Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Set 21
publicado por primaluce, às 13:30link do post | comentar

"...Marrocos Norte... isto aqui, Lisboa, ou este país, é como se fosse Marrocos, ... só que mais a Norte."

 

Claro que se a frase era provocatória nos últimos anos do séc. XX, agora é pior.

Mas vamos ao que interessa, tanto mais que o anacronismo, ou os atrasos (civilizacionais) a que o meu amigo - o autor dessa frase, se referia - continuam em muitas áreas. Particularmente nesta, dita por aí (i. e., designada como) IGUALDADE DE GÉNERO.

Num post de há dias (17 de Setembro) recolhemos mais dados, recentes, sobre este assunto; estão lá, por isso é fácil ir agora buscar dois links, relativos a duas noticias, qualquer delas bastante «elucidativa»: 

1. Relativo ao adiamento de decisões legais sobre questões da Igualdade de Género - ver em https://diurna.pt/artigos/47daf875

2. Sobre a eterna desqualificação que é imposta às mulheres, que se traduz na desvalorização salarial. Mesmo que não seja só em casa (mas também em muitos locais de trabalho), sejam elas vistas como as únicas suficientemente competentes para resolver os problemas. E assim, claramente, «sobrando» sempre para elas...

SEAside-c.jpg

(da imagem - que não é «bordabo de menina prendada» - ler adiante)

Embora o nosso caso, e o que se passou na FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) esteja para nós ainda muito vivo, mantém-se portanto, e efectiva, a pressão sobre Vítor Serrão*. O que para nós faz todo o sentido! E cada vez mais...

Claro que sobre (des)igualdade de género temos vários outros exemplos**, que até começam em casa:

Como aquele das férias de verão no meio ou final dos anos 60, quando as empregadas (que tinham sido "criadas em casa", eram assim chamadas) passaram a ter direito a um mês de férias. Nesse ano, nessas férias, iria competir às meninas fazerem as camas dos rapazes! 

Mas essa obrigação - que foi das primeiras, logo altamente contestada -, não terá durado mais do que uma semana...?

Ainda num outro exemplo (e claro que há alguns mais, mas escolhe-se este) tivemos que, firmemente, levantar a cabeça ao colega que, tendo ambos sido convidados para participar num Congresso, queria que retirasse alguns elementos curriculares de uma brevissima nota biográfica (minha). Alegando ele, que um prémio relativo a uma obra de Património Arquitectónico, nada tinha a ver com os temas que iriam ser tratados no dito congresso.  

Não sei, não sabemos como será o futuro? Como é habitual é desconhecido. E, lembre-se que geograficamente estamos a Norte do Algarve, que como é sabido foi difícil de conquistar. Pois só deixou de constar, nos títulos reais como reino independente, em 1910***.  

Portanto, dar por adquirido aquilo que ainda nem estabilizou de facto, como acontece com a igualdade de género, e de que somos testemunhas vivas (e hoje também incomodativas) ; quem acreditar que esse dado é consistente ou permanente, é porque está a ir atrás das aparências. Falsíssimas!

Ou, porque somos últimos exemplares de uma espécie em extinção (excepção que por isso sentimos)? Ou por isso batalhamos, e por isso denunciamos todos «os Vítores Serrões desta vida»? E que por isso, apesar dos vários grandes prejuízos - como é todo o tempo que nos roubam, e quando nos fazem «inexistentes»... - , ainda tentamos, por exemplo, ter tempo para desenhar e transformar croquis e imagens, como a que está acima; porque isso nos dá gozo.

Porque estamos a inovar e a prolongar a nossa vida profissional; sabendo que, reunidos vários dos materiais - que existem - poderiam até ser expostos... 

Ou, e ainda também, porque olhamos à volta, e ainda vemos - é obrigatório não desviar o olhar! - porque se vê, sim, uma realidade que ainda inclui o abandono e o desprezo das mães idosas. Ou seja, assiste-se à brutalidade que é o abandono e o esquecimento, em especial das mulheres da geração acima da nossa, como se já não fossem merecedoras de carinho e atenção?

Como se devessem continuar secundarizadas? Já que, ainda por cima com a idade - perdida a utilidade funcional -, ou/e até o valor económico (que sempre tinham tido), devessem agora ficar esquecidas? Tratadas como sobras e resíduos, que teimam em durar e perdurar, num tempo que já não deveria ser o seu, como «produto fora de prazo»?    

