Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Ago 19
publicado por primaluce, às 22:30link do post | comentar

..e como a mesma nos pode «transportar»:

Talvez, se o deixarmos, ou se a emoção for imensa?

 

Recapitulando o que registámos a propósito de uma pintura de Sarah Affonso

No post escrevemos:

Pode parecer, mas Sarah Affonso não foi uma «praticante» do estilo "Naïf"...
Assim fica esta obra, que, por analogia (quase só) me faz lembrar a imensa beleza da cúpula de S. Lorenzo de Turim, por Guarino Guarini.
Em ambos os casos pela enorme habilidade - que é a ARTE - com que os dois autores fizeram entrar sinais antigos (medievais) nas suas respectivas composições (concretamente o Almada em imensas obras...); e desse modo valorizando-as.
E mais não escrevo, é um repto aos visitantes como faz o meu colega e amigo Manuel Madruga:
Ficando à espera das vossas leituras (e respostas), que podem ser diferentes e bem mais ricas, do que é a minha?

Papagaio-de-papel.jpg

Depois, no post ficou isto:

Eis a pista! Para quem gosta de segredos 
E quando a vi, imediatamente a fotografei. Pois altera, se não substancialmente pelo menos um pouco, e dá imensa vivacidade/graça ao quadro.
Será que já se entende?
Sobretudo como se faz para esconder «um segredo»? Quase magia, ao tirá-lo do ponto central da composição e colocando-o afastado, quase à margem?
Como a "chave de leitura" (para melhor se compreender e valorizar esta obra) - chave a que muitos costumam chamar código (secreto) - como ela estando numa zona a que se dá menos importância; e como ao descobri-ta, e ao seu significado antigo, então tudo converge para dar muito mais sentido ao quadro?
É a surpresa, o maravilhamento.
Ou seja, o "Émerveillement" que anda agora (no mundo das artes) a fascinar os franceses e a ser tema de debates.

novelo de linha Sarah Affonso.jpg

Entretanto alguém corresponde ao repto inicial:

"Vejo um sinal de infinito no cordel enrolado que o menino segura...É um quadro lindo, que conta uma história ou infinitos contos ou apenas um momento estrelado."

Em resumo final a nossa interpretação:

É mesmo por aí: é a obra aberta a muitas leituras, todas possíveis! As estrelas de 5 e 8 pontas já têm a ver com a iconografia cristã. A luz também (aliás com a simbologia de todas as religiões); foca aquele menino em particular, não sei se por alguma razão (?). Num texto que li há dias há imensas informações, mas consta uma, que neste contexto, é particularmente engraçada. Pois fica-se a saber que o Almada Negreiros (marido de Sarah Affonso) brincava com o irmão a lançar papagaios de papel (*). 

Assim, o novelo do fio, posto propositadamente ao nível dos pés, oblíquo e com um pauzinho, ou seja, colocado entre um «8» vertical, e um «8» deitado; ainda, enfaticamente a mostrar o entrelaçado, com uma mecha sobre a outra, e para que se lesse, sem qualquer dúvida, o símbolo do infinito.

Como se conclui, é/foi tudo feito para o observador percorrer com o olhar a composição (aprendemos com uma ex-aluna que esses movimentos se chamam sacadas visuais), e para nela procurar os motivos que a tornam bastante mais rica e interessante do que à primeira vista tende a parecer.

Claro que a emoção (**) vai entrar neste jogo, e por lhe faltarem as palavras, o leitor/observador, por momentos, vai-se sentir maravilhado (***): vai sentir-se perante o inefável; e  a querer tentar dizer, talvez (?)  o que é (quase) indizível.

infinito-2.jpginfinito-2.jpginfinito-2.jpg

(*) No texto do link ver em AS BATALHAS DE MIÚDOS NA CASTILHO:

"António Sobral de Almada Negreiros esteve preso por causa da revolta monárquica de 1919, quando José estava em Paris, mas depois foi comandante de uma divisão da PSP de Lisboa. Foi também um superatleta, praticando esgrima, hipismo e corta-mato, e toda a vida um grande cúmplice do irmão, com quem já adulto adorava brincar aos papagaios de papel. Era um sedutor, tendo à sua volta um "enxame de mulheres", como descreveria a futura cunhada. No fim da vida, casou-se com uma peruana rica e foi viver para Lima, onde morreu em 1964."

(**) Aqui a emoção será mais surpresa e graça, como supomos... Mas quando se trata da Contemplatio - feita no interior do templo e  face aos motivos que aludem ao divino  - como é descrito por Mary Carruthers (e citando nessa sua descrição o processo emotivo explicado por António Damásio); nesse caso o místico que contempla, não apenas se surpreende ou maravilha, mas pode talvez deixar-se transportar (quiçá em êxtase?)

(***) Por fim um excerto da newsletter de 23/07/2019 do Canal Académie, sobre o fascínio e o "sentir-se maravilhado"

 Éloge de l’émerveillement
“Au lieu de supposer que l'émerveillement est le propre des enfants et des ingénus, une émotion agréable et passagère dont on se défait en comprenant l'objet qui l'a provoquée ou en revenant aux choses sérieuses, je vous invite à penser qu'il n'y a rien de plus adulte ni de plus sérieux que de s’émerveiller. L’émerveillement n'est pas une simple émotion, mais une capacité de l'être. Il nous ouvre au monde, révèle heureusement notre ignorance et nous offre une forme de connaissance à la fois plus libre et plus intime. L'émerveillement nous échappe et il doit nous échapper, il nous oblige à recommencer toujours, à se retrouver sans cesse au commencement.”
[Ex
trait de De l’émerveillement, par Michael Edwards, Éditions Fayard, 294 p.]


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