Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
21
Set 21
publicado por primaluce, às 13:30link do post | comentar

"...Marrocos Norte... isto aqui, Lisboa, ou este país, é como se fosse Marrocos, ... só que mais a Norte."

 

Claro que se a frase era provocatória nos últimos anos do séc. XX, agora é pior.

Mas vamos ao que interessa, tanto mais que o anacronismo, ou os atrasos (civilizacionais) a que o meu amigo - o autor dessa frase, se referia - continuam em muitas áreas. Particularmente nesta, dita por aí (i. e., designada como) IGUALDADE DE GÉNERO.

Num post de há dias (17 de Setembro) recolhemos mais dados, recentes, sobre este assunto; estão lá, por isso é fácil ir agora buscar dois links, relativos a duas noticias, qualquer delas bastante «elucidativa»: 

1. Relativo ao adiamento de decisões legais sobre questões da Igualdade de Género - ver em https://diurna.pt/artigos/47daf875

2. Sobre a eterna desqualificação que é imposta às mulheres, que se traduz na desvalorização salarial. Mesmo que não seja só em casa (mas também em muitos locais de trabalho), sejam elas vistas como as únicas suficientemente competentes para resolver os problemas. E assim, claramente, «sobrando» sempre para elas...

SEAside-c.jpg

(da imagem - que não é «bordabo de menina prendada» - ler adiante)

Embora o nosso caso, e o que se passou na FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) esteja para nós ainda muito vivo, mantém-se portanto, e efectiva, a pressão sobre Vítor Serrão*. O que para nós faz todo o sentido! E cada vez mais...

Claro que sobre (des)igualdade de género temos vários outros exemplos**, que até começam em casa:

Como aquele das férias de verão no meio ou final dos anos 60, quando as empregadas (que tinham sido "criadas em casa", eram assim chamadas) passaram a ter direito a um mês de férias. Nesse ano, nessas férias, iria competir às meninas fazerem as camas dos rapazes! 

Mas essa obrigação - que foi das primeiras, logo altamente contestada -, não terá durado mais do que uma semana...?

Ainda num outro exemplo (e claro que há alguns mais, mas escolhe-se este) tivemos que, firmemente, levantar a cabeça ao colega que, tendo ambos sido convidados para participar num Congresso, queria que retirasse alguns elementos curriculares de uma brevissima nota biográfica (minha). Alegando ele, que um prémio relativo a uma obra de Património Arquitectónico, nada tinha a ver com os temas que iriam ser tratados no dito congresso.  

Não sei, não sabemos como será o futuro? Como é habitual é desconhecido. E, lembre-se que geograficamente estamos a Norte do Algarve, que como é sabido foi difícil de conquistar. Pois só deixou de constar, nos títulos reais como reino independente, em 1910***.  

Portanto, dar por adquirido aquilo que ainda nem estabilizou de facto, como acontece com a igualdade de género, e de que somos testemunhas vivas (e hoje também incomodativas) ; quem acreditar que esse dado é consistente ou permanente, é porque está a ir atrás das aparências. Falsíssimas!

Ou, porque somos últimos exemplares de uma espécie em extinção (excepção que por isso sentimos)? Ou por isso batalhamos, e por isso denunciamos todos «os Vítores Serrões desta vida»? E que por isso, apesar dos vários grandes prejuízos - como é todo o tempo que nos roubam, e quando nos fazem «inexistentes»... - , ainda tentamos, por exemplo, ter tempo para desenhar e transformar croquis e imagens, como a que está acima; porque isso nos dá gozo.

Porque estamos a inovar e a prolongar a nossa vida profissional; sabendo que, reunidos vários dos materiais - que existem - poderiam até ser expostos... 

Ou, e ainda também, porque olhamos à volta, e ainda vemos - é obrigatório não desviar o olhar! - porque se vê, sim, uma realidade que ainda inclui o abandono e o desprezo das mães idosas. Ou seja, assiste-se à brutalidade que é o abandono e o esquecimento, em especial das mulheres da geração acima da nossa, como se já não fossem merecedoras de carinho e atenção?

