Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Ago 22
publicado por primaluce, às 20:30link do post | comentar

Por nós, conhecer melhor a História da Arquitectura, é, forçosamente, conhecer LBA

 

Concretamente, ler - ou ir lendo aos poucos ... (já que o tempo nunca chega) - o seu De re aedificatoria.

Fazemo-lo com o apoio de Françoise Choay*, autora que há muito conhecemos.

Porém, e neste caso, entre a obra de Leon Battista Alberti, em latim, e o que dela se pode retirar, lendo e pensando  - normalmente em português -, a «mediadora» não é só F. Choay, mas também Pierre Caye. Pois ambos traduziram e anotaram uma Obra que, mesmo sendo pouco referida, é provavelmente das mais úteis e valiosas que temos por aqui... 

Sol-Invictus-SantaMariaNovella-3.jpg

É que, e podendo parecer que as frases e ensinamentos de L. B. Alberti se referem apenas a obras clássicas, da Antiguidade Greco-Romana; na verdade, o à-vontade com que o faz, também demonstra o seu «convívio e habituação» - ou uma espécie de grande normalidade (para ele LBA) - daquilo que vai relatando. 

Para nós é extraordinariamente útil saber, como está nos excertos que escolhemos (e a seguir se podem ler, vindos do Livro VII , Cap. 9 - Livro que em geral é dedicado ao "embelezamento dos edifícios sagrados") que era já habitual nos templos, mesmo que fossem pagãos, o uso de ornamentos cujo objectivo, incluindo as ideias a eles associadas**, eram só por si edificantes. 

Sabendo todos nós que houve sempre muitos sincretismos (religiosos), é portanto da maior utilidade que Leon Battista Alberti tenha registado, com tanta clareza, para que serviam, ou qual a função, dos ornamentos nos templos: 

Que a beleza não era apenas e directa, para os olhos, mas que se tratavam de exortações visuais, em imagens (as quais como veremos em próximos posts, eram provenientes da escrita, ou de alguma caligrafia)

Imagens que, como se pode ler, contribuiriam para tornar os fiéis "mais justos, mais modestos (...), e mais agradáveis aos deuses".

Les uns sont favorables à ce genre d'ornements, les autres hostiles, Cicéron jugeait, à l’exemple de Platon, que la loi devais inviter ses conci­toyens à mépriser dans leurs temples la variété et les attraits des orne­ments pour élever au premier rang la blancheur éclatante de la pierre: «Du moins, dit-il, inspire-toi de cet exemple.»

Quant à moi, on me persuadera aisément que la pureté et la simplicité de la couleur sont, comme celles de la vie, reçues avec la plus grande faveur par les dieux très bons, et qu'il convient de ne rien avoir dans les temples qui puisse détourner les esprits de la méditation religieuse au profit de l'agrément des sens et de leurs diverses satisfactions. Mais voici ce que je crois : dans les demeures sacrées comme d'ailleurs dans les autres édifices publics, on devra louer, dès lors que la dignité n’est pas en cause, celui qui met toute sa volonté à soigner dans le moindre détail, avec tout l’art requis, le mur, le toit et le sol, et à les rendre suprêmement élégants et surtout aussi durables que possible.

(...)

Et je contemplerai une bonne peinture - car c'est assurément enlaidir le mur, et non pas le peindre, que de mal peindre - avec non moins de plaisir que je lirai une bonne histoire. Il y a deux sortes de peintres : l'un peint les choses avec les mots, l'autre les expose avec son pinceau [611] tout le reste leur est identique et commun.

Tous deux doivent faire preuve d'un immense talent et d'une application incroyable.

Pour ma part, j'aimerais que le mur et même le sol des temples n'expriment que la sagesse la plus pure. J’ai découvert qu'il y avait au Capitole des tables de bronze sur lesquelles étaient inscrites les lois qui gouvernaient l’empire, et qu'après l’incendie du temple l'empereur Vespasien en fit refaire trois mille. On se souvient que, sur le seuil du temple 'Apollon à Delphes, une inscription en vers enseignait aux hommes la composition des herbes à utiliser contre tous les genres de poisons. Pour ma part, je conseillerai de placer dans les temples des exhortations qui contribuent à nous rendre plus justes, plus modestes, plus frugaux, plus vertueux et plus agréables aux dieux, comme par exemple : « sois tel que tu désires apparaître » ; ou encore : « aime et tu seras aimé » ; etc. Je voudrais aussi que le sol sois couvert de, lignes et de figures se rapportant à la musique et à la géométrie, afin que, par toutes ses parties, le temple nous incite à cultiver notre esprit. (...)

Perante isto que acabamos de ler e transcrever, ainda fará sentido não reconhecer objectivos semelhantes, ou decalcados, nos motivos e ornamentos da arquitectura cristã?

E a frase - "Il y a deux sortes de peintres : l'un peint les choses avec les mots, l'autre les expose avec son pinceau [611] tout le reste leur est identique et commun." - não é isto completamente eloquente? Será que Leon Battista Alberti não quis com esta frase dizer que as palavras escritas têm o mesmo valor que as coisas pintadas?

~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Nasceu em 1925 e aparentemente ainda está activa. É dela um vídeo (de 3-4 min.) sobre o Barão Haussman, e o tipo de desenho urbano, inovador, que propôs para os principais arruamentos (o que implementou como está aqui)

**Ou seja, ornamentos que eram quase uma escrita, e funcionavam como Alegorias; lembrando aos que os viam ideias nobres, como sabedoria/sageza. Por isso LBA escreveu: "...j'aimerais que le mur et même le sol des temples n'expriment que la sagesse la plus pure." (como aliás está acima, no último paragrafo deste post).

Ainda, sobre Escrita e Ornamento lembra-se que é comum encontrar artigos dedicados a este tema. Por exemplo aqui 


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