Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
16
Jun 20
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

Sem sermos historiadores, sabemos que há muita(s) história(s) - que são mais estórias ou estorietas -, e que anda(m) muito mal contada(s):

 

Desde 2002-2004, e do que descobrimos a propósito do estudo do Palácio de Monserrate, em Sintra, passámos também a saber que se erguem monumentos a valores e a ideias que andam deturpados e deturpadas; propositadamente?, quem sabe...

Claro que este não é o tempo de perdermos todas as referências (como alguém que ao mudar de casa deixa de saber para onde mudou os seus pertences e valores)

Claro que a Nova Crise (do novo corona) não devia justificar uma enormidade de desmandos... Nem muito menos o derrube de valores que alguns temos como adquiridos, ao longo de vários séculos.

Mas justifica sim, todos merecemos - e isto não é um derrubar mas é um elevar! – a elevação dos valores que têm um sentido superior: i. e., superior ao das banalidades, e aos das trafulhices que, em Portugal, muitas destas, são quotidianas.

As estátuas de pedra e bronze não têm culpa, estão em pedestais porque outros reconheceram o valor, no passado, das figuras que representam.

Perigosas sim, são as pessoas que ainda agora se armam em estátuas, empoleiradas em tachos e pedestais, de onde actuam como se vivessem, para sempre, em «bases» que mais lembram redutos e castelos (porque, venha o que vier, dali não saem, dali ninguém as tira...)

Os que sem darem oportunidade(s) à verdadeira História, à sua investigação e ao seu Conhecimento pelo maior número – e isto é o que se passa nalgumas universidades em Portugal -, têm fortíssimas responsabilidades pela fraca ou nenhuma Ciência e Cultura, que na área da História não chega a todos:

Pelo contrário, vive-se como se a História, a Cultura e o Conhecimento fossem só para uns, poucos eleitos!   

Aqui, desde 2004-2005, se nos tornámos activistas, não é para derrubar estátuas de materiais inertes, mas é por causas e razões concretas. Mais: se para um arquitecto o direito à habitação é constitucional, estes - o Direito ao Conhecimento e à Cultura – também o são, ao mesmo nível, ou superior*.

Aliás se lerem na Constituição, no artigo 73º, 4., aí consta com toda a clareza a liberdade e a autonomia para a obtenção de novos dados: "A criação e a investigação científicas, bem como a inovação tecnológica, são incentivadas e apoiadas pelo Estado..."

E não consta aquilo que connosco se passou: não está na redacção da lei constitucional, nenhuma referência às preferências ideológicas dos responsáveis dos departamentos universitários:

Aos gostos dessas estátuas vivas, feitas empecilhos nos caminhos que só eles entendem; ou que só eles sabem por onde é que se pode e deve ir: «feitos sinaleiros»

Não consta na lei constitucional, que é possível haver responsáveis em centros de investigação do ensino superior, que não sejam interdisciplinares; ou que não compreendam, minimamente, as disciplinas e os saberes essenciais, que fazem ou fizeram a Arte. Em suma que rejeitem actualizações e novas visões, incluindo as que vêm de fora.

Se nós em 2002 percebemos a importância do FILIOQUE - e como esta questão mudou o mundo; e mesmo que só tenha acontecido em 2015, que Peter Frankopan se refira a esta mesma questão** (numa obra que é uma óptima actualização da História Mundial), a verdade é que não somos só nós a detectar esta problmática, e a sua imensa importância no decurso da História.

E se P. Frankopan é muito mais novo do que Jacques Le Goff, é no Historiador francês - com quem Vítor Serrão e Maria João Baptista Neto têm a obrigação de ter aprendido -, que esta questão está bem mais explicada, e mais desenvolvida***. 

E culpam-nos a nós, por termos seguido caminhos que a História sabe que existiram..., mas os nossos «profs.» não?