Como se devessem continuar secundarizadas? Já que, ainda por cima com a idade - perdida a utilidade funcional -, ou/e até o valor económico (que sempre tinham tido), devessem agora ficar esquecidas? Tratadas como sobras e resíduos, que teimam em durar e perdurar, num tempo que já não deveria ser o seu, como «produto fora de prazo»?    

 

Salvo se, ainda houver quem tenha sentimentos por elas...

 

E é a pensar nesses «sentimentos possíveis» - que não se vêem, sendo urgente que mudem e existam - que se deixa este texto, inspirador, de Elisabeth Badinter:

“ (...)

É, sobretudo, mais do que tempo de fazer o elogio das virtudes masculinas que não se adquirem nem passivamente, nem facilmente, mas se manifestam em termos de esforço e de exigência. Chamam-se autodomínio, vontade de se superar, gosto do risco e do desafio, resistência à opressão... São as condições da criação,mas também da dignidade. Pertencem a todo o ser humano, como acontece com  as virtudes femininas. Estas conservam o mundo, aquelas fazem recuar os seus limites. Longe de serem incompatíveis são indissociáveis na sua aspiração ao titulo de humanas. Embora uma tradição milenária as tenha oposto, atribuindo-as a um e a outro sexo, tomamos a pouco e pouco consciência de que umas sem as outras ameaçam tornar-se um pesadelo: o autodomínio pode tornar-se neurótico, o gosto do risco ser suicidário, a resistência converter-se em agressão. Inversamente, as virtudes femininas, tão celebradas nos nossos dias, podem, se não forem temperadas com as virtudes masculinas, conduzir à passividade e à subordinação.

As mulheres compreenderam isto um pouco antes dos homens e regozijam-se por encarnarem esta humanidade reconciliada. Mas não têm razão ao espantarem-se com o atraso masculino. Contrariamente à velha história da condenação de Eva, Deus tornou-se seu cúmplice. Não só retirou o poder procriador a Adão para o dar à companheira, como, ao mesmo tempo, concedeu às mulheres o privilégio de nascerem de um ventre do mesmo sexo. Poupou-lhes, assim, todo um trabalho de diferenciação e de oposição que marca, de modo indelével, o destino masculino. O pai/mãe pode atenuar as dores da separação e facilitar a aquisição da identidade masculina, mas não poderá nunca anular os efeitos da fusão originária. Enquanto as mulheres parirem os homens, e XY se desenvolver no seio de XX, será sempre um pouco mais demorado e difícil fazer um homem do que uma mulher. Para se convencer disso, basta imaginar a hipótese inversa: se as mulheres nascessem de um ventre masculino, o que seria do destino feminino?

Quando os homens tomaram consciência desta desvantagem natural, criaram um paliativo cultural de grande envergadura: o sistema patriarcal. Hoje, obrigados a dizerem adeus ao patriarca, têm de reinventar o pai e a virilidade que se segue. As mulheres, que observam ternamente estes mutantes, contêm a respiração...”

Vindo de: XY A IDENTIDADE MASCULINA, Edições ASA, Lisboa, Out. de 1996 (ver pp. 244-245).

No original XY DE L'IDENTITÉ MASCULINE, Éditions Odile Jacob, 1992. 

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* Ele que foi o autor inicial (e principal) de asneiras e disparates que depois vários outros replicaram. Mais disparatado recentemente, depois de 15 anos de silêncio, quando Vítor Serrão teve a lata de querer ser Amigo do Facebook...

**Felizmente não muitos, mas apesar de tudo, os que há, são ainda agora muito eloquentes (capazes de fazerem corar de vergonha, os respectivos protagonistas). A análise desses exemplos poderia ser tratada por diferentes especialistas, como psicólogos e sociólogos, podendo até originar elucubrações bastante ricas e interessantes, como acontece nos ambientes de trabalho. Não só sobre o «nível dos abusos», como, obviamente também, sobre o à-vontade com que se propuseram concretizá-los. Já que, é supostamente nas relações entre iguais (ou entre diferentes, mas que conhecem as respectivas regras comportamentais!); é aí que algo se desequilibra. Levando depois a que uns se sintam com mais poderes, ou ascendente (?), para o usarem, e tentarem abusar, contra e em detrimento dos outros. Na prática, são verdadeiras guerras, desgastantes, em que é preciso estar a lutar constantemente...   

