Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Ago 21
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

... por tudo isto continua incapaz de aceitar o facto da História da Arte e a Teoria da Arquitectura não colaborarem entre si, respondendo a questões que são essenciais às duas disciplinas (*1):

Essenciais para um esclarecimento mútuo, fazendo esforços de compreensão que cada vez mais se impõem!

Sabemos que este tema daria um livro, mas aqui fica resumido, quanto possível..., sobretudo incompleto

 

A nossa expulsão do IHA da FLUL mostra bem, aliás na perfeição, como de costas viradas uma para a outra, cada disciplina na sua capelinha - o ensino da História da Arte e o da Arquitectura, muito ciosos dos respectivos feitos -, mostram bem como este modus faciendi leva a nada. 

Para escrever este post fui buscar uma revista de Março de 2006, o JA 222, que é preciosa. Onde arquitectos da nossa geração (ou mais novos), foram deixando em entrevistas, depoimentos, reflexões e questionamentos - que alguns têm um historial de séculos - por isso a expressão abaixo, que desde já se sublinha: uma longa história de indagação

 

É exactamente do Editorial da revista que se retira a passagem a seguir, com foco no Programa (de projecto). O qual, muitos -  sejam arquitectos ou não - podem pensar estar na base, e ser a peça essencial, das metodologias de projecto; a ponto de condicionarem a imagem final (design, aparência) da obra arquitectónica:  

"Este tema possui uma longa história de indagação, desde o modernismo, onde o programa adquiriu contornos de aspiração científica, constituindo-se como base de toda uma cultura em torno da programação, conforme João Rocha explícita no seu texto (fazendo ainda a ponte desse universo para o das práticas artísticas). No final da década de 60, a partir de Berkeley, a investigação de Christopher Alexander procurou superar o pensamento modernista sustentado pela causa-efeito, desenvolvendo fórmulas matemáticas, na senda da formalização do inconsciente, passíveis de traduzir e recuperar a relação harmoniosa das culturas nativas com o meio onde viviam. Michel Toussaint propõe-nos uma releitura crítica de «Notes on The Synthesis of Form» (*2)

Mas a referida revista, como se avisou acima é toda ela à volta dos «processos de projecto», sendo para nós interessantíssimo o que Manuel Graças Dias afirma, a propósito de Organigramas (o que também se sublinha):

“ (...)

Quando fiz o curso, no princípio dos anos 70, a situação era confrangedora. A única personagem importante, para mim, na época, era Le Corbusier. Aparentemente – e talvez por haver muito menos informação do que há hoje – não havia muitas mais coisas interessantes a ter em conta.

Mas existiam Venturi e Rossi… Sim, mas Robert Venturi, Aldo Rossi e Louis Kahn só nos foram «apresentados» por Manuel Vicente nas suas aulas, em 1976!

Foi uma década complicada na Escola?

Bem, a Escola foi uma chatice! Antes do 25 de Abril, o que eu estava a fazer, no 4º ano, era um hotel para o prolongamento da Avenida da Liberdade! A única coisa que o Professor queria ver era se tínhamos colocado no sítio certo a secção de enchidos, se havia na cozinha a zona de frios e a zona dos quentes! Depois dava-nos umas aulas aborrecidíssimas com organigramas. E nós fazíamos os organigramas que ele pedia; eu fazia-os, sem o mínimo de pudor! O meu projecto para o hotel era um «organigrama decorado» — porque tinha ido a Londres e tinha visto umas coisas muito interessantes com influência da Art Deco. Isto é, era um equívoco total. Realmente acho que o «moderno», nesse momento, tinha empurrado tudo para um beco sem saída.”

E é verdade, sem pudor e sem grandes problemas - nós também fizemos e depois ensinámos - a partir desses mesmos organigramas (de que M. Graça Dias se queixa). Como é o exemplo a seguir, organigramas que usam círculos, e aos quais Mark Gelernter, que muito provavelmente também os terá feito? (pois todos os fazíamos), depreciativamente ele chama-lhes "bubble diagrams" (*3).

