Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Out 16
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Mais, se há alguém doutorado, catedrático, reitor da «melhor escola» de Design (afirmação que é sem dúvida alguma, e absolutamente, inequívoca), então esse alguém, de certeza que conhece - pois é um must óbvio -, a maioria das estórias (e a História), que Victor Manuel Marinho de Almeida conseguiu reunir.

 

Para começar, há que o dizer, por nós, e ao contrário do que está no titulo, já que há verdades que andam demasiado mal contadas - ou será apenas obnubiladas por muito Doutas Intelligentsias (?); vamos ter que ir contando diversos episódios ocorridos, e alguns dos seus aspectos, que hoje são mais curiosos: O que em inglês ou francês (que não em português, e em vez de «estórias») seriam anecdotes*.

Pois se para alguns é divertido adiantar o futuro, para nós, agora, muito mais divertido é "olhar de 2016 para 1984". E isto que se pode pensar ser a vontade de inventar uma "G. Orwellice" qualquer, não é nada disso.

Apesar de termos que lembrar a todos os outros leitores (é um aviso aos que por aqui vão passando), que, é um dado adquirido, todos dias, neste blog há um visitante que, ele próprio, se armou em Big Brother**. E por isso, então passa por cá... 

Mas "o nosso 1984" é apenas um marco. A certeza de que, por essa altura, i. e., um ano antes de termos ido ao IST fazer uma pós-graduação, já António Quadros tinha tido a ideia, várias vezes (e portanto várias vezes, frequente e repetidamente, até antes de 1984), ele vinha a expressá-la em conversas com os professores: a vontade de tornar o principal curso do IADE, a instituição que tinha fundado, em Curso Superior. O que terá levado sem dúvida, e ainda há quem goze agora dessa fama, sem que nada tenha feito para a mesma, à chamada "Europe's Top 100".

Eram aliás giríssimas, nessas muitas reuniões que se iam fazendo (em número muitíssimo maior do que todas as que se possam ter realizado depois de 1997), as diferentes reacções de uma boa parte dos professores. Sobretudo as perguntas com que todos se entreolhavam, e lhe iam colocando:

Mas oh doutor como é que isso possível?! Com as nossas formações e habilitações, como é que vamos passar a profs de um curso e de uma escola superior? 

E era vê-lo. Ao humanista-sonhador que foi António Quadros. Com toda a sua genuína honestidade, bondade (ou um espantoso "flowing in the sky..."?). Era vê-lo! O que, aliás, é forçoso comparar com o que se passa hoje: Claramente que, a milhas dos comportamentos do tal Big Brother de agora.

Ele - A. Quadros - começava então a fazer os maiores dos elogios aos professores e ao corpo docente que tinha reunido à sua volta. E por quem, estava a fazer, tudo por tudo, implicitamente, para os promover. Comparando com hoje, dir-se-á que os tempos eram outros, que eram precisos pioneiros, que A. Quadros cumpriu esse papel essencial, e que se não fosse ele, outro, ou muitos outros, teriam surgido e teriam cumprido esse papel, que a história havia de exigir?

Sim, sim, dir-se-á muita coisa. Pois podiam ser pessoas e tipos históricos, até com comportamentos históricos e para a grande História. E até se pode dizer que a história do IADE (vista agora) é um somatório de equívocos. O que seria talvez a maior das verdades?, no contexto em que estamos do Ensino Superior?*** 

Talvez até se esqueça que todos eram muito mais genuínos, e honestos (dirão que ainda não tinham perdido a ingenuidade?) do que hoje «a malta» é...

Digam o que disserem, sabemos o que vivemos! Lembramo-nos bem pelo que passámos, felizmente!

A. Quadros não era um santo, detentor da bondade máxima e assim chegado à terra... Nem pensar, mas que fez uma escola onde era bom estar, divertido ensinar, uma quase família, que levou a que muitos falassem da camisola que nunca, por nunca, iriam despir (!), é verdade. Olha o pivete!

Assim, com todo o tempo que passou, evoluções e as mais que naturais, e frequentes, desvirtuações (que se lamentam, no que diz respeito ao melhor do projecto inicial), ainda agora se sente, em alguns comportamentos mais obsessivos, uma fixação desmedida, daquilo que o IADE foi. Como se fosse um «clubinho» e não uma escola...

Porém, há que referir, que depois dos Profs Fundadores, houve outros convites e outros recrutados: alguns ex-alunos, os melhores, mas escolhidos a dedo (e recordam-se os casos de pessoas que foram preteridas, os melhores dos melhores, por meros preconceitos ridículos...); enfim, a verdade é que sobretudo se recrutavam arquitectos. Já que lhe parecia (e esse terá sido o nosso caso, como sempre supusemos, e demos por adquirido, até porque mais ou menos o explicou assim...) que era necessário fazer-se um trabalho de continuidade, por pessoas de competência reconhecida, e não tanto pelas «estrelas», que eram mais «da fachada e da montra», as personalidades mais conhecidas.

