Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
19
Dez 10
publicado por primaluce, às 23:30link do post | comentar

Bem dizem os contadores de informação que o importante é contar. Sem mais, até indiscriminadamente.

Ver hoje (19.12.2010) - "3 days since First Light", em www.culturomics.org*.

A notícia está no jornal i, onde consta o seguinte: “…Primeira Luz. Ontem, no canto esquerdo do site, uma etiqueta assinalava "Dia 1, primeira luz", a expressão poética usada na astronomia para imortalizar a primeira imagem capturada por um telescópio. Uma metáfora para o objectivo de expandir horizontes: "Agora que uma fracção significativa dos livros mundiais foi digitalizada, é possível que uma análise computacional venha a revelar tendências ainda por descobrir na história, na cultura, na linguagem e no pensamento", resumiu Jon Orwant, engenheiro da Google Books, parceira do projecto."

Perto do fim do artigo há outras informações, que sim, para nós essas fazem algum sentido (que se sublinha): “a cultura humana analisada pela disposição das palavras.” Ou, como esta outra, em que chegam a conclusões: “A humanidade está a esquecer-se do passado cada vez mais depressa”.

Naturalmente, os que têm acompanhado os nossos posts, lendo neles algumas ideias que captámos, e, entre elas, a de haver um inconsciente (individual, colectivo?) criado ao longo do tempo, como consequência das informações dadas pelas imagens que os olhos vêem. Isto é, as que vemos, mesmo sem atenção, como ainda hoje acontece a toda a gente… Poderá agora deduzir-se que aquilo que é dito para as palavras, em diferentes línguas, é aplicável às imagens que temos estudado? Sobretudo, para o caso da Europa Cristã – cuja imagética, em determinados períodos, foi empregue de um modo quase «universal» – e a conseguir ultrapassar as barreiras criadas pela existência de várias línguas?

E mesmo, quando muito mais tarde, já passada a “primeira iconografia cristã” que foi formulada e desenhada; i. e., já depois da Idade Média – apesar de ter havido várias «incursões» da imagética cristã pelo próximo Oriente desde os primeiros tempos do cristianismo (ou seriam ainda imagens da cultura hebraica?) - depois de tudo isso, a partir dos séculos XV-XVI quando a Iconografia do Ocidente chegou aos restantes continentes, como é que se comportou nos novos continentes? É que nestes não sabemos, bem, o que se terá passado? Até que ponto terá sido essa iconografia compreendida – ou, até mesmo, se terá sido interiorizada, como aconteceu na Europa: com imagens que eram «referentes teológicos»; ou desenhos a traduzirem ideias?

Claro que estas são questões nossas, porém, para outros – chamemos-lhes “contadores de tags” (estejam essas tags ordenadas ou desordenadas, classificadas ou não…) – para esses há agora uma «Babel de palavras» que querem contar, como é dito em:

http://www.ionline.pt/conteudo/94452-genoma-cultural-humanidade-explicada-5-milhoes-livros

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

 *Se quiserem compreender há que ler, pois é um tema complexo.


publicado por primaluce, às 10:08link do post | comentar

Sabem o que em geral se pensa dos arquitectos?

Que têm que ser um pouco loucos, um dia dizem uma coisa, no dia seguinte a sua contrária?

Pois "Que digam, que pensem que falem, eu não estou fazendo nada...

Só que mesmo «não fazendo nada», no fim há obra feita. De pedra e cal, a contrariar tudo o que se disse; a mostrar que houve sempre um caminho. 

E o que é surpreendente?

É verificar que nem os próprios sabiam desse caminho...

Torre de Babel de Bruegel - O Velho, a ver em:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brueghel-tower-of-babel.jpg 


17
Dez 10
publicado por primaluce, às 16:44link do post | comentar

No post anterior fizemos referência à necessidade de «construir para compreender»; o mesmo que se passou connosco, logo em 2002, concretamente, para perceber uma ideia teológica. Fica a imagem, que é - de tudo o que estudámos - aquela que consideramos terá sido, eventualmente, a mais "polissémica" da arquitectura antiga, medieval. É uma recriação nossa*.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

*Ver em Monserrate, uma nova história, p. 264, figs. nºs 93 e 94. Aconselha-se, a quem estiver interessado, a que leia o que escreveu J. Custódio Vieira da Silva sobre os referidos túmulos do Panteão Alcobacense, em O Panteão Régio, IPPAR, 2003, vai poder constatar que para o autor se trata de Iconografia meramente decorativa. Isto é (no sentido que dá à palavra), não significante; o que corresponde, exactamente, ao oposto da nossa concepção.