***"Pela Graça de Deus, Rei (ou Rainha) de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor(a) da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc."Vindo daqui.


19
Set 21
publicado por primaluce, às 10:13link do post | comentar

  1. Primaluce: Nova História da Arquitectura - 8

  2. Sobre quem nos abriu portas: conversa aqui, conversa acolá... - 1

  3. Sim, sim - "É para o lado que eu durmo melhor!" (só que agora queixam-se) - 1

  4. "Havemos de ir a Viana" - 1

  5. Sobre a Fábrica da Valentim de Carvalho em Paço de Arcos (que não visitámos) cujo Programa Estético hoje interessa destacar*... - 1


17
Set 21
publicado por primaluce, às 10:00link do post | comentar

Este título que circula em rodapé nas nossas televisões: "Comunicação de planos para igualdade de género adiada dois meses por despacho".

 

Na verdade o dito título dá imenso gozo, por patentear a pressa com que querem despachar um assunto, no qual como se sabe, para as entidades oficiais (legisladoras, governadoras, responsáveis, etc) nem sequer convém haver pressa...

Mais o título vai mesmo bem com este outro, tudo em uníssono que é também dos noticiários do dia  

blog-17.09.2021.jpg

*Pois faz lembrar as mentalidades dos Vítores Serrões deste país...

[Os queridos «pastelões» - indespacháveis sempre (nas suas mentalidades arcanas) -, que vivem e sobretudo viverão no futuro, em estado de negação permanente...]


12
Set 21
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Aqui gostamos muito de todos os RR, desta época do ano:

 

Rentrée, re-entrada, recomeço, regresso... etc.

Por isso a pergunta: lembram-se desta imagem

Pode ser uma ilustração??

 

É claro que havemos de voltar à extrusão... Não pelas idioteiras do V. Serrão - que felizmente ele próprio fez o favor de nos esclarecer (à distância de quase 20 anos, mostra como ainda continua a pensar da mesma maneira) - mas pelo interessante que é, para os Arquitectos*, perceber como o CAD, deu continuidade aos raciocínios mais antigos, relativos ao processo mental para tridimensionlizar. 

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* É que mesmo que os arquitectos não sejam historiadores de arte, muitos, questionam-se naturalmente sobre a origem de muitas das formas que encontram nas obras mais primitivas. Sendo que nem sempre são explicáveis pelo funcionalismo ou como resposta a necessidades estruturais


08
Set 21
publicado por primaluce, às 23:00link do post | comentar

No Fb em 8.09.2021 publicou-se um post (com material vindo do Público) sobre o assunto em tÍtulo 


publicado por primaluce, às 17:00link do post | comentar

Isto - as visitas e as visualizações de ontem - é bom de se ver. 

Mais: é até para nós óptimo de encontrar! Provando que, sobre determinados assuntos há quem saiba o que existe, o que se pode ir ler, e onde está guardado*

  1. Sim, sim - "É para o lado que eu durmo melhor!" (só que agora queixam-se) - 2
  2. Primaluce: Nova História da Arquitectura - 1
  3. Carta a Vítor Serrão... - 1
  4. É tudo gente honestíssima - 1

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*Simultaneamente deixando-nos perceber que deve bater muito certo com as lamúrias recentes de Vítor Serrão.

É óbvio que quem «não anda bem», vai sempre ter que encontrar alguma saída...


02
Ago 21
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

... por tudo isto continua incapaz de aceitar o facto da História da Arte e a Teoria da Arquitectura não colaborarem entre si, respondendo a questões que são essenciais às duas disciplinas (*1):

Essenciais para um esclarecimento mútuo, fazendo esforços de compreensão que cada vez mais se impõem!

Sabemos que este tema daria um livro, mas aqui fica resumido, quanto possível..., sobretudo incompleto

 

A nossa expulsão do IHA da FLUL mostra bem, aliás na perfeição, como de costas viradas uma para a outra, cada disciplina na sua capelinha - o ensino da História da Arte e o da Arquitectura, muito ciosos dos respectivos feitos -, mostram bem como este modus faciendi leva a nada. 