Caminhos que os Historiadores internacionais têm abordado, mas que os historiadores de arte portugueses (na FLUL) querem ignorar. Isto é discriminação pura:

Seja de género, seja científica, seja o seu cúmulo, ou seja o que for!?

É a prova de que há milhares de racismos, numa sociedade que se finge ser muito justa, mas onde pululam inúmeras injustiças.

E onde o ESTADO, por fim, só há-de intervir quando tem que enfrentar as situações extremas...

Portanto, elevem-se, e ajudem os outros a elevarem-se, antes de haver derrube de estátuas.

Não venham lamentar a perca dos Patrimónios Materiais,

quando os Patrimónios Imateriais que os justificam, fazem parte das vossas muito queridas e muito cultivadas ignorâncias.

(como a seguir se prova:)

Image0043.JPGP. Frankopan-p.74.jpg

P. Frankopan-p.164.jpg

JacquesLeGoff-Filioque-p.148.jpg

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Artigo 65.º(Habitação e urbanismo)

  1. Todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.
  2. Para assegurar o direito à habitação, incumbe ao Estado: (...)

Direitos e deveres culturais Artigo 73.º(Educação, cultura e ciência)

  1. Todos têm direito à educação e à cultura.
  2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.
  3. O Estado promove a democratização da cultura, incentivando e assegurando o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural, em colaboração com os órgãos de comunicação social, as associações e fundações de fins culturais, as colectividades de cultura e recreio, as associações de defesa do património cultural, as organizações de moradores e outros agentes culturais.
  4. A criação e a investigação científicas, bem como a inovação tecnológica, são incentivadas e apoiadas pelo Estado, por forma a assegurar a respectiva liberdade e autonomia, o reforço da competitividade e a articulação entre as instituições científicas e as empresas. Ver em:https://www.parlamento.pt/Legislacao/Documents/constpt2005.pdf

** Ver em Peter Frankopan, As Rotas da Seda, Uma Nova História do Mundo, Ed. ÍTACA, Lisboa 2018. Nas pp, 74 e 164, a questao concreta da Dupla Procedencia do Espírito Santo (que é designada como Filioque).

*** Ver em Jacques Le Goff, com Jean-Maurice de Montremy, Em Busca da Idade Média, Teorema, Lisboa 2004, p. 148. Mais, quem não ler este livro, definitivamente, não quer compreender a Idade Média. Não quer perceber a dose de «arbitrariedade» que foi instilada no século XIX por Jacob Burckhardt (1818-1897), quando escreveu A Civilização do Renascimento em Itália. A clivagem que assim introduziu no entendimento da História. 

https://www.facebook.com/ObservadorOnTime/videos/929220357242639/?v=929220357242639


14
Jun 20
publicado por primaluce, às 15:00link do post | comentar

Como nos aconteceu ao estudar Monserrate, deparámo-nos com ideias arreigadas e pré-concebidas: de quem escreveu sem ter ido ver.

 

Tal e qual o que é típico de uma certa «historiografia» (manhosa) cá do sítio - que se apressa a criticar quem tem olhos - e mais ainda quando esses olhos, depois de ligados ao cérebro, pelo nervo óptico, estabelecem conexões sinápticas. Ou seja, quando ligam memórias armazenadas na mente, e as confrontam, com o que lhes é dado ver em cada instante.

Pior ainda, tirando depois conclusões daquilo que os olhos viram. O que em Portugal, especialmente na FLUL é crime

Assim, importa dizer o que já se passava na nossa Black Box, bem antes de chegarmos à FLUL:

É que nós já tínhamos estado em Brighton, e já tínhamos percebido como Monserrate, arquitectonicamente, era bastante mais «bem comportado» do que o pavilhão de Brighton: mais contido, e muitíssimo mais sóbrio.

Podendo até analisar-se (acrescentamos agora) numa perspectiva semiológica. Ou seja, à maneira dos estilos históricos (sobretudo os da Idade Média).

