Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Mar 19
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

... e tudo o que veio a seguir:

Ou, porque foi muito o que veio a seguir e sempre haverá mais, poderia perguntar-se:

Monserrate é sempre uma renovação?

RE: Por acaso acho que sim, pois dependerá sempre também, da maneira como se questiona a obra. E há tantas...

 

Até 2001 estudei Monserrate, fascinada pelo edifício, primeiro para o IPPC (encomenda de um estudo preliminar) e depois dentro dos Amigos de Monserrate (*1). Mas estudei só com a minha sabedoria, que não era muita, porém, principalmente virada para obra.

O que hoje sei ser uma enorme qualidade (ou método) - esforçarmo-nos por tentar compreender, mesmo sem uma grande contextualização (porque isso obriga a fazer perguntas à obra, directamente, ... abordando-a, com uma boa dose de «frescura», com questões mais nossas e menos fantasiosas, que os excessos de erudição também carregam).  No entanto, simultaneamente, estudar uma obra só assim, é também um grande defeito, e um enorme erro: por ser insuficiente, já que alguma da dita contextualização pode permitir, quase de imediato, que se faça a leitura da obra.

Que é afinal aquilo a que normalmente se pretende chegar e não tanto (como uma certa historiografia cá da terra pratica), ao conhecimento das datas em que nasceram, foram baptizados, casaram e morreram os (supostos) autores das obras...

Mas, voltando a 2001, e como era preciso "Progredir na Carreira Docente" no IADE, e houve uma colega, super-prestável, que 15 dias antes nos falou num mestrado na Fac de Letras. Então lá fomos.

Claro que levei Monserrate (*2) , e ao começar a estudar o palácio, via William Beckford - para tentar perceber o que depois chamei Monserrate-I de Gérard De Visme; então apercebi-me que na comunidade inglesa - e deliberadamente a querer trocar todas as voltas de William Beckford em Portugal (pois este queria entrar em contacto com a família real) - havia um tal de Robert Walpole.

Ora o apelido Walpole, logo em 2001, tinha-me aparecido num outro personagem - o de Horace Walpole, que era (e ainda agora é assim...) considerado o "grande relançador" do estilo gótico em Inglaterra; com a sua casa de Strawberry Hill, que construiu nos arredores de Londres. Obra em que se empenhou quase toda a vida (desde aprox. 1748 a aprox. 1780) de uma maneira que hoje considero muito engraçada, mas que, em termos científicos, e sérios, se tem que dizer ser interessante (*3). Muito interessante. Mesmo!

E na verdade, quando mais tarde passei a saber, ou deduzi - indo muito para além do que era suposto ir... - que a Arquitectura se liga de modo muito directo à Religião. Como acontece quer para os objectos litúrgicos, acontece também para os espaços onde decorre o culto e as orações; como aliás sempre aconteceu e isso não tem sido suficientemente sublinhado (já que a historiografia prefere andar de roda das vidas dos artistas, à maneira de Giorgio Vasari).

Só que, e com o tempo que tem decorrido desde 2001, e o muito que tenho rememorado/repensado todas estas problemáticas, é impossível não ver todas estes temas como sendo  absolutamente fascinante, também do ponto de vista científico.

Estou a tentar simplificar, mas claro que, culturalmente, este assunto é riquíssimo (e em muitas vertentes, incluindo até as neurociências).

Voltando ao tal Horace, ele era o último filho do que foi o 1º PM inglês (Robert Walpole), ao serviço de George I, o rei vindo do eleitorado de Hanover, que nem sequer falava inglês. 

Em vários aspectos, Horace Walpole que foi um enorme privilegiado, aparece-nos como um diletante, e muito mais como um personagem contemporâneo, do que como alguém que viveu no século XVIII. Diria que teve todos os brinquedos - gadgets - que haveria na época. Entre eles teve uma Imprensa,  o que lhe permitiu, mais do que escrever, também publicar (textos e imagens - a lembrar os nossos computadores há 300 anos, pois nasceu em 1717).

Quanto à escrita, as suas cartas são consideradas uma das óptimas bases para conhecer o século XVIII. Actualmente integram a Lewis Walpole Libraryde uma «conhecida universidade» dos EUA (mas já não sei, será que por aqui a Yale University é conhecida? Interessam os estudos de alguém que usam dados da sua biblioteca?).

Avançamos, mas  aqui ficam pistas para essa leitura  sabendo nós que o nosso Monserrate, também para lá foi levado  (e já agora, e em paralelo, ainda com o sublinhado de que nada disto interessa ao Ensino Superior nem à escola onde estamos desde 1976...). É outro assunto, não nos queremos  dispersar, deixando os asininos para quem os quiser criar...

