim está tão benzinho?..."

focillon-o GÓTICO.jpg(índice de H. Focillon, A Arte do Ocidente)

 

Mais, completando a ideia, é sabido que aqui, em Portugal, é proibido inovar!

Sobretudo se for numa escola de design...

Sobretudo se for um arquitecto a explicar como se combinaram e compuseram imagens que depois foram ideogramas;

Sobretudo se for uma professora a leccionar há mais de 40 anos nessa mesma escola...!

 

Sabemo-lo bem, já que os nossos esforços para difundir e interessar outros por uma questão que é interessantíssima - e precisa de ser estudada com mais recursos e mais pessoas (investigadores) -, têm tido zero frutos.

E se começou nos estudos de um mestrado, continuou na Faculdade de Belas-Artes, com Fernando António Baptista Pereira a considerar que todos os seus assuntos eram sempre mais importantes do que os temas dos nossos estudos, ou do que o apoio que era suposto ele como orientador dar a uma orientanda... (porém, gabando-se que tinha dezenas de orientandos...)

Dizem-nos: "que é da Inveja..." - talvez? (é o que temos que responder)

Só que agora o Casamento Real trouxe para as redes sociais, de novo, algumas Tiaras. Sendo que há uma que a Rainha de Inglaterra tem usado em várias ocasiões, e que tem a mesma iconografia que se pode ver na Arquitectura e na Tumulária*:

Imagem de génese Iconoteológica, que foi sinal de união ao divino; ou, dito por outras palavras: a tradução em imagens (e numa época) do direito divino do poder real**.

Imagem que se transformou em padrão a partir do fim do século XI e início do século XII, tendo depois dado origem ao arco quebrado como bem explicou Juan Caramuel de Lobkowitz.

Imagem que nos foi essencial para perceber a origem da Mandorla, e como esta surgiu para traduzir o conceito cristão do Filioque.  Conceito que por exemplo a separação, ou o Cisma Luterano, não fez mais do que reforçar, na senda de uma defesa que já Carlos Magno fizera, impondo o Filioque à própria Igreja, ele que foi «mais papista que o papa»***. 

A peça que é conhecida como The Grand Duchess Vladimir Tiara  terá sido comprada pela Queen Mary em 1921. Isabel II herdou-a.Rainha Inglaterra- Andy Wharol-FS-II_334.jpg

Tem exactamente a mesma iconografia que o túmulo de Egas Moniz, a qual seguindo Owen Jones e a sua Grammar of Ornament, essa Iconografia é de origem bizantina. Será?

tombe-EgasMoniz.jpg

(desenho do túmulo de Egas Moniz, in António Feliciano de Castilho, Quadros Históricos de Portugal, Lisboa 1838)

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Desde a casa de Marques da Silva no Porto, a várias antigas "mansões" da Av. da Liberdade, e recuando até ao Túmulo de Egas Moniz onde vimos a imagem pela primeira vez.

**É uma questão antropológica claríssima...

***Se Carlos Magno se impôs ao Império como Protector da Igreja (principal instituição do Império), ele próprio foi, como repetidamente é lembrado, descendente dos antigos invasores. Mas também por isso, criador de uma nova realidade, em que o eixo de Poder, na Europa, se deslocou para Norte; uma «nova geografia» que a divisão luterana veio mais tarde reforçar e dar-lhe continuidade. Enfim, depois do Concílio de Trento vê-se a Europa dividida, o que teve a maior expressão na Arte. Concretamente na arquitectura e no chamado revivalismo do Estilo Gótico.  O estilo que se fez renascer para marcar, o máximo possível, as diferenças entre os apoiantes (e os não-apoiantes) da Reforma. Com os Protestantes a reclamarem serem os verdadeiros cristãos (dada a sua postura de exigência, como fez Lutero, e por exemplo o Pe  Carreira das Neves evidenciou...). Contra os apoiantes da Contra-Reforma de Roma, a quererem evidenciar que continuavam a usar o Estilo dos primeiros Imperadores cristãos (os que levaram à oficialização do cristianismo): i. e., o estilo que é por isso chamado Paleocristão.


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