 

Salvo se, ainda houver quem tenha sentimentos por elas...

 

E é a pensar nesses «sentimentos possíveis» - que não se vêem, sendo urgente que mudem e existam - que se deixa este texto, inspirador, de Elisabeth Badinter:

“ (...)

É, sobretudo, mais do que tempo de fazer o elogio das virtudes masculinas que não se adquirem nem passivamente, nem facilmente, mas se manifestam em termos de esforço e de exigência. Chamam-se autodomínio, vontade de se superar, gosto do risco e do desafio, resistência à opressão... São as condições da criação,mas também da dignidade. Pertencem a todo o ser humano, como acontece com  as virtudes femininas. Estas conservam o mundo, aquelas fazem recuar os seus limites. Longe de serem incompatíveis são indissociáveis na sua aspiração ao titulo de humanas. Embora uma tradição milenária as tenha oposto, atribuindo-as a um e a outro sexo, tomamos a pouco e pouco consciência de que umas sem as outras ameaçam tornar-se um pesadelo: o autodomínio pode tornar-se neurótico, o gosto do risco ser suicidário, a resistência converter-se em agressão. Inversamente, as virtudes femininas, tão celebradas nos nossos dias, podem, se não forem temperadas com as virtudes masculinas, conduzir à passividade e à subordinação.

As mulheres compreenderam isto um pouco antes dos homens e regozijam-se por encarnarem esta humanidade reconciliada. Mas não têm razão ao espantarem-se com o atraso masculino. Contrariamente à velha história da condenação de Eva, Deus tornou-se seu cúmplice. Não só retirou o poder procriador a Adão para o dar à companheira, como, ao mesmo tempo, concedeu às mulheres o privilégio de nascerem de um ventre do mesmo sexo. Poupou-lhes, assim, todo um trabalho de diferenciação e de oposição que marca, de modo indelével, o destino masculino. O pai/mãe pode atenuar as dores da separação e facilitar a aquisição da identidade masculina, mas não poderá nunca anular os efeitos da fusão originária. Enquanto as mulheres parirem os homens, e XY se desenvolver no seio de XX, será sempre um pouco mais demorado e difícil fazer um homem do que uma mulher. Para se convencer disso, basta imaginar a hipótese inversa: se as mulheres nascessem de um ventre masculino, o que seria do destino feminino?

Quando os homens tomaram consciência desta desvantagem natural, criaram um paliativo cultural de grande envergadura: o sistema patriarcal. Hoje, obrigados a dizerem adeus ao patriarca, têm de reinventar o pai e a virilidade que se segue. As mulheres, que observam ternamente estes mutantes, contêm a respiração...”

Vindo de: XY A IDENTIDADE MASCULINA, Edições ASA, Lisboa, Out. de 1996 (ver pp. 244-245).

No original XY DE L'IDENTITÉ MASCULINE, Éditions Odile Jacob, 1992. 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

* Ele que foi o autor inicial (e principal) de asneiras e disparates que depois vários outros replicaram. Mais disparatado recentemente, depois de 15 anos de silêncio, quando Vítor Serrão teve a lata de querer ser Amigo do Facebook...

**Felizmente não muitos, mas apesar de tudo, os que há, são ainda agora muito eloquentes (capazes de fazerem corar de vergonha, os respectivos protagonistas). A análise desses exemplos poderia ser tratada por diferentes especialistas, como psicólogos e sociólogos, podendo até originar elucubrações bastante ricas e interessantes, como acontece nos ambientes de trabalho. Não só sobre o «nível dos abusos», como, obviamente também, sobre o à-vontade com que se propuseram concretizá-los. Já que, é supostamente nas relações entre iguais (ou entre diferentes, mas que conhecem as respectivas regras comportamentais!); é aí que algo se desequilibra. Levando depois a que uns se sintam com mais poderes, ou ascendente (?), para o usarem, e tentarem abusar, contra e em detrimento dos outros. Na prática, são verdadeiras guerras, desgastantes, em que é preciso estar a lutar constantemente...   

***"Pela Graça de Deus, Rei (ou Rainha) de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor(a) da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc."Vindo daqui.


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