Para escrever este post fui buscar uma revista de Março de 2006, o JA 222, que é preciosa. Onde arquitectos da nossa geração (ou mais novos), foram deixando em entrevistas, depoimentos, reflexões e questionamentos - que alguns têm um historial de séculos - por isso a expressão abaixo, que desde já se sublinha: uma longa história de indagação

 

É exactamente do Editorial da revista que se retira a passagem a seguir, com foco no Programa (de projecto). O qual, muitos -  sejam arquitectos ou não - podem pensar estar na base, e ser a peça essencial, das metodologias de projecto; a ponto de condicionarem a imagem final (design, aparência) da obra arquitectónica:  

"Este tema possui uma longa história de indagação, desde o modernismo, onde o programa adquiriu contornos de aspiração científica, constituindo-se como base de toda uma cultura em torno da programação, conforme João Rocha explícita no seu texto (fazendo ainda a ponte desse universo para o das práticas artísticas). No final da década de 60, a partir de Berkeley, a investigação de Christopher Alexander procurou superar o pensamento modernista sustentado pela causa-efeito, desenvolvendo fórmulas matemáticas, na senda da formalização do inconsciente, passíveis de traduzir e recuperar a relação harmoniosa das culturas nativas com o meio onde viviam. Michel Toussaint propõe-nos uma releitura crítica de «Notes on The Synthesis of Form» (*2)

Mas a referida revista, como se avisou acima é toda ela à volta dos «processos de projecto», sendo para nós interessantíssimo o que Manuel Graças Dias afirma, a propósito de Organigramas (o que também se sublinha):

“ (...)

Quando fiz o curso, no princípio dos anos 70, a situação era confrangedora. A única personagem importante, para mim, na época, era Le Corbusier. Aparentemente – e talvez por haver muito menos informação do que há hoje – não havia muitas mais coisas interessantes a ter em conta.

Mas existiam Venturi e Rossi… Sim, mas Robert Venturi, Aldo Rossi e Louis Kahn só nos foram «apresentados» por Manuel Vicente nas suas aulas, em 1976!

Foi uma década complicada na Escola?

Bem, a Escola foi uma chatice! Antes do 25 de Abril, o que eu estava a fazer, no 4º ano, era um hotel para o prolongamento da Avenida da Liberdade! A única coisa que o Professor queria ver era se tínhamos colocado no sítio certo a secção de enchidos, se havia na cozinha a zona de frios e a zona dos quentes! Depois dava-nos umas aulas aborrecidíssimas com organigramas. E nós fazíamos os organigramas que ele pedia; eu fazia-os, sem o mínimo de pudor! O meu projecto para o hotel era um «organigrama decorado» — porque tinha ido a Londres e tinha visto umas coisas muito interessantes com influência da Art Deco. Isto é, era um equívoco total. Realmente acho que o «moderno», nesse momento, tinha empurrado tudo para um beco sem saída.”

E é verdade, sem pudor e sem grandes problemas - nós também fizemos e depois ensinámos - a partir desses mesmos organigramas (de que M. Graça Dias se queixa). Como é o exemplo a seguir, organigramas que usam círculos, e aos quais Mark Gelernter, que muito provavelmente também os terá feito? (pois todos os fazíamos), depreciativamente ele chama-lhes "bubble diagrams" (*3).

ORGANIGRAMAS0001.JPG

Mas, de entre as frases de M. Graça Dias, queremos acabar este post enfatizando a citação que escolhemos. Quando diz:  "... era um equívoco total (...) o «moderno», nesse momento, tinha empurrado tudo para um beco sem saída...”

Ora em nossa opinião, sem esclarecimentos da História da Arquitectura, e do que foram/são os estilos históricos e como surgiram; em grande parte esse equívoco permanece. Mais, pelo andar da carruagem, vai-se manter durante muito mais tempo... Visto que não é previsível, o nascimento de um outro Christopher Alexander, ou, por exemplo, o de um novo Robert Venturi, que explique, e insista, sobre aquilo que é a "complexidade e a contradição" na Arquitectura. 

Na verdade, os Organigramas - feitos com círculos (ou até com outras formas) - podem continuar a ser necessários e a serem razoavelmente úteis, para ajudar a esquematizar e a vizualizar com rigor científico, os requisitos do programa da obra que se pretende projectar e construir. Por outro lado, sobre aquilo a que M. Graça Dias chama "beco sem saída", não se deduz se aí o impasse era «metodológico», e relativo ao como fazer - no sentido de ter um método. Ou seja, sobre a necessidade de haver um método que, qual ferramenta e como caminho, ajudasse no rigor a ter (o qual se pretendia fosse cientifico).