16
Dez 10
publicado por primaluce, às 11:30link do post | comentar

António Damásio abre O Livro da Consciência - recentemente publicado - com a epígrafe seguinte, uma frase de Richard Feynman:

"O que não consigo construir não consigo compreender."

 

mailto: bien.faire.et.laisser.dire.gac@gmail.com

 

15
Dez 10
publicado por primaluce, às 18:10link do post | comentar

Como alguns sabem, defendemos que se usem as palavras em português, quando elas existem na nossa língua, claro. A qual, também podemos (parece que ainda ninguém proíbe...)  ir enriquecendo.

Ora com tanto sufixo e prefixo que por aí há, acrescentados às palavras-base (ou raiz etimológica), como se faz com as imagens, talvez se encontrem interessantes novos vocábulos, para substituir os estrangeiros: passaremos assim a ter em português as palavras que nos faltam! Dando vida à língua, à maneira brasileira, e passando a exigir novos acordos ortográficos.

Mas, repare-se, aqui não vamos tão longe como Eça de Queirós: este autor chegou a escrever que se deveriam falar mal - "orgulhosamente mal" - as línguas estrangeiras. É verdade que nos lembramos desta frase desde o 3º ano do liceu, vinda da Selecta Literária, que então fazia parte dos compêndios obrigatórios. E é também verdade que, recentemente, voltámos a encontrar essa «sentença», algures, numa das suas obras. Pensámos logo que a memória que Deus nos deu é um dom fantástico; mas, entretanto, de há uns poucos meses para cá, esquecemos onde está essa ideia, estranhíssima, que Eça sugeriu!

Ao que parece - noção com que fiquei aos 13 anos - o escritor defendia que falar bem qualquer outra língua, significaria ser menos português. Por se ter passado a dominar, forçosamente, outros conceitos e outras ideias, pertença de outros povos.

Pois aí está, um palavrão em língua alemã, que nem pronunciar sabemos; mas, cujo conceito nos parece muito útil, a saber: "schadenfreuden".

ler em:

http://www.destak.pt/opiniao/82428-schadenfreuden

Depois de lido o artigo, confirma-se, não fomos nós que o escrevemos, e meio Portugal conhece «essa arte»! Porém, que fazer face à portuguesíssima inveja? Só uma ideia nos ocorre: voltar à Etimologia. Voltar ao conceito que segundo L. B. Alberti (séc. XV) se foi esquecendo; um adjectivo que muito se ouviu, sobre a atitude: ser «construtivo». Enfim, é preciso voltar a esse valor, como aconteceu desde a Antiguidade. É por isso que, com grande frequência, não se consegue atingir (e assim compreender, em todas as suas dimensões) uma das essências da Arquitectura Antiga, da qual o Pseudo-Dionísio - o Areopagita - também escreveu: sobre ser correcto e "edificante".

~~É complexo, sim. Mas não é inatingível~~


14
Dez 10
publicado por primaluce, às 10:17link do post | comentar

Coisa tão estranha? Sim! Porque afinal, nalguns casos, parece que estamos todos sintonizados.

Ontem, no programa Prós e Contras, veio à liça o provérbio: “Bem prega frei Tomás…”, aplicado, exactamente, a questões que aqui fizemos eco, no post anterior - de 11 Dez.

Fica a morada do sítio onde podem ouvir o programa: repleto de diagnósticos sobre o que se tem feito mal, e várias referências ao muito que há para fazer:

http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/pros-contras/   

E porque a vida sem imagens não teria graça nenhuma,  

fica também uma daquelas janelas, que quando passamos nos fazem perguntar:  

"Mas porque é que me estão a dar este presente lindo?"  

 

  Cascais Antigo

"cher pays de mon enfance ... je te garde dans mon coeur"


11
Dez 10
publicado por primaluce, às 14:41link do post | comentar

Como tudo está ligado, e sempre esteve - é importante não o esquecer - um arquitecto ou um designer tem dificuldade em fazer escolhas. Hoje abrimos o catálogo da 2ª Exposição de design português realizada pelo INII em Março de 1973.

