Inspirado na Nova História (de Jacques Le Goff) “Prima Luce” pretende esclarecer a arquitectura antiga, tradicional e temas afins - desenho, design, património: Síntese pluritemática a incluir o quotidiano, o que foi uma Iconoteologia
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Fev 17
publicado por primaluce, às 00:00link do post | comentar

Claro que isso nos dá para pensar! Até no Wally...

 

Ao longo dos anos – ou, connosco, talvez mais ao longo das décadas? -, deve confessar-se que a frase (ditatorial) de que “Gostos não se discutem”, nos primeiros anos a tomámos como certa. Mas que, com o tempo, se foi tornando, crescentemente, uma hiper-obsolescência. Sobretudo depois de estudar o Palácio de Monserrate, e de se ter então compreendido a importância de David Hume para as teorias do Gosto.

Este filósofo inglês, que aprofundou algumas ideias sobre o Gosto*, foi amigo pessoal de Horace Walpole. Ou seja, de quem fez Strawberry Hill: a Casa dos arredores de Londres, em geral considerada uma das primeiras obras neogóticas.

Em nossa opinião, foi também por interposta pessoa – através de Robert Walpole, embaixador inglês em Portugal, que era primo direito de Horace Walpole – que o Aqueduto de Lisboa se tornou ainda muito mais conhecido na Europa. E assim influenciou a casa de Strawberry Hill: fascinados que todos estavam, desde meados do século XVIII (1748), com a Arcaria do Vale de Alcântara, que em 1755, integrando os maiores arcos de pedra do mundo, resistiu ao (arrasador e celebérrimo) Terramoto de Lisboa.

Mas estas não são histórias directas, ou que se possam contar de uma forma linear (impróprias para o Facebook!). Pois como se lê há que ir acrescentando, sempre, novas informações: que aumentam a complexidade do tema (e exigem imensa atenção dos leitores).

Como por exemplo, que a Casa de Strawberry Hill passou por sucessivas campanhas de obras, durante várias décadas. E depois também, que veio a influenciar a 1ª versão da casa de Monserrate: a obra que Gérard De Visme (inglês de origem francesa) construiu em Sintra (c. 1790). Este era um destacado membro da British Factory, e, portanto, muito próximo do «embaixador» inglês**.

A primeira versão de Monserrate, como já se explicou, ainda hoje regista - estão lá (ver a seguir) - várias indecisões no desenho do Arco Quebrado; aquele que a maioria, erroneamente, designa por Ogiva, ou Arco Gótico***.

Monserrate-ZonaCozinhas-1987.JPG

 Mas em Strawberry Hill as indecisões foram mais de carácter historicista. Também porque queriam fazer os desenhos correctos, tal como eram os primeiros arcos quebrados, na Idade Media, e, sobretudo, também obras de maior dimensão. E isso levou a pesquisas arqueológicas (que depois se revelaram ricas e bastante importantes, do ponto de vista histórico).

E ainda também porque, num tempo em que se estavam a misturar (ou numa miscigenação sempre a crescer, em cada obra que se fazia) formas típicas da Índia, da China (as "Chinoiseries"), ou de Itália. E neste caso, quer das obras mais belas e melhor proporcionadas, como eram os trabalhos de Andrea Palladio (m.1580) - de raiz clássica; quer ainda de algumas obras da Antiguidade Tardia - que já tinham sido construidas por alguns dos primeiros descendentes dos povos germânicos (antigos bárbaros), que se tinham querido tornar, e afirmar, cristãos. Por tudo isto era essencial pesquisar (muito), e saber fazer várias «distinções».

É que no século XVIII, e dados os inúmeros novos conhecimentos que o enciclopedismo e a arqueologia estavam também nessa época a introduzir na (em grandes doses e bem para dentro de) cultura europeia. Por isso - e ainda com a Inglaterra a viver a 1ª fase da Revolução Industrial - percebe-se que Horace Walpole e os seus amigos, todos numa azáfama (consciente e deliberada, já aí em torno, e em busca de uma Nova Arquitectura) tenham recorrido a um Commitee of Taste.

Por fim, ainda sobre o "Gosto" e o "Não Gosto", estamos convictos – até que as Neurociências se debrucem sobre a Arte, e clarifiquem esta temática… - que os olhos (ou o nervo óptico), tal como as papilas gustativas, levam ao cérebro informações que, em geral, serão aceites de imediato. Daí o “gosto” e o “não gosto” logo expressos, quase automaticamente, e sem pensar.

Só que há outro nível de Gostar! Por exemplo, quando se começa a ver/ler uma obra (visual) e a compreender o esforço de quem a fez para comunicar uma mensagem. É então que um gôsto mais imediatista, ou, chamemos-lhe "sensível-afectivo", passa a ser substituído por um fascínio, que é curiosidade (muito mais intelectual).

O qual faz com as formas, que podem não ser de imediato as mais simpáticas (e aquelas a que estávamos habituados, e portanto as de que mais gostamos), passem a ser «gostadas» como novos vocábulos: i. e., pelos seus significados e pelas novas ideias que imprimem (ou plasmam) nas Obras de Arte.

Assim, aqui passámos também a dizer, que é na fase imediatamente anterior, e dependente do equipamento intelectual de cada um, que o “Não Gosto”, do que tinha sido antes uma primeira repulsa, se transforma depois em sucessivas descobertas, e num “Gosto imenso!” (positivo e afirmativo).

Por exemplo, muitos actuais apaixonados pelas obras de Paula Rego, numa 1ª fase, até entenderem o que estavam a ver, tinham reagido, quase naturalmente, com repulsa.

É complexo? Re: É!

Mas transforma as obras (de Arte e a Arquitectura) num imenso fascínio! Como se fossem mapas, onde há vários detalhes a descobrir, muitos porquês a colocar, e a tentar responder-lhes.

Lembra o Wally: o “Where’s Wally?”, imagens de livros que, por si, não diremos que são de uma grande beleza…? Mas que têm a maior graça, por um energizar da mente, que se torna bastante divertido!

Enfim, também no GOSTO, há quem seja muito preguiçoso

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*Antes e depois de David Hume, muitos mais estudaram a questão. A História da Estética, de Raymond Bayer, explica o tema. Com tradução (fantástica) de José Saramago.

**Na altura a designação era outra. Estamos a resumir imenso a história que se pode ler no Iº capitulo de Monserrate uma Nova História, Livros Horizonte, Lisboa 2008.

*** O Pointed Arch inglês. Acontece que lamentavelmente, as Universidades – ao contrário dos arquitectos que trabalham para todos, e constroem para um qualquer cliente da sociedade (sem se esconderem); do que temos visto, já as instituições do Ensino (dito) Superior, fazem «guerrinhas» ridículas de protagonismos; fazem «muita caixinha» e têm muitos segredos, no que concerne à sua (suposta) sapiência.

Razão para se desconfiar da mesma, patente nas inseguranças de muitos doutores. Por aí se percebe o quanto lhes falta de convicção, ou de certezas?

Corolário lógico: não querendo cair do pedestal, não se batem para tentar trazer para fora (de si, e das suas instituições) os conhecimentos que não só são acessíveis a todos, mas sobretudo enriquecedores de todos.

E porque as Escolas de Arte raramente ajudam a Sociedade a entender-se, assim, para ser útil, vai «passar» no Facebook!


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