Método que era portanto uma «peça» obrigatória (incluindo "checklists" ), para que no fim do trabalho não houvesse falhas: entre o que se pretendeu fazer desde o início, e o que de facto veio a ficar feito.

 

Claro que este ponto ainda remete para várias críticas, sendo uma dessas muito frequente: como é o caso dos projectos serem de tal modo a resposta, e tão «agarrados» aos programas funcionais e às actividades previstas desenvolver nos espaços, que, se estas mudarem, rapidamente muitos elementos se tornam obsoletos e redundantes, sendo necessárias adaptações (*4).  Mas, ainda sobre o "beco sem saída", este parece ser mais uma queixa contra o «moderno» - por ter esgotado modelos, e as panóplias de ideias (que pareceriam infindáveis).

Por isso, aqui entenda-se esgotado os vocábulos formais em voga, originando desse modo limites à escolha, e à adopção - ou sobretudo a haver a invenção (como aconteceu ao longo da História da Arquitectura) - de novas formas que, simultaneamente seriam também parte integrante das linguagens estilístico-artísticas dos edifícios.

A questão é complicada, ou, principalmente, é muito complexa, tornando-se difícil de expor.

 

Porque não se está a falar de pintura ou escultura, onde não se entra nem se permanece dentro dessas obras; mas de obras/edifícios que sendo habitadas, tocadas e estando em contacto com os utentes, têm que responder não apenas a programas ergonómicos e funcionais, mas também a programas de ordem visual (que são os «cenários envolventes» dentro dos edifícios. E que no exterior dão forma ao que os paisagistas de língua inglesa  vêem como "townscape".

 

Assim, chamemos-lhes por exemplo - aos vocábulos formais em voga  - "programas semiológicos". Embora com a noção que também se poderia usar a designação "programa estético". E isto que aprendi na Fac. de Letras de Lisboa (com Vítor Serrão...), é um ingrediente, essencial, que se vai buscar à História da Arte, ou mais concretamente à Filosofia, e à Estética, com que a História normalmente trabalha..

Ou seja, deveriam/deverão ser plasmados, ou "built-in", como acontecia no passado - e por isso A.W.N. Pugin escreveu "generated" e "originated by" (*5 - ver nota) - os cenários com que os utentes das edificações e dos espaços projectados, se hão-de relacionar, visual e directamente. 

 

Concluindo:

Na arquitectura contemporânea - estejamos nós a pensar na arquitectura de meados do século XX, ou já na deste século... - os organigramas (das "aulas aborrecidíssimas" de M. Graça Dias) eram funcionais, servindo principalmente para ajudar a «interarticular» zonas e espaços programáticos, necessários. 

Já os "organigramas da estrutura divina", como lhes chamámos e referimos no nosso trabalho sobre Monserrate (ver na p. 13), e que percebemos serem uma constante da arquitectura religiosa cristã - da antiguidade, medieval, renascentista, barroca ... etc. (até se perderem por esquecimento colectivo); a esses organigramas, para os  designarmos, optámos depois pela palavra Ideogramas (*6). 

Pois na verdade foram/são elementos estilísticos, ou ornamentos - a que Robert Smith usava chamar motivos. Por serem também razões, ou peças (mnemotécnicas) destinadas a carregar de sentido religioso/semiológico, as obras assim concebidas (*7).  E onde esses mesmos motivos, ora são superficiais e meramente apostos; ora surgem como elementos estruturantes, que, se forem retirados, põem em perigo a estabilidade das edificações.

Como o são - no exemplo que é hiper-eloquente - os arcos quebrados empregues na arcaria do Aqueduto das Águas Livres, no Vale de Alcântara.

