Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
06
Mar 20
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Este texto que lemos na Internet, nalgumas passagens evidencia as tarefas conceptuais, razoavelmente difíceis, dos projectistas da arquitectura. E ao que parece - neste caso do Prémio Pritzker 2020 -, isso mesmo foi afirmado pelas premiadas:

"Uma das actividades culturais mais complexas e importantes do planeta". 

Ao que o jornal Público acrescentou: "é assim que a dupla descreve a arquitectura. E o prémio que arrecadaram significa mais um passo firme para ficarem na sua história."

 

Ora acontece que andamos a escrever (quase) sobre isto, não para os dias de hoje, mas como era na Idade Media, e depois como há cerca de 500 anos, o processo conceptual - a que hoje se chama projecto - foi mudando. Claro, não tudo de uma vez, mas lentamente foi mudando.

Hoje alguns autores têm investigado a Arte da Memória, incluindo a sua história, como neste caso, que encontrámos num blog francês (por Romain Trefel) onde se pode ler:

"L’art de la mémoire est fondé sur la supériorité de la mémoire artificielle. Cicéron concède tout d’abord qu’une bonne mémoire est avant tout un avantage naturel, et que l’ars memoriae ne peut rien sans la faculté déposée en l’homme par la nature – il ne fait donc que développer les germes déjà présents. Pour autant, le don inné ne suffit jamais à mémoriser une suite de mots ou de pensées assez longue, tandis qu’il n’est aucune mémoire naturellement faible que l’art ne puisse suppléer. « Je n’ai pas le génie de Thémistocle, écrit Cicéron, pour préférer comme lui l’art de l’oubli à celui de la mémoire et je rends grâce à Simonide de Cos qui fut, dit-on, l’inventeur de la mémoire artificielle » (De Oratore)."

E o que é que isto - um texto sobre a Memória Artificial - pode ter a ver com a Arquitectura? É talvez a pergunta de alguns dos leitores...

Ora sucede que a dita memória artificial, se servia das edificações - podemos dizer da Arquitectura - para o Orador, que queria memorizar um discurso a fazer, se ir apoiando nas diferentes parte de uma edificação, e ir assim desenvolvendo, e apresentando ao público, para quem estava a discursar, as ideias e os factos que queria transmitir.

É/era todo um processo de equivalências, de analogias e de alegorias, hoje dificílimo de compreender, mas feito com base nas diferentes partes das edificações: um processo que se «punha a funcionar», como se fosse uma verdadeira máquina, em prol da memorização e portanto da qualidade do discurso a fazer.

Discurso para o qual não havia notas, ou onde as tomar. Como nós hoje temos todos os tipos de papéis, à nossa disposição, e ainda vários processos de escrita, pois são muitos os existentes*.

Assim, para organizar o referido discurso o orador começava pelo lugar - Topos - aos quais associava o que hoje é comum serem designados como tópicos. E do lugar, ou do terreno onde a edificação se montava, o orador passava para a sua base, era a  implantação, ou, mais concretamente as chamadas fundações. Como estarão a perceber as referidas fundações eram associadas, ou estabelecia-se uma nova analogia, com os fundamentos que o orador quereria apresentar, na base das suas lógicas e propostas, possivelmente de cariz político.

E destas, mentalmente, a construção (que não era material, mas totalmente feita de ideias) passava a desenvolver-se, chegando ao ponto de cada compartimento da casa vir a ser, neste  jogo de analogias, um capítulo ou um sub-capítulo, do conjunto de assuntos que o orador ia discursando e apresentando ao povo, ou ao seu público. Em geral poderia discursar no Ágora, na Grécia, ou num Forum se fosse uma cidade dos romanos.

É perfeitamente possível que muitos dos que agora estão a ler este processo mnemotécnico nunca tenham ouvido falar nele?

De qualquer forma, a autora Frances A. Yates é conhecida entre outras obras pelo seu livro (fundacional), a que deu como titulo A Arte da Memória. Tendo tido vários «continuadores», que perceberam, e depois também desenvolveram, as suas próprias ideias. Havendo actualmente, já muita matéria, mais do que suficiente para constituir uma nova área científica**).

Por exemplo, Daniel Arasse é um desses autores, conhecido, porém, no nosso caso temos preferido e lido sobretudo os trabalhos de Mary Carruthers. E por aqui, nesta parte do texto, há que explicar já, que muitas das nossas ideias se não têm sido aceites, é também porque em Portugal serão muito poucos os leitores de Mary Carruthers. Claro que não sabem o que perdem: dada a imensa qualidade, e novidade, das suas investigações...

E porque falámos de processos que eram como verdadeiras máquinas (para a memória), aqui fica a capa do seu livro, na versão francesa, a que deu como título - Machina Memorialis. Diferente do original em inglês que é: The Craft of Thought  - Meditation, Rhetoric and The Making of  Images, 400-1200. 

Mary Carruthers, Machina Memorialis

Agora, e do Avant-Propos que Mary Carruthers escreveu para edição francesa, fica o excerto seguinte, do qual nos lembrámos quando lemos a frase das autoras irlandesas, vencedoras do Pritzker 2020, na sua vontade de explicar a dificuldade que pode estar contida nos projectos e obras da Arquitectura. Sobre a Concepção que segundo Mary Carruthers na Idade Média foi a Meditatio***

« Comme je l’ai montré dans mon précédent livre, The Book of Memory, le stade initial de l'Invention rhétorique portait le nom de meditatio. Cette méditation correspond à ce que nous appelons aujourd'hui la « composition », c'est-à-dire le processus par lequel un auteur élabore une œuvre, que son support soit le langage, la peinture, la sculpture, l’architecture ou la musique. La nuit constitue le moment le plus favorable à la meditatio (comme Quintilien et bien d'autres commentateurs l’ont fait observer), car alors le monde est paisible et moindre le risque de voir l'attention détournée. Mais contrairement à l’imagerie communément en usage à 1'époque moderne, où la composition implique une vision de 1'écrivain ou du dessinateur en train de noircir du papier (voire des monceaux de papier éparpillés autour de lui dans une activité fébrile), la méditation antique était un processus purement intérieur, au cours duquel l'auteur « découvrait », sondait, sélectionnait et réarrangeait le matériau que sa mémoire cultivée avait soigneusement engrangé et, ce faisant, inventait une œuvre nouvelle. Loin de viser à la seule réitération «par cœur » de ce qui avait été préalablement lu ou pensé, cet art de la mémoire avait pour but de servir la composition, d'inciter à l’élaboration de pensées inédites.»

Portanto, e para os dias de hoje, apesar de ser chamada Memória, é o Pensamento posto ao serviço da criação cultural e da invenção.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Podendo incluir os telemóveis e os tablets, ou os computadores com as apresentações em PDFs e PPTs

**Se é que isso interessa? Pulverizar ainda mais do que já estão dispersos, alguns saberes das chamadas Ciências Sociais e das Humanidades?

*** Concordamos com várias ideias deste seu texto, achamo-las bem interessantes, embora, parece-nos, que o modus faciendi do architector medieval, possa ainda não estar completamente captado.

Mas era parecido...


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