ORGANIGRAMAS0001.JPG

Mas, de entre as frases de M. Graça Dias, queremos acabar este post enfatizando a citação que escolhemos. Quando diz:  "... era um equívoco total (...) o «moderno», nesse momento, tinha empurrado tudo para um beco sem saída...”

Ora em nossa opinião, sem esclarecimentos da História da Arquitectura, e do que foram/são os estilos históricos e como surgiram; em grande parte esse equívoco permanece. Mais, pelo andar da carruagem, vai-se manter durante muito mais tempo... Visto que não é previsível, o nascimento de um outro Christopher Alexander, ou, por exemplo, o de um novo Robert Venturi, que explique, e insista, sobre aquilo que é a "complexidade e a contradição" na Arquitectura. 

Na verdade, os Organigramas - feitos com círculos (ou até com outras formas) - podem continuar a ser necessários e a serem razoavelmente úteis, para ajudar a esquematizar e a vizualizar com rigor científico, os requisitos do programa da obra que se pretende projectar e construir. Por outro lado, sobre aquilo a que M. Graça Dias chama "beco sem saída", não se deduz se aí o impasse era «metodológico», e relativo ao como fazer - no sentido de ter um método. Ou seja, sobre a necessidade de haver um método que, qual ferramenta e como caminho, ajudasse no rigor a ter (o qual se pretendia fosse cientifico).

Método que era portanto uma «peça» obrigatória (incluindo "checklists" ), para que no fim do trabalho não houvesse falhas: entre o que se pretendeu fazer desde o início, e o que de facto veio a ficar feito.

 

Claro que este ponto ainda remete para várias críticas, sendo uma dessas muito frequente: como é o caso dos projectos serem de tal modo a resposta, e tão «agarrados» aos programas funcionais e às actividades previstas desenvolver nos espaços, que, se estas mudarem, rapidamente muitos elementos se tornam obsoletos e redundantes, sendo necessárias adaptações (*4).  Mas, ainda sobre o "beco sem saída", este parece ser mais uma queixa contra o «moderno» - por ter esgotado modelos, e as panóplias de ideias (que pareceriam infindáveis).

Por isso, aqui entenda-se esgotado os vocábulos formais em voga, originando desse modo limites à escolha, e à adopção - ou sobretudo a haver a invenção (como aconteceu ao longo da História da Arquitectura) - de novas formas que, simultaneamente seriam também parte integrante das linguagens estilístico-artísticas dos edifícios.

A questão é complicada, ou, principalmente, é muito complexa, tornando-se difícil de expor.

 

Porque não se está a falar de pintura ou escultura, onde não se entra nem se permanece dentro dessas obras; mas de obras/edifícios que sendo habitadas, tocadas e estando em contacto com os utentes, têm que responder não apenas a programas ergonómicos e funcionais, mas também a programas de ordem visual (que são os «cenários envolventes» dentro dos edifícios. E que no exterior dão forma ao que os paisagistas de língua inglesa  vêem como "townscape".

 

Assim, chamemos-lhes por exemplo - aos vocábulos formais em voga  - "programas semiológicos". Embora com a noção que também se poderia usar a designação "programa estético". E isto que aprendi na Fac. de Letras de Lisboa (com Vítor Serrão...), é um ingrediente, essencial, que se vai buscar à História da Arte, ou mais concretamente à Filosofia, e à Estética, com que a História normalmente trabalha..

Ou seja, deveriam/deverão ser plasmados, ou "built-in", como acontecia no passado - e por isso A.W.N. Pugin escreveu "generated" e "originated by" (*5 - ver nota) - os cenários com que os utentes das edificações e dos espaços projectados, se hão-de relacionar, visual e directamente. 

 

Concluindo:

Na arquitectura contemporânea - estejamos nós a pensar na arquitectura de meados do século XX, ou já na deste século... - os organigramas (das "aulas aborrecidíssimas" de M. Graça Dias) eram funcionais, servindo principalmente para ajudar a «interarticular» zonas e espaços programáticos, necessários. 