Chegando a 2002, e continuando super-fascinada com os estudos que estava a fazer na Fac. de Letras; lendo Rose Macauley em "They Went to Portugal" (1ª edição de 1946), e depois com a resposta a uma pergunta que fiz à Embaixada Inglesa, passei a ter a certeza que Robert Walpole foi Embaixador em Portugal: aliás o primeiro!

CapaRoseMacauley.jpg

Assim, esse foi também um achado importante, e de certo uma das primeiras e grandes emoções, já que muitas mais se seguiram. Como por exemplo, logo depois, foi o caso de um Arco no Palácio de Seteais - em que William Beckford esteve, no jantar de inauguração. Arco que tudo nos leva a crer ter sido originalmente um arco quebrado (como os do Aqueduto das Águas Livres, no Vale de Alcântara) e não de volta inteira (o que é talvez muito mais bonito?) como hoje lá está e se pode conhecer...  

Para perceber o que foi o século XVIII em Portugal, e sobretudo alguns dos personagens marcantes que aqui estavam, ou que para aqui vieram; para isso, a obra de Isabel Stilwell aparece-me portanto - e hoje, em 2019 (não em 2001 quando comecei a recolher e a arrumar de modo mais sistemático, as informações sobre os ingleses em Portugal) - como bastante útil.

É evidente que se centra na história da vida da rainha, e que a contextualização que faz nunca poderia ser completa ou total. Mas, por exemplo, e para quem como nós o inglês é ainda «obstaculizante», obter num ápice informações (para além das da internet, que então ainda não existiam como agora) de Robert Walpole, sobrinho, e não o primeiro ministro inglês que viveu entre 1676 e 1745), pode ser razoavelmente vantajoso...

robert-walpole-por-i. stilwell.jpg

De qualquer forma, também não temos dúvidas - e isso depende dos objectivos de cada  investigação, do interesse de cada investigador (ou do que pode vir a fazer com o que investigou...) - que pode ser altamente enriquecedor pôr mãos à obra. Avançando, primeiro a recolher informação (e "tudo o que vem à rede é peixe..."),  para decidir depois, já que se foi às fontes, até onde se quer ir, por exemplo, nos materiais a integrar no trabalho e a publicar.

E se algumas informações podem parecer irrelevantes, ou até acessórias, muitas outras nem tanto. Pois ajudam a contextualizar ainda mais, o ambiente (material, da cultura material) de uma qualquer época. 

Dizêmo-lo assim - já que vamos colocar a seguir um excerto vindo de Monserrate uma Nova História (p. 91) - que nos serviu para retratar melhor  o ambiente psicológico, e a mentalidade (ou as diferentes ideias/ideologias) de um tempo e uma época (muito específica).

Neste caso, do tempo da Rainha D. Maria I, sabendo-se que foi o de quem viveu atormentada pelos ataques feitos então à realeza e à nobreza (é toda a história mais ou menos romanceada por Isabel Stilwell). Ou seja, por actos ocorridos pertíssimo de si, e que a envolviam sobremaneira, a si e a toda a sua família.

Em Portugal eram factos decididos ainda pelo rei D. José (pai de D. Maria I) e pelo seu ministro (Pombal). Mas também pelo que se estava a passar, bastante mais longe, em França. E em França era já num ambiente diferente - em que a religiosidade, e tudo o que lhe era então ainda inerente, por aqui em terras lusas -, em França já «pesava» muito menos, do que ainda «pesava» em Portugal (*4).

É que, fosse na Corte ou nos Salões (de uma Europa em grande transformação), novas ideias estavam a impulsionar o «desmonte» das sociedades antigas, como tinham sido, e assim se tinham mantido, durante milhares e milhares de anos:

Concretamente o direito de origem divina do poder real passou a ser contestado; o diletantismo e a superficialidade das vidas de muitos, crescentemente, vinha a ser reconhecido. Inclusivamente pelos próprios que viviam desse modo - e até expressavam a sua auto-crítica - como se registou no  referido excerto (*5):    

"(...) também pela correspondência, somos levados a admitir, que foi talvez este “grupo de Lisboa”, ligado a Inglaterra e à comunidade inglesa na pessoa do Embaixador Robert Walpole, quem dificultou, entre 1787 e 1799, a vida de William Beckford na capital portuguesa, e impediu que fosse apresentado, como tanto pretendia, à Rainha D. Maria I.

