Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Fev 17
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Claro que há o apelo:

É fantástico poder usar meios poderosos que simplificam tarefas, que permitem repetir n vezes, uma grelha base sem ter que a redesenhar desde o princípio, como antes acontecia com os desenhos de arquitectura

 

Durante anos, afixado na porta do gabinete de «uma das nossas colegas» esteve um desenho de Leonardo da Vinci (qual mnemotécnica, ainda na R. Capelo, portanto antes de 1997...), que cada vez que aí passava me levava a pensar como há (5-6?) séculos alguns dos ingredientes do labor arquitectónico, eram sempre os mesmos. Nada mudara.

Claro que estava a reparar nisto quando o AutoCad começou a tentar fazer mudar alguma coisa; ou seja, quando uns «certos sábios», parecia, se estavam a preparar para se demitirem de pensar ou criar, para deixarem que o computador fizesse tudo por eles...

E o divertido, é que ainda agora os alunos tratam com a maior arrogância os meios de que já poderiam dispor, se lhes percebessem o alcance e as potencialidades. A sua arrogância vem aliás, exactamente, de se colocarem muito acima das máquinas e do software, sem a menor a capacidade de perceberem que para se chegar ali foi preciso imenso trabalho (humilde). Quando eles próprios esperam que o mais simples teclar, sem trabalho nem imaginação, lhes dê, automaticamente, soluções ou obras prontas: qual fada, ou qual festival de magia! Onde, aparentemente as coisas se fazem por si, sem nenhuma intervenção, nem sequer a da mente do seu autor!

Enfim, a nossa situação é bem diferente, e o nosso respeito pelos computadores é imenso. Mais, dada «a desaceleração» que nos têm imposto, podemos agora gozá-los. Sobretudo com a máxima liberdade e nas áreas mais artísticas. E não propriamente naquilo que, pelo menos desde L. da Vinci, é uma constante da arquitectura: i. e., na execução de Desenhos/Vistas planimétricas (bidimensionais), em que o rigor do desenho era exaustivo*. E em que os edifícios - que assim crescem (ou assim se projectavam), era como se se tratasse de uma extrusão, feita a partir do plano horizontal (Planta) para cima ou para baixo desta, segundo um eixo vertical.

Ou ainda - para os arquitectos que nas suas obras se preocupem igualmente com a feição vertical do edifício (e por vezes não são muitos...!) - nesses casos, a partir de um Alçado ou de um Corte, fazem deslizar a referida extrusão segundo um eixo horizontal, que, em geral, é perpendicular ao plano da Fachada ou ao do dito Corte. 

Claro que este post é especialmente abstracto, difícil, naturalmente para os historiadores da arte (e para designers incompletos). Mas, ao escrever tudo isto, lembramo-nos de Erwin Panofsky, e de algumas das suas afirmações (ou achados?) sobre o surgir da Perspectiva**.

Porém, essa questão é ainda mais complicada, mesmo para nós, pois é difícil de expor (em texto ou imagens paradas - o que dava jeito seria um filme...), para o cruzar de uma bidimensionalidade horizontal, com a bidimensionalidade vertical.   

Só que este post começou inspirado por 2' 59'' sobre videojogos e realidade virtual (que se quer fazer real), e foi agregando os temas que de facto nos dizem mais respeito...

E no nosso caso, sem o menor exagero, andamos hoje a aproveitar o melhor das novas tecnologias, e portanto  ao escrever, desviámo-nos para um tema que merecia um bom filminho: vídeo capaz de explicar o «salto conceptual» (ou projectual/mental) que no fim da Idade Média fez transitar de uma extrusão do Alçado (bidimensional), para um tipo de arquitectura, nova, que se preocupa, aparentemente, menos com os desenhos dos ideogramas, sempre inseridos em paramentos avançados, panos ou porções de paredes, e que prefere ver, ou viver em cenários abertos, com espaços não-seccionados...

E quem souber a história do projecto e da construção do edifício do Guggenheim de Bilbao, de Frank Gehry talvez nos entenda?! Ou, no caso de um médico, para que serve à medicina, e se faz a leitura dos diferentes cortes todos paralelos segundo um eixo, de uma Tomografia Axial Computorizada.

Terá sido só de tecnologia que hoje escrevemos (!?), que pode ser usada bem ou abusivamente, como aqui se mostra, e fomos inspirados...***

~~~~~~~~~~~~

*Em que durante horas se estava num estirador, aturadamente a desenhar as faces das paredes, com 2 traços que entre si deviam distar 3,5 milímetros, 1,5 milímetro, ou 2 milímetros, conforme o que estivesse a ser pensado. E se isso não acontecesse, no fim, independentemente das cotas escritas/dadas, por o nosso "numérique" ser então super-artesanal (já que ele não fazia as contas), o desenho não ficaria correcto... 

**Ou lembramo-nos de um camião (imenso), visto há dias num pequeno filme, cuja deslocação (avanço) perpendicular ao plano de um arco, permitia ir fazendo um túnel, exactamente como se se tratasse de uma extrusão. Grande ideia, sobretudo se o túnel é longo, ou se fizerem vários com a mesma dimensão!

***Devendo ainda referir-se um COSPLAY and PICS cada vez mais em voga, que na sua versão menos elaborada sempre nos incomodou: Ele são as feiras medievais (Óbidos, Sta Maria da Feira, outras), para ensinar/materializar a vida num tempo que já passou; são figurantes vestidas de cozinheiras, ou uns pobres todos sujos para nos mostrarem as cozinhas dos tempos victorian, as histórias de Charles Dickens passadas na cidade. Ou são até, pasme-se, já mais trabalhadinho (conferindo até o grau de mestrado!), filminhos pirosos com Francis Cook e a família a mostrarem Monserrate aos turistas... 

Enfim, tenhamos dó de tanta falta de imaginação. Ou do seu bloqueio! Pois para alguns saciarem a sua incapacidade de criar imagens mentais, então materializam-nas e depois fornecem-nas (as suas próprias imagens mentais) para o público. Tratando todos os outros como incapazes de formarem mentalmente os seus próprios cenários.

Como se as leituras dos caracteres (tão abstractos) dos textos de um livro tivessem sempre que ter muita BD a acompanhar? Ou inúmeros filminhos, servidores de «visões-já-prontas» para as mentes alheias: as quais, sabe-se lá, não são elas próprias muito mais imaginativas e ricas?


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