Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
07
Fev 18
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

...para a historiografia e para uma melhor compreensão do que se passou. Ideias formuladas por quem estudou e conheceu bem a evolução da arquitectura: dos primórdios até meados de oitocentos.

Aqui um excerto escolhido de - On The Revival, by A.W.N. PUGIN:

 

“Styles are now adopted instead of generated (…)”*. Frase que sintetiza, em tão poucas palavras, a escolha por vezes muito variada - e a parecer tão aleatória - das tipologias arquitectónicas, da que é chamada agora (especialmente por aqui), em Cascais, "Arquitectura de Veraneio".

Principalmente explica, o que se passou no século XIX: quando os «arquitectos» se aperceberam da existência de uma enorme variedade de estilos; vindos da História (em geral, e da Arte em particular) que se estava a organizar. E vindos também de uma noção de Conveniência (ou Décor), que levou a que se pensasse que cada estilo seria mais apropriado para esta, ou para aquela outra, utilização funcional.

Se «disparam», em número, as tipologias dos edificios, já que passaram a existir Estações Ferroviárias (que alojavam magnificamente as gares dos comboios) - para servir um grande número de pessoas e prestar serviços até então inexistentes; novos (e enormes) Hotéis, grandes Espaços de Espectáculos (tendo estes buscado o modelo do Coliseu de Roma, por exemplo); ou ainda as Feiras Industriais, Museus, como munca antes tinham concebidos... Grandes Estufas - com a criação artificial de diferentes climas, etc. etc. Enfim, todos estes novos projectos, que se começaram a especializar em utilizações diferentes, os respectivos autores questionavam-se (e muito frequentemente foram buscar ao passado) sobre as formas estilisticas que seriam as mais adequadas para as novas funções e actividades. Por isso a palavra adoptar usada por Pugin.

Mas ainda a mesma frase - “Styles are now adopted..." também explica várias reacções (furiosas) vindas de Ramalho Ortigão. Quem sabe (?), conhecedor do que se estaria a fazer noutros países, concretamente em Inglaterra. Onde, desde o século XVIII até meados do século XIX, por razões históricas - que foram também religiosas, se tinha incentivado (imenso) o emprego do Estilo Gótico.

De José-Augusto França e A ARTE EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX, retiram-se comentários ao que se fez em Cascais e no Estoril:

j.a-frança 001-b.jpg

(ampliar)

Ramalho chamou "Horto Psiquiátrico" aos Estoris, clamou por uma Arquitectura que se assemelhasse à casa do Conde de Arnoso - agora à entrada da Marina de Cascais, e vista com uma imensidão de mastros atrás (em vez do mar e da linha do horizonte). E assim colocando, para um futuro próximo, a questão da «casa portuguesa»**.

A. W. N. Pugin - que viveu entre 1812 e 1852, era filho de A. C. Pugin, também ele desenhador de arquitectura (ou um Amateur, como foram chamados em Inglaterra). E apesar de A. W. N. Pugin ter vivido apenas 40 anos, como se sabe impulsionou fortemente o Revivalismo Gótico.

Em geral, tudo o que se escreveu acima, incluindo o último parágrafo (o anterior), está de acordo com o que pesquisámos, concluímos e ficou escrito em Monserrate uma Nova História - cuja redacção ficou terminada em 30 de Setembro de 2004. Só que dessa data para a frente, lemos muito mais e pudemos interligar e compreender ainda mais. Concretamente, a citada frase de Pugin - “Styles are now adopted..." (e mais o que vem a seguir).

Pois com muito mais tempo, e toda a maturação de ideias que pudemos fazer de 2004 até agora, passou a ser muito mais clara e uma óptima prova de que os Estilos não eram algo já pronto e definitivo, destinado a vestir os edifícios.Como em geral a Historiografia da Arte, pelo menos aqui em Portugal tem feito (e nas universidades ensina a fazer).

Contrariamente, deduz-se, e como Pugin escreveu, que cada edificação (antes de 1800 seria assim claramente): uma nova associação de detalhes e elementos construtivos; também de ornamentos. Uma reunião ou associação nunca antes vista. O que em Semiologia é chamada um Sintagma. 

Porém, mais tarde - e esta é uma dinâmica que percorre toda a História da Arte (já que houve períodos e há exemplos, em que a repetição de um paradigma era quase infindável). Mais tarde, repete-se, se essa obra fosse monumental, memorial, ou especialmente harmónica e bonita (ou até que tivesse sido um enorme sucesso...), depois era muito provável que se viesse a tornar num modelo. E algumas partes ou o todo desse novo modelo - ou seja o referido paradigma - o mesmo passaria a ser repetido. Interminavelmente, ou um enjoo como há muitos anos nos aconteceu (1971?) na região de Paris, Chartes, etc.

Por fim, sobre A.W.N. Pugin e os seus contributos para a História da Arquitectura, lembre-se que um dos mais conhecidos foi a colaboração com Charles Barry na obra das Houses of Parliament. Sendo também autor de várias obras escritas, as quais, entre nós (como demonstra a frase que deu origem a este post) são ainda razoavelmente desconhecidas...*** 

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*http://iconoteologia.blogs.sapo.pt/pugin-as-formas-arquitectonicas-e-os-92847

**Ver José-Augusto França, op. cit., segundo volume, p. 166.

***Como por exemplo a ideia de que os telhados altos, com grandes declives, seriam assim para fazer deslizar a neve: sabemos que Pugin a refere. Mas terá sido ele o primeiro autor desta "boutade arquitectónica"? Quem sabe? Quem nos responde, já que tantas vezes se ouve, ...mas parece não fazer nenhum sentido!


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