Estrelas que existiam, pois eram pessoas que sendo profs do iade eram também, antes disso, os responsáveis em Museus ou outras organizações. E que portanto, sempre que houvesse uma exposição internacional - e a certa altura houve muitas, concomitantes com a entrada na CEE - tinham que estar nos seus postos/empregos oficiais (no Estado), deixando mais para trás as suas actividades do IADE.

Actividades, isto é as aulas (que decorriam em ambiente de ateliers), que ficavam entregues a outros colaboradores, que, diga-se de passagem, não sendo as estrelas das revistas ou da comunicação social, eram as maiores e as mais eficazes das estrelas: junto dos seus alunos, razão de ser da escola. 

E é aqui, aliás mais precisamente nas diferenças de género, que o feminino era o mais competente, ou, como quem diz, sempre o muito mais fazedor. E depois de nós, qualquer outra arquitecta que chegasse ao IADE (no feminino pois nunca foi assim no masculino, já que os arquitectos eram os sinónimos vivos da palavra projectista); fossem quais fossem as «habilidades» dessas senhoras, lá teriam que ir ensinar Tecnologia de Materiais ou Higiene e Conforto. Porque esse caminho tinha sido desenhado por alguém... 

Eram então profs. algumas antigas alunas da ESBAL ou já do próprio IADE - que aí se tinham feito, foneticamente «dezáiners» (carregado ao máximo). Todos passávamos pelas montras da Sopal e da Unika, e as profs. mantinham-se fazedoras da maioria dos trabalhos de base e de sapa: a quem não se dava estatuto ou visibilidade, mas que estavam lá, como as rochas estão, e aparecem sempre, na hora da maré vazia.

Ficava o estrelato para «os masculinos», que eram claramente «apaparicados» (por quase todas, fossem profs. ou o «pessoal da secretaria»...), o que era definitivamente incontestado, natural, ou obrigatoriamente um "accompli".

Claro que aqui entra a nossa «rebeldia», ou, a imensa chatice que pode ter sido para alguns (dos pobres coitados!): o que era mais normal, era refilarmos forte, sempre que os tivéssemos que pôr na ordem. Portanto, abusos sérios ou graves, nunca os houve (nem haverá!). Sendo que, nalguns casos, A. Quadros chegou a seguir alguma das nossas lógicas, tendo afastado «uns estrelinhas» que andavam demasiado convencidos...

São histórias, histórias e mais histórias, no fundo da História de uma certa introdução do design em Portugal. Em que as ditas anecdotes, têm o seu lugar. Também histórias de quem teve a sorte de fazer «trabalhos de sapa», em ateliers, ou no IADE, sem que lhe tivessem caído os parentes na lama. E a ponto de hoje poder questionar, se haverá muitas pessoas, por aqui ou mais longe, que tenham experimentado ou vivido, profissionalmente, na arquitectura, ao menos 1/10 daquilo por que passámos, com que nos enriquecemos e divertimos, também profissionalmente?

O CV é enorme, e hiper-diversificado, chegando, mais recentemente, a concretizar e a publicar um trabalho inovador como é nosso, sobre Monserrate. Isto é, tendo tido a oportunidade de poder ainda reflectir a sua própria profissão, com uma muito razoável profundidade: como a mesma se exercia, e ainda como nasceu, ou se institucionalizou, principalmente em Inglaterra, seguindo a figura do Architect Amateur 

Podendo assim perceber, bastante mais para trás (do que parece uma linha vermelha ou um limiar que não se transpõe facilmente), do que aquilo que Nikolaus Pevsner colocou nos Pioneiros do Desenho Moderno.

Que viva a autenticidade, que fiquem marcas dos inovadores, como foi A. Quadros, e tantos, tantos arquitectos que pudemos conhecer, por várias das nossas andanças...

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*Como está no meu Larrousse: "(...) Récit succint d'un fait piquant, curieux ou peut connu". E mais do que o picante, é o pouco conhecido de episódios vividos, que agora ajudam a contextualizar os tempos e os cenários que se viviam, e nós vivemos.

**Porque é assim, a autonomia do Ensino Superior, como está na Lei, permite estas coisas. Mesmo que ninguém lhe tenha encomendado essa missão (ou de quem não pode estar bem com a sua consciência...) Ou seja, a de quem sabe que ultrapassou, e muito, todas as normais baias da legalidade (pois não nos referimos a uma consciência moral mas sim ao legal!): De qualquer forma é muito bem vindo, para que conheça - com ciência - aquilo que tem que saber, já que por aqui não há ingénuos.   

***Que o responda quem souber, e conseguir ser tão independente como tentamos e nos consideramos, ao olhar para esta questão...


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