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(*1) Na verdade, pergunta-se, será que a História da Arte tem questões essenciais que gostasse de ver respondidas e esclarecidas, e inclusivamente com alguma urgência? No nosso caso, dado que durante anos ensinámos projectos, sabemos bem da premência e do interesse imenso que há, para todos os que ensinam Arquitectura: concretamente, em conhecer a teoria e a história desta disciplina, ou em termos muito práticos, dominarem a metodologia de trabalho mais aconselhada; concretamente, a aconselhada por aqueles que têm experiência, aos que querem entrar nesta profissão. Acontece que aquilo de que nos apercebemos relativamente às Origens da Arquitectura Gótica, e o que iriam ser os nossos temas de doutoramento, todo esse material seria, no futuro, da maior utilidade para a História da Arquitectura, sua compreensão, e desenvolvimentos futuros.

(*2) A esta obra - Notes on The Synthesis of Form -, de Christopher Alexander, já dedicámos vários posts, alguns recentemente, como neste caso.

(*3) Ver em Mark Gelernter, Sources of Architectural Form..., Manchester University Press, Manchester and New York 2000, p. 263. No futuro, num outro post poderemos vir a escrever ainda mais sobre estes "bubble diagrams" que não vemos como sendo assim tão inúteis, ou sem sentido (como parece ser a opinião de Mark Gelernter). É que se vemos as dificuldades que o seu uso implica, por outro lado também vemos várias das vantagens, que trazem às tarefas projectuais... 

(*4) Para se perceber como alguns programas têm que ser muitissimo exaustivos (e foram-no), aqui seria necessário o leitor conhecer algumas das bases que todos os profs usam/usaram para ensinar: Funções e Exigências de Áreas da Habitação, por Nuno Portas, LNEC, Lisboa 1969, é uma dessas bases; assim como as várias «edições dos Neufert» e dos AJ Metric Handbook.  

(*5) No século XIX, A.W.N. Pugin (1812-1852) escreveu em An Apology for the Revival of Christian Architecture: “Styles are now adopted instead of generated, and ornament and design adapted to, instead of originated by, the edifices themselves.” Vejam aqui o sentido de "built-in"

(*6) Ao chamar Ideogramas seguimos a noção de poder ter havido um código, como escreveu o historiador Jorge Rodrigues, num comentário que fez ao portal do Mosteiro de S. Salvador de Paderne. Ver em Monserrate uma nova Históriaop. cit., p. 34. E sobre Organigramas também nos referimos a eles, várias vezes, sobretudo no início do nosso trabalho dedicado a Monserrate. Naturalmente por estarmos influenciados pela maneira como sempre trabalhámos. Esquemas e Organigramas fazem mais parte do trabalho do arquitecto, do que as preocupações em «fazer bonitinhos»

(*7) Para evitar confusões, geralmente não queremos usar a palavra simbólico, mas em Semiologia, uma imagem simbólica, está no grau mais elevado da «comunicação significante». Portanto, acima poderia escrever-se - "elementos destinados a carregar de sentido simbólico..."


28
Jul 21
publicado por primaluce, às 11:00link do post | comentar

Sempre que algum post interessa mais a alguns (esteja no nosso facebook ou num dos blogs), então há uma «romaria».

 

E assim tem sido nos últimos dias.

Seja a Primaluce,Iconoteologia, ou a Casamarela. 

É verdade que os nomes que demos aos ditos blogs não primam pela beleza; mas - sobretudo em ICONOTEOLOGIA - o que se procurou foi divulgar um conceito que está atrás de uma palavra que, é poderosamente significante.

E, é ainda mais verdade, não ficámos embevecidos a mostrar que sabemos as diferenças entre Iconologia e Iconografia , à maneira dos «adoradores» de Panofsky; ou do que se ouviu/ouvia na FLUL, no início do século XXI. Que é como quem diz, bem mais de 50 anos depois de ter sido escrito (tal a actualidade!).

Diferentemente, aproveitámos o que se aprendeu em óptimos livros da biblioteca da UCP: concretamente sobre a percepção que muitos têm daquilo a que todos chamam ARTE: ou seja, que em geral é uma Iconoteologia.

Porém, se ontem foi assim, nas visitas que tivemos:

  1. Primaluce: Nova História da Arquitectura - 3
  2. Um dos blogs mais bonitos... - 2
  3. Quanto maior a evidência, ou a importância das novidades e valor da notícia... - 2
  4. Sim, sim - "É para o lado que eu durmo melhor!" (só que agora queixam-se) - 2
  5. Sobre a formação do olhar de uma nação, relativamente à sua Arte - 2
  6. Uma elipse não é uma oval, mesmo que muitas destas formas pareçam iguais - 1
  7. É tudo gente honestíssima - 1
  8. Retratos de "Uma Barbárie" - 1
  9. Factos inesperados (isto é, super-inesperados como nos aconteceu desde 2002) - 1
  10. Sempre que surgem informações... - 1

Acontece que a 30 dias (ou a 6 meses) os que procuram este nosso blog - e bem ao contrário do que possa parecer - não são assim tão poucos...

Estastíticas28.07.2021.jpg

Estastíticas.jpg

 

No entanto, o que esses todos são é muito discretos; embora, ou principalmente, possamos dizer que são muito contraditórios!

O que é mais uma razão para continuarmos a escrever, e desta maneira continuando a publicar as nossas ideias.

Sabendo nós que os nossos leitores habituais primam pelo silêncio; ou, se falam do que escrevemos, muitos deles mostram-se desdenhosos, como se fizessem questão em não se deixarem influenciar por aquilo que abertamente eles  apoucam. Como é o caso de Vítor Serrão, Maria João Baptista Neto «e família»... Já que, é este o sentido da palavra desdenhar.  

Mais: se esses forem aos meios de comunicação de maior audiência, o que eles dizem - e se lhes ouve (pois não somos surdos!) - é, ipsis verbis, aquilo que nós escrevemos*: seja aquilo que leram no livro, ou o que muitos vêm ler aqui aos vários posts.

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*Embora, temos que o dizer, também aconteça haver nalgumas citações que vamos encontrando do nosso trabalho, algum erro. Como está no texto seguinte, quando se diz que em Lisboa, um amigo de Gérard De Visme, era irmão de Horace Walpole. Na verdade o erro está em que Robert Walpole - enviado/embaixador do governo inglês - era primo de Horace, e não seu irmão. É esse o erro.

No restante parece-nos correcto, este excerto que encontrámos em O REAL PAÇO ACASTELADO DA PENA EM SINTRA: EDIFICAÇÃO DE CASTELOS NEOMEDIEVAIS OITOCENTISTAS. Da autoria de Joaquim Rodrigues dos Santos (na Escuela Técnica Superior de Arquitectura y Geodesia - Universidad de Alcalá de Henares:

"As relações entre Monserrate e o mundo britânico não ficariam somente pelo seu projectista, pelo seu
proprietário ou pela decisiva influência romântica recebida: segundo Glória Coutinho, existiriam prováveis
relações de proximidade entre De Visme e o escritor britânico Horace Walpole através do irmão deste
último, que estaria por aquela época a viver em Lisboa; inclusivamente tinham sido comprados nesta cidade alguns dos móveis que Walpole possuía na sua residência de Strawberry Hill, provenientes de Goa6.
"Também o novelista britânico William Thomas Beckford viveu em Monserrate entre 1774 e 1799, antes de
voltar ao Reino Unido. Walpole e Beckford foram indubitavelmente dois personagens significativos para o
desenvolvimento dos revivalismos neogóticos no Reino Unido.
Walpole, considerado o introdutor do romance gótico negro no Reino Unido com o seu poema The
Castle of Otranto[…]7, tinha comprado em 1747 a residência de Strawberry Hill em Twickenham, perto de
Londres. Dois anos depois iniciou a sua ampliação apoiando-se num comité de consultoria constituído por
projectistas como William Robinson, John Chute, Richard Bentley, James Essex e James Wyatt. Imbuído
pelo espírito romântico dos ideais cavaleirescos, o excêntrico novelista pretendia transformar a sua residência num castelo, promovendo uma disposição pitoresca do edifício que aludía aos cenários da sua obra
literária. A fantasia e extravagância dos fragmentos góticos, livremente interpretados e incluídos na sua
construção, concediam assim um ambiente de carácter goticista."

Excerto retirado de um pdf a que podem aceder indo por aqui


25
Jul 21
publicado por primaluce, às 17:00link do post | comentar

Quando alguém abre um caminho...

 

Sim, quando alguém abre um caminho, depois muitos outros, muitas mais áreas territoriais passam a estar acessíveis. Visíveis, compreendidas e compreensíveis para a maioria.

E aqui neste post, poderíamos até não escrever mais, já que tudo se encaixa e está à vista nos textos abaixo (e se preciso ampliem-nos para ler, ou abram ainda este link, se quiserem perceber melhor).

 

Mas, vá lá! Ainda fica mais esta ajudinha:

De Vítor Serrão - já escrevemos o bastante sobre ele - tem sido um «personagem» da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cheio de mérito, ... até que, de tanto mérito, e mais muita auto-propaganda, para nós caiu do pedestal.

E caiu por ele, pois aliás fez tudo para isso acontecer.

De Maria João Baptista Neto - quem também teve imensos méritos - e para nós bem mais do que ele; só que, idem aspas, ela própria também decidiu saltar da peanha; mas fê-lo com tanto azar, e a pontaria foi tal, que calhou logo dentro dos"meus sapatinhos".  

Depois, e já que posta fora de jogo a autora inicial (que somos nós), então tratou-se de aproveitar e fazer a festa: i. e., «calçar» também a família...

Ou seja, "passou a ser tudo nosso!" Não meu, mas que é como quem diz deles, dos da FLUL e seus responsáveis*.

Agradecimentos-Monserrate-h.jpg

MonserrateRevisitado-TeresaNeto-f.jpg

Felizmente este é um caso, ou uma estória, em que está tudo escrito:

Quer no nosso trabalho publicado com o título Monserrate uma Nova História, Livros Horizonte 2008 (donde vem a imagem superior).

Quer ainda, e como também consta escrito, no Catálogo da exposição Monserrate Revisitado (inaugurada em 2017, a que se refere o texto da segunda imagem); e aí, concretamente, sobre a nossa colaboração para a mesma...**

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ 

* É verdade que a parte mais importante do nosso trabalho - a descoberta das Origens do Gótico (que aconteceu a propósito de Monserrate) ainda está silenciada pela FLUL. Assunto que, contrariamente, nós já deixámos no nosso livro suficientemente esclarecido e delimitado, e que afinal nos mereceu a tão honrosa expulsão da Fac. de Letras 

**Não se surpreendam, pois na verdade aqui só há verdades (apesar da ironia posta no título) 


19
Jul 21
publicado por primaluce, às 16:30link do post | comentar

Hoje produzem-se Informações Visuais  - por exemplo sinalizações, obras de design e obras de arte – naturalmente, com base e de acordo, com as lógicas e o Saber actual.

Se quiserem, dito de outro modo, esses elementos visuais são agora produzidos e trabalhados em conformidade com os ensinamentos escolares, ou a Ciência actual que acontece nas Universidades e Escolas

Ora o mesmo se passava há 500 anos, tal como antes, seja  há oitocentos anos ou até mesmo há milhares de anos.

É por isso um verdadeiro anacronismo querer entender obras antigas apenas com as lógicas de hoje:

Olhamos para elas - já se escreveu - como que estando infectados pelo PRESENTE; ou, estando imbuídos de um «presentismo» que, simplesmente, ignora o passado.

Claro que é uma atitude ignorante, porque se queremos dialogar - e neste caso de certo modo é como dialogar com um sujeito (que é o) passado – então é forçoso conhecer o outro, esse interlocutor que não se apreende facilmente.

Porém, alguns podem já ter ouvido falar em ARTES LIBERAIS.  

 

trivium-180dpi-b.jpg

 

E, analogamente, como hoje acontece, perceberem que essas Artes e as disciplinas que as constituem foram minimamente organizadas e estruturadas. Não tanto, e não tão exaustivamente, quanto se passa com as Ciências actuais (veja-se o «catálogo» das áreas cientificas da FCT), mas a verdade é que o foram...

Assim a nossa imagem é alusiva (ou mnemotécnica) desse conjunto de saberes cuja «organização» é atribuída a Martianus Capella.

Já agora, note-se que na organização de Martianus Capella é ainda curiosa ou interessantíssima a analogia que o mesmo fez entre os Conhecimentos e a própria Vida, ao referir-se às Bodas (com o sentido de união/casamento) de Filologia com Mercúrio...

Neste link ver On the Marriage of Philology and Mercury:

no que é uma alegoria muitíssimo completa e elaborada...

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E, por outras razões muito nossas, fica também este outro link

 


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