Escolhemos uma página da sensibilização que então foi feita para a importância do Landscape Design, por Júlio Moreira; um artigo que inicia na página 18. No desenho seguinte, retirado desse livro, estão já patentes as possíveis derivas, que hoje são uma certeza. Infelizmente, e essa é a nossa opinião, o Landscape Design (tal como todo o design - industrial, ambientes, arquitectónico) não conseguiu ou não pode, chegar a todas as áreas e a todos os territórios. Chegar para organizar, conservar e manter, por exemplo, os "habitats naturais", que, tantas vezes, fruto das políticas desenvolvimentistas, e, sobretudo, exploradoras dos recursos, estes foram devastadíssimos (e não repostos). Todos sabemos disso!

Nós próprios, durante anos ensinámos a disciplina de Higiene e Conforto, definindo, para que os alunos os conhecessem, e viessem depois a aplicar nos seus projectos, os principais parâmetros do conforto ambiental: passando pela definição das necessidades para os espaços interiores, de luminotecnia, acústica, ventilação e climatização. E passando, implicitamente (claro), pela cubicagem dos espaços - ou na prática, em edifícios escolares, por exemplo, a definição do nº de alunos por metro cúbico - assim como, as decorrentes necessidades de renovação do ar, caso houvesse excessos de ocupação, etc., etc.  

Pois tal como na Natureza, sobre a qual muito se escreveu e ensinou, ou, até, particularmente, sobre o Ordenamento do Território em Portugal - da necessidade de não desertificar o interior - sobre tudo isto se ensinou nas universidades, as portuguesas incluídas, desde há bem mais de 30 anos. Porém, e como está patente, quase sempre (são raras as excepções), o lucro sobrepôs-se à lógica, às normas legais, ao bom senso, e às boas intenções: incluindo (pasme-se - quando hoje se quer dar tanta voz à investigação e às universidades!) as intenções mais ensinadas,  nos próprios estabelecimentos e institutos de ensino superior.

Essas intenções, ou estão ainda bem escondidas, em recantos muito exíguos de algumas mentes e de algumas almas: é uma esperança! Ou, porque sempre se ouviu dizer "que de boas intenções está o inferno cheio", podemos deduzir para onde se terão mudado?!

 Claro que, e continuando na metáfora, não nos parece nada, que esse seja o melhor lugar para encher de «boas intenções» (ou, de boas práticas): queremo-las ao nosso lado...

Relembre-se -----» este é «um escrito» de 1973

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Sobre «outros escritos» - os de J. Mattoso sobre o Escudo de Afonso Henriques - não os esquecemos, mas exigem uma análise atenta, para deles se poder retirar o que é muito interessante: o modo como o funcional serviu o simbólico. Mas, também se poderia dizer ao contrário: como o simbólico determinou, e deu forma, ao funcional. Aliás, foi isso que se passou no desenho da Catedral Gótica, e das chamadas Ogivas. E, Prima Luce (este blog), foi feito para fazer essa divulgação: para preparar, e ir dando sinais evidentes, de uma outra visão da História da Arquitectura. Uma visão que nos parece ser mais correcta, estando, em vários casos, apoiada pela Etimologia. E, portanto, em parte, já há muito «ancorada», de uma maneira quase natural, na mente de todos nós*. O Paradoxo, não é apenas aquilo que é surpreendente... O Paradoxo em Ciência é muito mais do que uma surpresa, ou uma contradição. Pois se é algo que surpreende, em nossa opinião, pode também exigir um enorme esforço, para uma «re-colocação das bases», com que fazemos os nossos raciocínios. Isto é, sobre as quais (bases) assenta o Pensamento.

A título de exemplo, note-se que é muito mais complicado do que mudar de casa: sobretudo, quando nesta ainda não sabemos dos novos locais, aonde estão as coisas de que constantemente precisamos?

É a teoria dos loci (locais) ou topoi (topos, a mesma palavra de tópicos e de topografia); enfim, é a Teoria da Memória explicada por Frances Yates.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

* Lembre-se Laurent Gervereau, e a frase, com que abre um livro: «Imagem» é uma palavra.