Pode-se observar, concretamente, o estilo decorativo que os arquitectos Knowles criaram/inventaram para a casa de Francis Cook. E  ainda como o usaram - criando uma ordem arquitectónica, talvez única? Tal como é explicado por E. H. Gombrich neste seu título, cuja capa está aqui:

Image0036-b.jpg

Mas, não nos dispersando mais, voltamos às frases de J.-A. França sobre as origens da solução arquitectónica que está em Monserrate. Frases que, ainda nos princípios deste século, iam fazendo o seu caminho, livre, e acriticamente, nas mentes adormecidas de quem sempre lhe bastou, citar, e citar, e citar; e continuar a citar...  O que é afinal - quando nada se avança? - igualzinho a copiar.

Ou a «encher de palha», como dizíamos aos alunos.

Só que agora (deve ser castigo?), lá temos nós que ir copiar - mas é por uma boa razão - o que J.-A. França escreveu:

"O orientalismo de Monserrate define-se, porém, por nítidas raízes inglesas, que podem ser procuradas no famoso pavilhão de Brighton, de Nash, construído entre 1815 e 1823 (...) A grande torre circular, fulcro da composição de Monserrate, vem possivelmente do palácio inglês, embora os quarenta anos que o distanciam do risco de Nash permitam ao palácio de Cook-Knowles um sentido cenográfico algo diferente,..." *

Ora, como está no nosso estudo - na medida do possível posto passo-a-passo (e não assim numa frase) -, a casa de Monserrate, com projecto do atelier dos arquitectos James Thomas Knowles - o pai e o filho tinham o mesmo nome -, correspondeu a um aproveitamento (original e bastante criativo) da base já existente no terreno de Sintra. Acresce que os desenhos estão aí, e provam-no, em que o fulcro da composição, ao contrário do que França escreveu, era, nitidamente, muito mais cúbico do que circular...?

Base que terá sido obra de Gérard De Visme, e na qual William Beckford - de acordo com vários testemunhos - passou algumas temporadas: Meses ou anos?, não sabemos...

O que sabemos, e no futuro - provavelmente vai-se saber sempre cada vez mais** -,  é que o Pavilhão de Brighton, por sua vez, também este não foi uma obra feita a partir de um único projecto, de John Nash (1752-1835):

Antes, cerca de 1787,  houve uma versão de Henry Holland, muito menos orientalizante, já que este arquitecto «seguia» Robert Adam e o neo-clacissismo francês . Tendo havido ainda depois, a preceder a intervenção (final) de J. Nash, uma campanha de obras da autoria de William Porden. Foi este que desenhou os Estábulos, com cunho indiano - em 1803***.

E só em 1815 é que John Nash foi então chamado para fazer um trabalho que, se tem muito de «criação e novidade», é também o da junção e o da integração de partes que estavam desligadas, mais aquilo que ele mesmo - grande criativo e inventor - lhe veio a acrescentar.

Contada esta história que está no nosso livro (nota***), também lá se registou a ideia do palacete de Sintra, que pertenceu a Francis Cook, ter sido um retrato da globalização do século XIX: contemporânea da Rainha Vitória.

E a História que alguns andam agora a querer apagar, e/ou a re-escrever, será sempre recontada. Naturalmente pelos que vivem em sociedades estabilizadas, e onde o que é básico já está garantido.

E onde por isso mesmo é permitido aos cidadãos contactarem novos conhecimentos, fontes e informações que podem compaginar, face às novas ciências. Para entenderem melhor o caminho que fizemos - enquanto Humanidade - para chegar até aqui (como há dias se lembrou). Pois é este o maior interesse da História