(...) é feita referência a esse primo de Horace - homónimo do seu pai. Mas o que Mme Du Déffand escreveu é também exemplar; revela a sociedade Europeia dos Salões do século XVIII, superficial, como a própria sabia e teve a lucidez de escrever:

“...Le petit cousin [em nota de rodapé – M. Robert Walpole, qui depuis fut, pendant plusieurs années, ministre plénipotentiaire à la cour de Lisbonne] que vous avez ici est fort aimable; s’il vivait avec vous, il acquerrait bientôt ce qui peut lui manquer; il a certainement de l’esprit, il est naturel, il a de la grace, mais il manque d’usage du monde; je me suis un peu établie sa gouvernante, il me plaît, et je voudrais qu’il plût autant aux autres; cela viendra, mais vous savez qu’ici nous jugeons ordinairement sur l’écorce...”.

Por fim, reparem, como nós sentimos a necessidade de contextualizar e explicar como uma nova mentalidade, vinda da Europa, estava a contribuir para mudanças em Portugal. Quer nos Ambientes Interiores das casas desses estrangeiros que aqui viviam; quer também na Arquitectura - no sentido que muitos ainda lhe damos, de esta ser face exterior, e portanto obra pública.

"Interessa-nos certamente conhecer o carácter da Europa na época, e os seus “Centros” que eram vistos como modelos a seguir. Também as pessoas, o modo como viviam em sociedade, ou apenas em família nas suas habitações; neste caso particularmente, o encomendante da arquitectura, Gérard Devisme."

Claro que se fossemos começar agora um estudo dedicado a Monserrate, e com mais informação do que a que então existia, para isso o trabalho de Isabel Stilwell seria sem dúvida útil. No entanto, e para o ponto em que (ainda) hoje estamos - que é o da constatação ou o reconhecimento de uma imensa religiosidade (quase doentia, como por vezes nos ocorre e apetece dizer), para essa visão ele é muitíssimo mais útil:

Pois demonstra o ambiente português do meio ao fim do século XVIII, incrivelmente atado de pés e mãos (dizemos nós), a uma religiosidade antiga, que talvez só no século XX, e com o Concílio Vaticano II - a contribuir para uma nova mentalidade -, se tenha enfim começado a aligeirar.

E demonstra também aquilo que tem acontecido com o nosso próprio trabalho de investigação dedicado a Monserrate: é que apesar de nos ter aberto portas enormes, amplas, e conduzido a leituras riquíssimas - a que poucos normalmente acedem -, mas que nos fez mudar de lugar e de mentalidade. Esta abertura, pelo que vemos, continuará a ser só nossa, e ficará connosco, enquanto todos os outros não se abrirem!

Enquanto não se abrirem as bocas dos mais informados, e capazes de perceberem o valor do que descobrimos. Como é o caso dos nossos professores e orientadores; quer os dos estudos do mestrado quer os do doutoramento...

E enquanto não se abrirem as mentes de muitos que nos rodeiam! Que até podem ser muito amigos, mas que com toda a sua  honestidade, eles não vêem o que trazemos de novidade à historiografia desta terra: em que não há pressa de mudar (nada), ou de tirar proveito com novidades...

Image0102.JPG

(*1) Por convite do que era então o Instituto Português do Património Cultural. Mais tarde IPPAR, actualmente Direcção Geral do Património Cultural. Associação Amigos de Monserrate

(*2) Mais, tive a noção que Monserrate serviu para «abrir portas»... Não a nós, mas sobretudo a muitos mais, o que foi confirmado em 2017 com a exposição Monserrate Revisitado e uma certa (vergonhosa) «postura de açambarcamento» de quem resolveu calçar-se com sapatos alheios! 

(*3) E, claro que a aproximação completa - cientifica - é riquíssima e nos diz muito sobre nós, como civilização e cultura. Europeia, Ocidental, etc., etc., etc. 

(*4) É de facto riquíssima a recolha feita por Isabel Stilwell, incluindo não apenas informações do Embaixador inglês, mas também, neste caso, as do Embaixador francês. O qual a autora pôs a pensar alto, questionando-se como toda a Europa poderia vir a ficar contaminada pelas ideologias então emergentes:

"Mas mais grave ainda era a questão que lhe estava subjacente e que contaminaria necessariamente toda a Europa: eram os reis sagrados ou sujeitos às leis do Estado, como todos os outros? Suspeitava que infelizmente a procissão ainda ia no adro" (ver op. cit., p. 303)

(*5) Propositadamente um excerto longo, que apanha um pouco da história contemporânea de Monserrate-I, que fomos pesquisar. E depois a incluir o que Mme Du Déffand teve a coragem de reconhecer como sendo o comportamento da sociedade do seu tempo.


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