Já os "organigramas da estrutura divina", como lhes chamámos e referimos no nosso trabalho sobre Monserrate (ver na p. 13), e que percebemos serem uma constante da arquitectura religiosa cristã - da antiguidade, medieval, renascentista, barroca ... etc. (até se perderem por esquecimento colectivo); a esses organigramas, para os  designarmos, optámos depois pela palavra Ideogramas (*6). 

Pois na verdade foram/são elementos estilísticos, ou ornamentos - a que Robert Smith usava chamar motivos. Por serem também razões, ou peças (mnemotécnicas) destinadas a carregar de sentido religioso/semiológico, as obras assim concebidas (*7).  E onde esses mesmos motivos, ora são superficiais e meramente apostos; ora surgem como elementos estruturantes, que, se forem retirados, põem em perigo a estabilidade das edificações.

Como o são - no exemplo que é hiper-eloquente - os arcos quebrados empregues na arcaria do Aqueduto das Águas Livres, no Vale de Alcântara.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

(*1) Na verdade, pergunta-se, será que a História da Arte tem questões essenciais que gostasse de ver respondidas e esclarecidas, e inclusivamente com alguma urgência? No nosso caso, dado que durante anos ensinámos projectos, sabemos bem da premência e do interesse imenso que há, para todos os que ensinam Arquitectura: concretamente, em conhecer a teoria e a história desta disciplina, ou em termos muito práticos, dominarem a metodologia de trabalho mais aconselhada; concretamente, a aconselhada por aqueles que têm experiência, aos que querem entrar nesta profissão. Acontece que aquilo de que nos apercebemos relativamente às Origens da Arquitectura Gótica, e o que iriam ser os nossos temas de doutoramento, todo esse material seria, no futuro, da maior utilidade para a História da Arquitectura, sua compreensão, e desenvolvimentos futuros.

(*2) A esta obra - Notes on The Synthesis of Form -, de Christopher Alexander, já dedicámos vários posts, alguns recentemente, como neste caso.

(*3) Ver em Mark Gelernter, Sources of Architectural Form..., Manchester University Press, Manchester and New York 2000, p. 263. No futuro, num outro post poderemos vir a escrever ainda mais sobre estes "bubble diagrams" que não vemos como sendo assim tão inúteis, ou sem sentido (como parece ser a opinião de Mark Gelernter). É que se vemos as dificuldades que o seu uso implica, por outro lado também vemos várias das vantagens, que trazem às tarefas projectuais... 

(*4) Para se perceber como alguns programas têm que ser muitissimo exaustivos (e foram-no), aqui seria necessário o leitor conhecer algumas das bases que todos os profs usam/usaram para ensinar: Funções e Exigências de Áreas da Habitação, por Nuno Portas, LNEC, Lisboa 1969, é uma dessas bases; assim como as várias «edições dos Neufert» e dos AJ Metric Handbook.  

(*5) No século XIX, A.W.N. Pugin (1812-1852) escreveu em An Apology for the Revival of Christian Architecture: “Styles are now adopted instead of generated, and ornament and design adapted to, instead of originated by, the edifices themselves.” Vejam aqui o sentido de "built-in"

(*6) Ao chamar Ideogramas seguimos a noção de poder ter havido um código, como escreveu o historiador Jorge Rodrigues, num comentário que fez ao portal do Mosteiro de S. Salvador de Paderne. Ver em Monserrate uma nova Históriaop. cit., p. 34. E sobre Organigramas também nos referimos a eles, várias vezes, sobretudo no início do nosso trabalho dedicado a Monserrate. Naturalmente por estarmos influenciados pela maneira como sempre trabalhámos. Esquemas e Organigramas fazem mais parte do trabalho do arquitecto, do que as preocupações em «fazer bonitinhos»

(*7) Para evitar confusões, geralmente não queremos usar a palavra simbólico, mas em Semiologia, uma imagem simbólica, está no grau mais elevado da «comunicação significante». Portanto, acima poderia escrever-se - "elementos destinados a carregar de sentido simbólico..."


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