É portanto por tudo o que está acima, dito e redito (em trabalhos nossos - já que, sobre este assunto não nos chegaram outras, ou novas, informações), que também para nós é fascinante re-encontrar o Pavilhão Real de Brighton

~~~~~~~~~~~~~~~~

* Ver em J.-A. França, A Arte em Portugal no Século XIX, Primeiro volume, Livraria Bertrand, Lisboa 1967, p. 373. Note-se que o extracto que citamos tem várias incorrecções...

** Porque cada vez há mais estudos detalhados, resultado do muito mais que se tem podido investigar em algumas universidades.

*** E em Monserrate uma Nova História, podem ver a semelhança que lemos entre esses estábulos e a Sala da Música (existente no palacete de Sintra)


04
Jun 20
publicado por primaluce, às 12:00link do post | comentar

Ainda agora continuamos no mesmo tema, por se poder observar a constância de algumas imagens...

 

Ou, em alternativa, pela maneira como foram minimamente redesenhadas, passando depois para a Arquitectura. E assim sendo, ao termos há muito percebido algumas dessas regras, da passagem de ideogramas (ou imagens emblemáticas) para a formação de vãos - portais, janelas*; deste modo, naturalmente, e perante um vão como o que está na imagem seguinte era impossível não nos fascinarmos.

Livro-PÚBLICO.jpg

Portanto a compra de mais um livro - em 2008 -, com uma "portada" fascinante.

Só que agora a palavra portada não é um erro: um aparente falar errado, por se dizer Portada em vez de Portal. Foi propositadamente que fomos buscar a palavra que em espanhol se usa para designar a capa de um livro

Mais, em Espanha, Portada - como se lê ao seguir o link - além de poder designar a capa, ou o que é o frontispício de um livro, a mesma palavra também serve para designar a frente, a fachada, e também o portal. Por tudo isto ser, ou ter sido, quase o mesmo: a mesma coisa, ou ter tido a mesma origem. Não esquecendo que as palavras, como as imagens servem para pensar, e a mesma origem significa mesmo isso - que na mente estavam/estiveram próximas.

Então,  toda esta especulação à volta de designações semelhantes, foi para chegar ao que muitas vezes podemos notar:

Ou seja, é possível, é até frequente encontrar exemplos, em que o desenho de algumas portas de igrejas (por isso apetece dizer o design de algumas portas) é bastante semelhante ao design da capa de muitos missais e até de bíblias.

Não é o caso das portas de madeira que estão acima - das quais dizemos que têm almofadas em ponta de diamante -, mas já encontrámos, tantas vezes, portas cujo design nos lembra a capa de um livro.

Sobre o fabuloso trabalho de cantaria, com os dois círculos de pedra - encimados por uma mandorla - há que reconhecer que se trata de uma variante (linda) do esquema básico de que partimos quando se estudou Monserrate. Ver abaixo. No nosso livro esta imagem está na p. 38, e dada a sua importância, de novo foi colocada na p. 263.  

mandorla-curl-3-b.jpg

Referimo-nos portanto à Mandorla, a imagem que foi o resultado da intersecção de dois círculos, e que para alguns (James Curl**) é também sinónimo, ou próxima na origem, de Mandala.

Diferimos da sua opinião (como consta no texto escrito), razão para termos colecções de imagens: quer das esquemáticas (como as que se apresentam a seguir***), quer das decorativas. Estas correspondendo «ao alindar» desses esquemas falantes, que por isso foram postos na arquitectura, com o objectivo de funcionarem como proclamações de fé.   

depoisConcílioNiceia-325.jpg

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Como já se explicou neste post, com esta imagem:

Vergas-Ideogramáticas.jpg

** James Stevens Curl é o autor do Oxford Dictionary of Architecture - Oxford University Press, 1999. Livro de onde retirámos a imagem, ver p. 406.  Também aqui .

*** Ver no post para o qual foram feitos esses 4 esquemas

Por fim, deve-se dizer que a imagem que está na origem deste post, veio de A Arte de Portugal no Mundo - Açores, por Pedro Dias. Edição do Público, Dezembro de 2008 (ver p. 53). Trata-se do Portal lateral da igreja de S. Sebastião de Ponta Delgada.   


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