10
Dez 10
publicado por primaluce, às 15:59link do post | comentar | ver comentários (2)

Será que se um dia voltarem, ainda nos lembramos deles?

Das críticas certeiras, e das gargalhadas ainda melhores, que nos fizeram dar?

Este programa foi a prova, a certeza que a criatividade, pode ser ilimitada. Mas, se acabar, será, irremediavelmente, a "ganda nóia"?

http://www.ionline.pt/ifotogaleria/92820-53159-contra-informacao-isto-nao-e-um-adeus-e-um-ate-ja

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

E da imagem seguinte, ainda há Designers que se lembrem dela? Da 2ª Exposição de design português realizada pelo INII em Março de 1973? Vamos revisitar este catálogo, que contém trabalhos, a cujos desenhos e execução de alguns protótipos, pudemos assistir. Eram tempos de pioneiros, e de criatividade; de valores que hoje já são Património.

Pois este não tem que ser apenas arquitectónico, sendo constituído, principalmente, pelas «Ideias» que, segundo Platão, as «Formas» realizavam.

E não estamos a expressar saudades do passado, mas do futuro: daquele para o qual trabalhámos e ensinámos; aquele que alguns insistem em reduzir à imagem do poucachinho - em que se vão especializando. Vamos poder ver, como já em 1973 havia críticas, relativamente a possíveis excessos, e a certos desenvolvimentos*.

Ainda em torno do Design, parabéns à Cristina Garrido, por abrir as portas do seu Atelier. "Não desfazendo, claro..." mas nos mais de 34 anos em que ensinamos, quando estávamos no Chiado, nos primórdios, e ainda não se falava em Walks of Fame, foi uma das nossas melhores alunas. O mesmo vai acontecer com o Atelier do Paraíso: é que as instituições, como as pessoas, para existirem, têm que ter Alma!

http://atparaiso.blogspot.com

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

* Desenvolvimentos tecnológicos e outros. Nesta perspectiva vale a pena ler o que escreveu Umberto Eco, em História da Beleza, sobre "A sólida Beleza vitoriana"; e dentro desse capítulo (XIV), citando Eric Hobsbawm, em "A casa burguesa", com a sua máxima especialização, e a fazer a "auto-apresentação do burguês".    


08
Dez 10
publicado por primaluce, às 20:32link do post | comentar

Uma vez (numa entrevista, há anos) alguém perguntou a Gonçalo Ribeiro Telles, qual a sua definição de Arte e de Beleza?

Para nosso enorme espanto limitou-se a dizer: "é aquilo que consegue emocionar..."   

Hoje, estando à procura de mais um "Quadrifolio", ou de uma outra imagem alusiva à Imaculada Conceição, encontrámos esta Avé Maria (conhecida como "Hail Mary") de Paul Gaugin de 1891.

Foi então que nos lembrámos dessa definição da Arte como criação de Beleza: a tal emoção, sem palavras...


07
Dez 10
publicado por primaluce, às 22:24link do post | comentar

No dia 27 de Outubro, apresentámos um excerto da Tapeçaria de Bayeux, e já nesse dia evidenciámos como os Escudos adquiriram uma forma em Amêndoa (correspondendo à designação mandorla - amêndoa em italiano). Haveremos de dar continuidade ao post de ontem, com algumas ideias e citações vindas de José Mattoso, que também abordou (um pouco, num caso muito específico), a questão "da  forma e da função" do Escudo, como instrumento para a defesa e protecção do corpo dos soldados.

Nos estudos que temos feito, apercebemo-nos o quanto é interessante notar - no caso da Arquitectura - a passagem de raciocínios aristotélicos a raciocínios platónicos: i. e., a passagem da realidade mais concreta, à sua abstracção, idealização e generalização. E, ou, vice-versa, porque isso também sucedeu.

Mas, para quem como nós não tem formação em Filosofia, ir buscar informações e bases para poder trabalhar, à partida não seria nada fácil.

Ora como se pode ver na bibliografia que deixámos em Monserrate, uma nova história, tivemos a sorte de um dia encontrar na livraria da Faculdade de Letras, uma obra preciosa, que não sei se tem correspondente em português, feita por autores portugueses? Referimo-nos a: Panorama des idées philosophiques - De Platon aux contemporains, da autoria de Jacqueline Russ.

