Quem corre por gosto, escreve sobre aquilo que quer, e assim é:
Há dias em conversa sobre esta exposição, alguém nos dizia, absolutamente o contrário, daquilo que pensamos da obra desta artista.
Claro que nos ocorreu, no nosso íntimo, aquilo que já se sabe e infelizmente é comum: a hipótese de haver alguma inveja, ou ciúme, relativamente à visibilidade que a artista adquiriu. Ainda por cima, por ser bastante nova, por não haver a autoridade de outros consagrados (por exemplo, há décadas a de Maria Helena Vieira da Silva).
Consagrações que muitas vezes, também elas foram conseguidas pela acumulação/produção de muitas pequenas obras (ou trabalhos); que, cada um deles, também ía anunciando a existência de olhares vindos do interior, ricos, irónicos, subtis..., que não há Escolas que ensinem e que são próprios de cada um... Sei lá que mais? Visões, olhares interpretativos da realidade, de uma maneira que a maioria dos comuns não temos, mas gostávamos de ter: sendo menos intelectuais «pesadões», muito mais alegres e leves!
Claro que se pode e deve conversar (embora hoje todos pensem que isso é apenas «interagir»...) sobre a obra de Joana Vasconcelos, sem excessos e sem "partis pris".
Tentando compreender o que vai dentro daquela cabeça - mesmo que racionalmente seja difícil fazê-lo - para captar o sentido que põe no seu trabalho.
Porém, no nosso caso, com as notícias que temos lido, sinto-me cilindrada: espanto e admiração, e portanto incapaz de ser imparcial. Embora no fim a autora reconheça algo por que já passámos várias veses: ter feito todo um estudo, com maquettes e antevisões que são sempre optimistas, e sentir-se ultrapassada pela realização: a obra ir para além das melhores expectativas. Resultar bastante mais e melhor do que aquilo que se esperava**, como ficou registado:
"A artista disse estar surpreendida com o resultado: «Entre aquilo que estava projetado, o que se vê é mais extraordinário", disse à Lusa. «Apesar de ter projetado, de ter feito fotomontagens, de ter preparado muito bem esta exposição, fiquei muito surpreendida com a relação das peças com o espaço e com a maneira como elas conseguem manter a sua autonomia e interagir com essa arquitetura muito particular que é Versalhes: superdecorada, superluxuosa, e com uma tendência para abafar tudo aquilo que se ponha lá dentro»"***.
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*Que nos faz perguntar porque é que os portugueses têm (e vivem) com complexos de inferioridade... Ou então se passam para o outro lado, em exacerbamentos futebolísticos? Uma grandeza que escasseia no mais simples «bom senso», de e para o quotidiano?
**Hoje, que com tanta frequência passámos a estar no papel do analista e do crítico das obras feitas - mesmo que sejam as do passado, como têm feito (um pouco) os historiadores - parece-nos que é mais fácil olhar para trás e comentar, do que fazer algo novo: nosso, que se distinga, como no caso referido por Joana Vasconcelos, de um ambiente que há muito parece estar acabado (hermeticamente encerrado). E como tal não admitiria, facilmente, a introdução de novas peças. Que correm o risco de não encontrar (aí) o cenário «quase neutro» que as poderia valorizar.
***http://mulher.sapo.pt/atualidade/noticias/joana-vasconcelos-inaugura-exp-1249232.html