Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Nov 16
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

... de bem mais de meia centena de estudos de mestrado e lembrarmo-nos de Maria Alice Beaumont:

 

Concretamente do que escreveu num preâmbulo a propósito do Arcanjo S. Miguel (obra do séc. XV) do MNAA, proveniente da Colecção Vilhena. Enfim, é mais uma daquelas traições que a memória nos prega: porque é lembrarmo-nos de frases e ideias muitíssimo eloquentes, aplicáveis a mais um conjuntos díspar de objectos que se reúnem (ou encontram), por razões quase inexplicáveis ou até incrivelmente aleatórias*.

E apesar de previamente termos algumas/várias ideias dessas colecções ou conjuntos, pode-nos suceder que ao contactar tal junção, então, ainda mais outras e novas ideias, venham a nascer? E isto pela muito simples razão de que temos confiança nas nossas próprias ideias... Ou, mais simples ainda, por termos sido treinados - terá sido dos 12 aos 22 anos (ou bem mais cedo?), em actividades que ajudando a superar crises de asma foram depois também treinos para o desenvolver de outras capacidades. Importa pouco como aconteceu, certo é que resultou no que se constata: educados a ter ideias originais, a tentar olhar (e a ver) o mundo com olhos e ângulos diferentes do que é mais habitual. Em contemplação de paisagens, a ver a planície e os meandros dos rios; nas densidades diferentes de azul a ver surgir os planos das montanhas, ao fundo, a rematarem as vistas.

O muito que já se agradeceu, devemo-lo primeiro às pessoas da família, mas também a alguns de fora, com quem cedo contactámos. E para este caso, e para as ideias sobre «os coleccionismos», concretamente à própria Maria Alice Beaumont.       

Claro que sobre colecções também nos ocorrem autores que não conhecemos (a não ser pelas obras), como Helena Vieira da Silva, particularmente flashs de imagens que produziu e reuniu; objectos cuja singularidade (características, formas) a levaram a registar, enfaticamente, essas reuniões que fazia ou encontrava...

Idem, para a Vertigem das Listas, em que está Umberto Eco. Tão longe, mas que - para quem ainda se lembra - foi cedo que contactámos a sua Obra Aberta: um marco essencial da nossa formação, quando (só) em aulas de arquitectura se começava a falar deste autor.

Enfim, certo e sabido seria impossível conseguir ficar igual e «alheada» depois de dar um mergulho numa pequeníssima amostra de estudos, que alguns (supõe-se), terão sido feitos a querer dar o melhor de si? Mas entre o querer e o conseguir, sabe-se bem, pode sempre haver distâncias, as mais variadas...

Pois cada objecto de uma colecção, é, ou foi-o na sua concepção e produção, primeiro desejo, depois projecto, depois concretização e por fim obra feita. Que desde então cada um passa a ver (se minimamente a olhar, e depois a conseguir ver/compreender), segundo U. Eco, de acordo com as suas próprias circunstâncias, interpretações, capacidades de leitura...

Assim voltamos à Colecção Vilhena de que Maria Alice Beaumont se limitou a destacar uma obra: o Arcanjo S. Miguel, para a pôr a par de outras obras que iriam integrar um livro seu, de uma outra colecção (a que chama série) que o editor Chaves Ferreira quis publicar sob o titulo de "A minha escolha". 

Repare-se pois (abaixo) nas palavras da autora, e como ela viu aquilo a que também nós nunca seremos indiferentes: como sendo o mundo feito de variedade, de séries, de ideias, de temas, de saberes, de acções, de escolhas, de vontades e de inércias; do amorfo e do vibrante, do bom e do mau, etc., etc. - tal como em "... les semailles et les moissons...", muitas dessas realidades estão/estarão sempre em movimento, resultante do seu próprio dinamismo (ou da sua força, como é o caso do S. Miguel).

Deste modo (e tendo presente que as livrarias e bibliotecas também podem ser os melhores lugares para se «perderem livros»), veja-se como a um «bolo global» - que também andou em bolandas - M. A. Beaumont foi buscar o que entendia ser o melhor. Notem-se as palavras que usou para mostrar aos leitores como há que fazer distinções: 

"O coleccionismo é um fenómeno psicológico que, inocente em princí­pio, adquire por vezes facetas muito peculiares. As suas motivações também são diversas, embora radiquem sempre no gosto de possuir. Possuir porque se tem amor aos objectos, possuir por competição de ter melhor ou o maior número; especializar-se no conhecimento daquelas espécies, confiar no saber alheio para a escolha; mostrar com orgulho ou generosidade, escon­der com temor ou avareza; entrar no jogo da descoberta e da troca; finalmente, procurar a continuidade na família, deixar com abnegação e modéstia ou perpetuar-se com alguma vaidade e orgulho nas condições de um legado — eis, em resumo, algumas facetas variadas do coleccionismo.

Introduzo estas palavras para se entender o quase vazio da ficha de inventário desta peça que pertenceu ao coleccionador comandante Ernesto de Vilhena. Mais de um milhar e meio de esculturas, medievais e renascen­tistas na sua maioria, deram entrada no Museu Nacional de Arte Antiga em 1980, tendo sido legadas ao Estado. Poucas são, porém, as que têm indi­cação de proveniência.

Qual seria o critério que as reuniu? Muitas estão próximas no assunto, época e tipologia. Dado o seu elevado número e as deslocações a que as obras no Museu as. submeteram, recordo-me de as ver agrupadas em pequenas multidões, como um exército de Virgens e santos a que presidiam também Santíssimas Trindades, aguardando um espaço essencial para se acomodarem ou um especial para se exporem.

O S. Miguel de que aqui falo é uma das melhores destas esculturas..."

mnaa-col.Vilhena-EscolhaMªA.BEAUMONT.jpg

(clic para legenda)

Como para conseguir ensinar é preciso recolher exemplos que se classificam, ordenam, e sobretudo qualificam:

Porque a quantificação vale quase zero face à qualificação

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*Encontram juntos, muito embora ainda atomizados, pois cada continua um mantendo a sua autonomia: por não se ter formado, nessa sua junção, alguma nova realidade: ou um sintagma! Que fosse científico, ciência, saber, amanhã, utilidade!..

Acrescentando hoje (25.11.2016), nada que não se saiba, e vá encontrando, infelizmente. Nos muitos que nos vão dizendo que está tudo bem, quando se vê é exactamente o oposto

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