Não vamos escrever sobre a autora, até porque na internet há bastante informação sobre esta Professora (com letra grande). E, inclusivamente encontrámos agora um curtíssimo documento (de apenas 27 pp) onde se sintetiza a Aventura do Pensamento Europeu*.

Tudo isto vem a propósito de mais um artigo de F. Alberoni, que explica a dificuldade actual, que a maioria tem, para conseguir fazer raciocínios complexos. O autor escreve, primeiro a propósito dos alunos do Ensino Superior. Depois recua, porque lhe parece que a dificuldade vem do Ensino Secundário, e, finalmente, apercebe-se que começa por ser em casa, e depois na Escola Primária, que há enormes lacunas. Uma total falta de disciplina, que, praticamente imparável, continua depois, até ao nível do Ensino Superior.

Sabemos disto - já escrevemos (embora muito pouco) sobre as "bases do Saber" - e também da incapacidade/dificuldade dos professores em se posicionarem face a comportamentos que têm que ser muito exigentes. Até porque, os actuais docentes, eles próprios, a maioria não adquiriu (a não ser por um esforço pessoal, já adultos) essa mesma disciplina, que, desde cedo, faz tanta falta aos alunos...**

Nos nossos estudos, e porque a Arquitectura conteve (na Idade Média, sem dúvida continha) uma certa materialização do Saber, temo-nos deparado, exactamente, com a questão da sua própria complexidade. Muitos não conseguem perceber, que, apesar das sucessivas mudanças históricas, desde a Antiguidade Tardia, à contemporaneidade, há sempre «fios condutores», e linhas sequenciais, que conseguimos ver - e percorrer, mostrando-os - apesar da imensa variabilidade e dos «cenários complexos», em permanente mudança, com que nos vamos deparando. Mas, pergunta-se:

É um problema, um defeito, ter percebido tudo isso? É um defeito conseguir ser transversal em vários temas e disciplinas? É preciso ser-se apenas, e rigorosamente, formatado, para escrever não mais do que 350 páginas; de altíssima especialização, exclusiva, e à maneira do "Processo de Bolonha"? Se a resposta a estas perguntas for Sim, congratulamo-nos - ironicamente, claro - com o admirável mundo que se está a criar!

O de «investigadores de microscópio», que, quando levantam os olhos, olham (será que vêem...?) a realidade que os envolve, e pouco sabem do mundo onde estão! Não sabem sequer, onde nasce ou se põe o Sol todos os dias...      

   A reflexão seguinte é para os nossos alunos:   

Como é que se pode aprender a projectar, quando é tanto aquilo que se tem que ter presente, em simultâneo, e em cada momento do acto de riscar, e de fazer esboços? Esboços que têm que integrar «um sem número» de intenções? Têm a percepção que uma grande variedade de temas, todos ao mesmo tempo, obrigam a uma grande auto-disciplina? Que obrigam a dividir o problema: a fazer programas, mapas e listas do conjunto de intenções que têm em mente, os quais o vº projecto tem que incluir, para depois a obra os concretizar? Têm a noção que é de tudo um pouco (interdisciplinaridade), que se «alimenta» um designer e um arquitecto: quer na formação, quer já depois nas suas actividades profissionais? Têm a noção que se vierem a ser bons profissionais, vão estar em equipas - integrados ou a coordenar... - com especialistas de outras áreas? Têm a noção que o mundo de hoje, e as nossas profissões, exigem isto: a capacidade de passar (apetece dizer voar) do geral para particular, com grande rapidez e à vontade? Como quem manipula uma «grande-angular», passando logo depois a usar a «tele-objectiva» da máquina fotográfica?

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

* http://ampfigueiredo.com.sapo.pt/ficheiros/recensoes/2001/jacqueline-russ.pdf

ERRATA: na p. 10 deste texto onde está «crepúsculos», deveria estar «corpúsculos»

** Como escreveu Alberoni, "...resultado é que muitos não chegam a aprender a concentrar-se, a aplicar-se, a levar um raciocínio complexo até ao fim..."

Ver em http://www.ionline.pt/conteudo/92474-a-limitacao-oculta-das-criancas-falta-capacidade-se-concentrarem


mais sobre mim
Dezembro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

12
13
18

20
21
25



arquivos
pesquisar neste blog
 
tags

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO